Amor na Escuridão III
Capítulo 5 — A Armadilha do Amor e a Sombra da Desconfiança
por Valentina Oliveira
Capítulo 5 — A Armadilha do Amor e a Sombra da Desconfiança
O silêncio no apartamento de Clara naquela manhã era pesado, quebrado apenas pelo som suave do mar quebrando na praia distante. Miguel chegaria em poucas horas, e a ideia de encará-lo, sabendo o que sabia, era quase insuportável. Clara se olhava no espelho, os olhos fundos e a pele pálida, um reflexo da tempestade que a consumia. A conversa com o homem que Ricardo enviara na noite anterior havia sido um pesadelo. A ameaça a Miguel, a confirmação de que Ricardo a usara, a deixaram em frangalhos.
Sofia a encontrou na sala, com uma xícara de chá fumegante. “Você não dormiu, não é?”
Clara balançou a cabeça. “Não. Eu não consegui parar de pensar naquele homem. Naquelas palavras.” Ela contou a Sofia sobre o encontro no terraço, sobre a arma, sobre a ameaça a Miguel.
Sofia ouviu atentamente, o rosto cada vez mais sombrio. “Eu sabia. Eu sabia que ele não era confiável. Ele te usou, Clara. Ele te usou de novo, e dessa vez, ele colocou Miguel em perigo.”
“E agora? O que eu faço, Sofi?” A voz de Clara era um sussurro de desespero. “Eu não posso deixar nada acontecer com o Miguel. Ele é tudo para mim.”
“Você vai ter que jogar o jogo dele, Clara. Por enquanto. Você vai ter que fingir que não sabe de nada. E quando Miguel chegar, você vai ter que ser forte. Você vai ter que se afastar dele um pouco.”
O coração de Clara apertou. Afastar-se de Miguel? A ideia era torturante. Eles estavam prestes a reacender o amor que os unia, e agora ela precisaria criar uma distância, uma barreira entre eles.
“Por quê? Por que eu tenho que me afastar dele?”
“Porque se aqueles homens virem você com ele, eles podem pensar que você está escondendo ele. Ou que ele está envolvido. Eles podem usá-lo contra você. Ou contra o Ricardo. É um risco muito grande. Você precisa protegê-lo.” Sofia segurou as mãos de Clara. “E quando Miguel chegar, você vai ter que estar calma. Não demonstre nada. Ele não pode desconfiar de nada.”
A ideia de enganar Miguel, o homem que confiava nela incondicionalmente, era agonizante. Ela sentiu uma pontada de culpa, de deslealdade. Mas a segurança dele era a sua prioridade.
Quando Miguel chegou, o apartamento se encheu de uma energia renovada. O sorriso dele, o abraço apertado, o cheiro familiar de sua pele… Clara sentiu uma onda de amor e gratidão que quase a fez desmoronar. Ela se forçou a sorrir, a fingir que tudo estava bem.
“Oi, meu amor”, ele disse, beijando-a com paixão. “Estava com tanta saudade que achei que não aguentaria mais um dia.”
“Eu também, meu amor”, Clara respondeu, mas a voz soou distante, fraca. Ela se afastou um pouco, para o desapontamento de Miguel.
“O que foi, princesa? Algo errado?” A preocupação em seus olhos era palpável.
“Não, nada. Só estou um pouco cansada da viagem. E… e preciso te contar uma coisa.” Clara respirou fundo, reunindo coragem. “Eu… eu acho que precisamos de um tempo.”
As palavras saíram como um tiro. Os olhos de Miguel se arregalaram, o sorriso desaparecendo de seu rosto. “Um tempo? Como assim, Clara? Nós estamos bem, não estamos?”
“Nós estamos bem, meu amor. Mas eu… eu me sinto confusa. Precisamos de um tempo para pensar.” Clara não conseguia olhá-lo nos olhos. Ela sentiu o peso da mentira, da desconfiança que ela estava plantando em seu relacionamento.
“Confusa? Clara, o que está acontecendo? Você está escondendo alguma coisa de mim?” A voz de Miguel era agora tensa, a desconfiança começando a surgir.
“Não, meu amor. Eu não estou escondendo nada.” Clara mentiu novamente, sentindo a culpa corroê-la. “É só… uma fase. Eu preciso pensar.”
Miguel a observou por um longo momento, sua expressão de confusão gradualmente dando lugar a uma mágoa profunda. “Eu pensei que tínhamos algo especial, Clara. Eu pensei que você confiava em mim.”
“Eu confio em você, Miguel. Mais do que tudo.” As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Clara. “É só que… eu preciso de espaço.”
Miguel a olhou, a dor em seus olhos cortando Clara como uma faca. Ele se afastou dela, um abismo se abrindo entre eles. O amor que eles compartilhavam parecia rachar sob o peso da desconfiança e da incerteza. Clara havia protegido Miguel, afastando-o do perigo iminente, mas ao fazer isso, ela arriscava perder o amor dele para sempre. A escuridão de Ricardo havia voltado, e agora, lançava uma sombra de dúvida sobre o futuro de seu amor.