Amor na Escuridão III
Capítulo 3 — O Encontro no Terraço Enviesado
por Valentina Oliveira
Capítulo 3 — O Encontro no Terraço Enviesado
A noite caiu sobre o Rio de Janeiro como um véu de seda negra, pontilhada pelas luzes cintilantes da cidade que pareciam desafiar a escuridão. Clara, em um elegante vestido azul-marinho que realçava seus olhos, sentia o coração bater descompassado contra as costelas. Sofia estava ao seu lado, tão tensa quanto ela, seus olhares trocando mensagens silenciosas de apoio e apreensão. O Terraço do Copacabana Palace, com sua vista panorâmica da orla iluminada, era um cenário de beleza estonteante, mas para Clara, naquele momento, era um palco de ansiedade crescente.
Eles chegaram às 19h50, dez minutos antes do horário combinado. O lugar estava quase vazio, com apenas alguns casais desfrutando da brisa noturna e do cenário paradisíaco. Clara sentia os olhares curiosos dos poucos presentes sobre ela, como se pudessem sentir a tensão que emanava de seu corpo.
“Ele não chegou ainda”, Sofia sussurrou, apertando a mão de Clara. “Talvez ele tenha desistido.”
“Ou talvez esteja apenas atrasado”, Clara respondeu, a voz um fio. Ela tentava manter a calma, mas cada minuto que passava a deixava mais apreensiva. O que ela diria a ele? Como reagiria ao vê-lo depois de tantos anos? A imagem dele em sua mente era a de um homem charmoso e sedutor, mas também volátil e perigoso.
Pouco depois das 20h, uma figura surgiu na entrada do terraço. Alto, com cabelos escuros penteados para trás e um porte elegante, ele parou por um instante, seus olhos percorrendo o local. Clara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Não havia dúvida. Era Ricardo.
Ele era diferente, mais maduro, com algumas linhas de expressão ao redor dos olhos que não estavam lá antes. Mas o olhar… o olhar era o mesmo. Intenso, penetrante, capaz de ler a alma. Ele a viu. Seus olhos se fixaram nos dela, e por um breve instante, Clara sentiu como se o tempo tivesse parado. Um sorriso lento e enigmático curvou seus lábios.
Ele caminhou em direção a elas, e Clara sentiu um nó na garganta. Sofia permaneceu firme ao seu lado, uma presença protetora.
“Clara”, ele disse, a voz profunda e rouca, com um timbre que Clara não ouvia há anos. “Você veio.”
“Ricardo”, ela respondeu, a voz um pouco trêmula. “Você disse que queria me ver.”
Ele sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. “Sim. Eu precisava te ver. Você não mudou muito. Continua linda.”
Aquele elogio, que antes a faria corar, agora soava vazio, calculado. “E você, Ricardo, mudou bastante.”
“A vida muda as pessoas, Clara. Principalmente quando elas se afastam do que mais amaram.” Ele a encarou, e Clara sentiu que ele estava tentando desvendar os segredos guardados em sua alma. “E você? O que tem feito?”
Clara hesitou. Contar a ele sobre Miguel parecia uma provocação, uma forma de mostrar que ela o havia superado. Mas esconder era mentir. “Eu encontrei a felicidade, Ricardo. Encontrei o amor.”
O rosto de Ricardo endureceu por um instante, mas ele rapidamente recuperou a compostura. “Que bom para você. Eu sempre soube que você merecia ser feliz.” Ele fez uma pausa, e seu olhar se fixou em Sofia. “E quem é sua amiga?”
“Esta é minha irmã, Sofia”, Clara apresentou. “Sofi, este é Ricardo.”
Sofia apertou a mão de Ricardo com firmeza, seus olhos frios e desafiadores. “É uma honra conhecer o homem que inspirou tantas canções e tantas lágrimas em minha irmã.”
Ricardo riu, um som forçado. “Eu não sabia que era tão famoso.”
“Você era mais do que famoso, Ricardo. Você era um furacão. E furacões destroem tudo em seu caminho.” A voz de Sofia era cortante, e Clara admirou a coragem da irmã.
Ricardo desviou o olhar de Sofia e voltou-se para Clara. “Eu não vim aqui para discutir o passado, Clara. Vim para te pedir desculpas. Por tudo. Eu fui um idiota. Um covarde. Eu fugi quando deveria ter ficado e lutado.”
As palavras dele eram o que Clara esperava ouvir, mas a sinceridade em sua voz era questionável. “Por que agora, Ricardo? Por que depois de todos esses anos?”
“Porque eu cometi um erro terrível. Fui enganado, traído. Perdi tudo. E a única coisa que me restou foi a lembrança de você. De nós.” Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Clara. “Eu te amei, Clara. Mais do que amei a mim mesmo.”
Clara sentiu uma pontada de dor ao ouvir aquelas palavras. Era a mesma paixão arrebatadora que ela havia conhecido, a mesma intensidade que a consumira. Mas agora, era diferente. Ela viu a fragilidade por trás da pose, a dor genuína em seus olhos.
“Você nos destruiu, Ricardo”, Clara disse, a voz embargada. “Você me destruiu.”
“Eu sei. E eu me arrependo todos os dias. Mas eu não vim aqui para te pedir perdão, Clara. Vim para te pedir ajuda.” A súbita mudança de assunto a pegou de surpresa. “Eu estou em apuros. Pessoas poderosas estão atrás de mim. Eu preciso desaparecer por um tempo. E eu pensei que você… que você poderia me ajudar a ficar escondido.”
Clara o encarou, chocada. Aquele homem, que a havia feito sofrer tanto, agora pedia sua ajuda? Era surreal. “Você está louco, Ricardo? Você quer que eu te ajude a se esconder? Você quer que eu coloque Miguel em perigo?”
“Miguel? Ele está envolvido nisso?” A expressão de Ricardo mudou, uma sombra de preocupação cruzando seu rosto.
“Miguel é o meu presente, Ricardo. É o homem que eu amo. E eu não vou arriscar nada que temos por você.” A voz de Clara agora era firme, sua decisão tomada.
“Mas se essas pessoas te encontrarem, elas não vão parar em mim, Clara. Elas vão atrás de quem está perto de você. Elas podem até machucar o seu amado Miguel.” A ameaça velada pairava no ar, fria e calculista.
Sofia interveio, a voz tensa. “Você está nos ameaçando, Ricardo?”
“Não, Sofia. De forma alguma. Eu só estou te alertando. Eu não quero que ninguém mais se machuque por minha causa. Eu só quero sumir. Preciso de um lugar seguro por um tempo.” Ele olhou para Clara com uma intensidade desesperadora. “Por favor, Clara. Eu confio em você. E só em você.”
Clara sentiu uma onda de medo e confusão. Aquele homem era perigoso, manipulador, mas a dor em seus olhos parecia genuína. E se ele estivesse falando a verdade? E se o perigo que ele representava pudesse atingi-la através de Miguel?
“Eu não posso, Ricardo. Você sabe que não pode.”
“Eu entendo”, ele disse, com um suspiro de desapontamento. Ele se virou para ir embora, mas parou. “Uma última coisa, Clara. Aquela foto… eu a encontrei por acaso. Eu não sabia que você estava com alguém.”
Ele se afastou, deixando Clara e Sofia em um silêncio carregado de emoção. O encontro, que Clara temia tanto, tinha sido ainda mais perturbador do que ela imaginara. O passado havia voltado, não apenas com suas lembranças dolorosas, mas com um pedido de socorro e uma ameaça implícita.