Amor Impossível II
Capítulo 9 — A Armadilha do Passado Revelado
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 9 — A Armadilha do Passado Revelado
O olhar de Ricardo sobre Miguel era de puro desprezo, e Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquele momento íntimo na varanda, a promessa silenciosa de Miguel, tudo foi abruptamente diluído pela presença ameaçadora de Ricardo. Ela sabia que havia cometido um erro, um deslize perigoso que colocaria ambos em risco.
"Você se engana, Ricardo", Miguel respondeu, a voz firme, sem vacilar diante do olhar gélido do empresário. "O coração de Isabella não é seu para possuir."
Ricardo soltou uma risada curta e seca. "O coração? Você ainda fala de amor, Miguel? Que tolo. Em nosso mundo, Isabella, o que importa é o poder, o controle. E eu tenho ambos." Ele estendeu a mão para Isabella, um gesto possessivo. "Venha, querida. Os convidados estão esperando."
Isabella hesitou por um instante. Olhou para Miguel, os olhos dele transmitindo uma mistura de tristeza e desafio. Ela sabia que ele estava ali por ela, que lutaria por ela. Mas ela também sabia que, naquele momento, sua prioridade era sua mãe.
"Eu preciso ir, Miguel", ela disse, a voz embargada. "Eu… agradeço sua preocupação."
Com um nó na garganta, Isabella seguiu Ricardo, deixando Miguel para trás, a figura dele se perdendo na multidão. Sentiu o braço de Ricardo em sua cintura, um toque que a repelia, mas que ela era forçada a suportar.
O restante da noite foi um borrão de sorrisos forçados e conversas vazias. Isabella sentia o olhar de Ricardo sobre ela, um lembrete constante de sua posse. Cada palavra que ela dizia, cada gesto que fazia, era cuidadosamente medido, com medo de provocar a ira dele.
Na manhã seguinte, a tensão no apartamento era palpável. Isabella se levantou cedo, a insônia a atormentando. Ela sabia que Ricardo não a deixaria esquecer o que havia acontecido na noite anterior.
Ele apareceu na sala de estar com uma xícara de café na mão, um sorriso calculista nos lábios. "Dormiu bem, querida?"
Isabella se encolheu. "Sim. Obrigada."
"É bom saber que você está recuperada. Afinal, ainda temos muitos preparativos para o casamento", Ricardo disse, o tom leve, mas com uma subcorrente de ameaça. "E eu não gosto de distrações. Especialmente de ex-namorados intrometidos."
"Miguel não é um intrometido. Ele se importa comigo", Isabella respondeu, a voz ganhando um pouco mais de firmeza.
Ricardo soltou uma risada. "Ah, ele se importa? Que fofo. Mas o amor não paga as dívidas, Isabella. E as suas são bem altas." Ele a olhou com um brilho perverso nos olhos. "E você sabe disso. Você sabe o que está em jogo."
O lembrete de sua mãe, de sua situação financeira, a atingiu como um soco. Ela estava presa.
Ricardo se aproximou dela, o cheiro de seu perfume caro pairando no ar. "Não se preocupe, querida. Você está segura comigo. E eu vou cuidar de tudo. Como sempre."
Nos dias seguintes, Ricardo intensificou a pressão. Ele a isolou ainda mais, controlando seus contatos, suas saídas. Qualquer menção a Miguel era recebida com ameaças veladas. Isabella se sentia cada vez mais sufocada, cada vez mais desesperada.
Uma tarde, enquanto vasculhava algumas caixas antigas de seu pai, em busca de algo que pudesse usar contra Ricardo, ela encontrou um álbum de fotos. Entre as imagens de família, havia uma série de fotos antigas, em preto e branco, que a fizeram gelar. Eram fotos de seu pai com a mesma mulher que ela havia visto na foto antiga do escritório de Ricardo. E usando o mesmo colar de esmeraldas.
Mas o que a chocou foi a data. Aquelas fotos eram de anos atrás, antes mesmo de seu pai conhecer sua mãe. E em algumas delas, seu pai parecia mais feliz do que Isabella jamais o vira.
A verdade a atingiu como um raio. A mulher do colar não era apenas uma "antiga amiga" de Ricardo. Ela era alguém importante na vida de seu pai. E o colar… não era uma herança da avó de Ricardo, mas sim algo que ele sabia que pertencia à família dela, e que ela, de alguma forma, havia perdido.
A revelação a fez questionar tudo. A história que lhe fora contada sobre seu pai, a forma como Ricardo havia se aproximado de sua família, tudo parecia um plano cuidadosamente elaborado.
Ela decidiu que precisava confrontar Ricardo. Não com raiva, mas com a verdade. Precisava entender o que ele sabia, e por que ele estava tão interessado em sua família.
Naquela noite, Ricardo estava em seu escritório, revisando documentos. Isabella entrou, a coragem recém-descoberta a impulsionando. Ela segurava o álbum de fotos nas mãos.
"Ricardo", ela disse, a voz firme. "Precisamos conversar."
Ele a olhou, a surpresa estampada em seu rosto. "Isabella? O que faz aqui?"
"Eu encontrei isso", ela disse, colocando o álbum sobre a mesa. "E eu quero saber a verdade. Sobre essas fotos. Sobre essa mulher. E sobre o meu pai."
Ricardo pegou o álbum, folheando as páginas com um ar de desagrado. Seus olhos escuros percorreram as fotos, e um sorriso sarcástico surgiu em seus lábios.
"Ah, você descobriu a história secreta, não é? A paixão proibida do seu pai." Ele riu. "Ele nunca foi um homem de meias palavras, seu pai."
"Ele não me contou nada sobre ela", Isabella disse, confusa.
"É claro que não. Ele não queria que você soubesse que ele tinha um caso antes de conhecer sua mãe. E o pior, que a mulher que ele amava… era a minha mãe."
As palavras de Ricardo a atingiram como um golpe. Mãe? A mulher do colar era a mãe de Ricardo? Isso significava que sua família e a família de Ricardo estavam ligadas por um passado que ela desconhecia.
"Como… como isso é possível?", Isabella gaguejou.
"Simples. Seu pai e minha mãe se amavam. Mas as circunstâncias, as famílias… tudo os separou. Minha mãe, sendo uma mulher orgulhosa, decidiu que não seria a amante. E seu pai… bem, ele acabou conhecendo a sua mãe e construindo uma vida com ela. Mas ele nunca esqueceu a minha."
Ricardo se aproximou dela, o olhar penetrante. "E o colar de esmeraldas… era um presente dele para a minha mãe. Uma promessa de que ele voltaria. Algo que ele nunca cumpriu."
Isabella sentiu o chão sumir sob seus pés. Aquele casamento, aquela proposta… tudo parecia ainda mais sombrio agora. Ricardo não estava apenas se casando com ela por conveniência. Havia algo mais profundo, uma busca por vingança, ou talvez, uma forma distorcida de honrar o passado.
"Por que você não me contou isso antes?", Isabella perguntou, a voz embargada.
"Porque não era o momento. E porque eu queria ter certeza de que você faria a escolha certa. A escolha que uniriria nossas famílias, que apagaria o passado, e nos daria o poder que sempre merecemos." Ricardo a pegou pelo queixo, forçando-a a olhá-lo. "Agora você sabe, Isabella. E a verdade é que você não tem para onde fugir. Você é minha. E nossas famílias, gostem ou não, estão destinadas a se unir."
O aperto de Ricardo era forte, e Isabella sentiu o medo retornar com força total. A armadilha do passado havia sido revelada, e ela estava presa em seus tentáculos, sem saída aparente.