Amor na Tempestade III

Amor na Tempestade III

por Isabela Santos

Amor na Tempestade III

Autor: Isabela Santos

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Capítulo 1 — O Eco de Um Adeus Silencioso

O sol da tarde banhava a cidade com um dourado melancólico, pintando de tons quentes as fachadas antigas do centro histórico. Helena, com os dedos ágeis percorrendo as teclas do piano em seu apartamento arejado, sentia a melodia se transformar em um lamento. Cada nota parecia carregar o peso de meses, de um ano, de uma vida inteira que se desdobrava em um turbilhão de incertezas. A última vez que sentira aquele aperto no peito, aquela mistura de saudade e frustração, fora naquela noite fria de agosto, quando o vento uivava lá fora, espelhando a tempestade que se alastrava em sua alma.

O aroma de café fresco pairava no ar, mas não trazia o conforto usual. Helena fechou os olhos por um instante, a imagem de Pedro, com o olhar perdido no horizonte distante, gravada a ferro e fogo em sua memória. Ele se fora, levado pela correnteza de sonhos e responsabilidades que ele dizia serem maiores que eles dois. As palavras dele, ditas num tom baixo e resignado, ainda a assombravam: "Helena, eu preciso ir. Preciso encontrar o meu caminho, longe de tudo que me prende." E o que o prendia? Ela? O amor deles? O futuro que haviam planejado com tanto esmero, tijolo por tijolo, sorriso por sorriso?

Ela dedilhava uma sequência de acordes que Pedro adorava, uma composição própria que ele chamava de "Nossa Melodia". Era uma canção sobre esperança, sobre um futuro luminoso, sobre um amor que resistiria a tudo. Agora, a melodia soava como um eco distante, uma promessa quebrada. Helena suspirou, o som quase inaudível em meio à música. A saudade era uma fera faminta, roendo seus dias, roubando seu sono. Ela sabia que deveria seguir em frente, que a vida continuava, mas cada passo parecia atravessar um campo minado de lembranças.

A campainha tocou, vibrante e insistente, quebrando o encanto musical. Helena hesitou. Quem seria? Os amigos, por mais bem-intencionados que fossem, sempre falavam com um tom de pena nos olhos, como se sua dor fosse um espetáculo. Ela se levantou, a saia de algodão leve rodopiando em torno de seus tornozelos, e caminhou até a porta.

Era Sofia, sua melhor amiga desde a infância, com seus cabelos cacheados desgrenhados e um sorriso que tentava disfarçar uma preocupação genuína.

"Helena! Que cara é essa? Parece que viu um fantasma." Sofia entrou sem ser convidada, um hábito que Helena sempre tolera com carinho. Ela carregava uma caixa de sapatos antiga, um pouco empoeirada.

"Talvez eu tenha visto", Helena respondeu, um sorriso fraco brincando em seus lábios. "O fantasma de um amor perdido."

Sofia colocou a caixa sobre a mesa de centro e se sentou no sofá, puxando Helena para sentar ao seu lado. "Falar de fantasmas não ajuda. Mas, eu trouxe algo que pode ser mais real." Ela abriu a caixa, revelando um amontoado de cartas amareladas e fotografias desbotadas. "Lembra disso? Nossas cartas da adolescência. A gente jurava que ia casar com o mesmo homem, lembra?"

Helena riu, um som rouco e sincero. "Eu lembro! E você dizia que eu pegaria o melhor!"

"E eu peguei!", Sofia retrucou, pegando uma foto. Nela, duas adolescentes sorridentes, com sardas e cabelos compridos, abraçavam-se em frente a um mar azul. "Olha a gente aqui, naquele verão em Arraial. Parecíamos tão confiantes, não é? A vida era tão simples."

Helena pegou outra foto. Era ela e Pedro, no mesmo Arraial, anos depois. Estavam mais velhos, mais maduros, mas o brilho nos olhos era o mesmo. Ele a segurava pela cintura, os lábios próximos aos seus. Um nó se formou em sua garganta. Aquela viagem fora um marco no namoro deles, um momento de cumplicidade intensa, onde juraram que o amor deles era eterno.

"E a vida, de repente, se tornou uma tempestade", Helena murmurou, a voz embargada.

Sofia apertou sua mão. "Eu sei que é difícil, amiga. Mas você não pode ficar presa nesse passado. Pedro escolheu o caminho dele. E você tem o seu."

"Qual é o meu caminho, Sofia? Viver a vida de uma viúva em vida? Ver todas as minhas esperanças se transformarem em pó?" Helena sentia a frustração borbulhar. Ela amava Pedro com uma intensidade que a consumia, e a partida dele a deixara com um vazio que parecia insuperável.

"Seu caminho é continuar tocando. Seu caminho é sorrir. Seu caminho é viver, Helena. Ele pode ter partido, mas o amor que você sente por ele não desapareceu, é verdade. Mas o seu amor por você mesma, esse sim você não pode deixar se apagar." Sofia a encarou com seriedade. "Eu vejo você definhando, Helena. E isso me dói mais do que qualquer coisa. Você é uma artista, uma mulher forte, que tem um futuro brilhante pela frente. Não se deixe consumir por essa dor."

Helena olhou para as fotos, para as cartas. Eram fragmentos de uma vida que parecia ter sido roubada. Uma vida que ela acreditava ser inabalável. Mas a realidade era cruel. Pedro não voltaria. Ele havia ido em busca de algo que, em sua visão, não existia mais ali.

"Eu tento, Sofia. Juro que tento. Mas parece que todas as manhãs o sol nasce com menos cor. E as noites são longas demais."

Sofia se aproximou e a abraçou forte. "Eu estou aqui com você. Sempre estarei. E se for preciso, a gente vai encarar essa tempestade juntas. Mas um dia, amiga, esse céu vai clarear. E você vai encontrar uma nova melodia para tocar."

Elas ficaram em silêncio por um tempo, o peso da dor compartilhado entre elas. Helena sentiu um leve alívio, a presença de Sofia era um bálsamo para sua alma ferida. Mas a tempestade, mesmo que momentaneamente abrandada, ainda pairava em seu horizonte. O eco do adeus de Pedro era um som persistente, que ela temia nunca conseguir silenciar completamente.

Naquela tarde, enquanto o sol se punha tingindo o céu de alaranjado e roxo, Helena pegou uma das cartas de Pedro. Era antiga, datada de antes de tudo. Nela, ele falava sobre o futuro deles com tanta paixão, com tanta convicção. Ele descrevia a casa que construiriam, os filhos que teriam, as viagens que fariam. E ele terminava com uma frase que a assombrava: "Nosso amor é a âncora que nos impede de naufragar em qualquer mar revolto."

"Que mar revolto, meu amor?", ela sussurrou, lágrimas escorrendo em seu rosto. "Você mesmo criou."

Ela fechou a caixa de memórias. Não era hora de reviver o passado com tanta intensidade. Era hora de tentar encontrar uma nova melodia, uma melodia que a guiasse para fora da tempestade. Mas o caminho, ela sabia, seria longo e doloroso. E o eco de um adeus silencioso, mas devastador, continuaria a ressoar em seu coração.

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