Amor na Tempestade III

Capítulo 17 — A Carta e a Fuga Noturna

por Isabela Santos

Capítulo 17 — A Carta e a Fuga Noturna

O papel amarelado parecia vibrar em suas mãos, impregnado com a poeira de décadas e a carga de um amor que, talvez, nunca tenha sido plenamente vivido. Helena releu a carta pela terceira vez, cada palavra gravada em sua mente como um eco do passado. A caligrafia elegante, mas trêmula, revelava uma urgência que a fez sentir um frio na espinha. Era dirigida à mãe de Rafael, um amor secreto, uma promessa de fuga e, mais intrigante ainda, a menção a algo de "grande valor" que seria escondido antes da partida.

"Esconderei o que é nosso, o que pode nos salvar, no lugar mais seguro que conhecemos. Aquele que guarda as lembranças mais doces e, ao mesmo tempo, mais amargas. Onde as raízes se aprofundam, e o silêncio fala mais alto."

Onde as raízes se aprofundam? Onde o silêncio fala mais alto? A mansão era um lugar de silêncio, um silêncio que agora parecia carregar vozes sussurrantes de segredos. Helena olhou ao redor, os olhos percorrendo a mobília antiga, as paredes com seus retratos sombrios. Onde estaria o "lugar seguro"? Um cofre? Um compartimento secreto? A carta não dava pistas concretas, apenas metáforas que pareciam desafiar sua lógica.

Ela voltou à mesa da sala de jantar, onde havia deixado seu carro aberto. O sol, que antes parecia tímido, agora despontava com mais força, lançando raios dourados através das janelas empoeiradas, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. A luz parecia desmistificar um pouco o ambiente sombrio, mas a tensão permanecia.

Helena sentou-se, o álbum de fotografias aberto ao seu lado, a carta sobre a mesa. Ela precisava pensar. Quem era o remetente? Um amor da mãe de Rafael, que, por algum motivo, precisou fugir? E o que seria esse "algo de grande valor" que poderia "salvá-los"? Dinheiro? Joias? Documentos importantes?

Ela se lembrou de Rafael mencionando que sua mãe sofria de uma doença que a debilitou por anos, e que a família passou por tempos difíceis financeiramente. Poderia ser algo relacionado a isso? Uma herança escondida? Um plano de fuga que falhou?

O pensamento de Rafael a atingiu com força. Ele havia partido com uma urgência, com uma necessidade que parecia ligada a questões familiares. Seria possível que ele soubesse desse segredo? Que a partida dele estivesse relacionada a recuperar esse "algo de grande valor"? A conexão parecia forte demais para ser mera coincidência.

Helena se levantou e começou a andar pela sala novamente, examinando cada detalhe com um olhar mais minucioso. Ela passou os dedos pelas molduras dos quadros, bateu suavemente nas paredes, procurando por algum som oco, alguma indicação de um esconderijo. Nada. A mansão parecia sólida, sem segredos visíveis.

Ela voltou ao quarto onde encontrara o álbum. A penteadeira, os frascos de perfume. Havia um pequeno espelho de mão, com o cabo de prata trabalhado. Ela o pegou, o vidro embaçado pelo tempo. Ao limpá-lo, percebeu que havia algo gravado no metal: um pequeno símbolo, uma rosa estilizada. Ela não se lembrava de ter visto algo parecido no quarto de Rafael em Paraty.

Naquele momento, o telefone em sua bolsa tocou, assustando-a. Era Sofia.

"Helena! Onde você está? Você sumiu! Deixou um bilhete vago e agora não atende o celular!", Sofia exclamou, a voz carregada de preocupação.

Helena respirou fundo. "Sofia, eu... eu precisava de um tempo. E eu precisava resolver algumas coisas. Eu estou em Minas Gerais."

"Minas Gerais? O que você foi fazer lá, Helena? Você está bem?"

"Eu estou bem, Sofia. Só que... eu acho que descobri algo sobre o passado de Rafael. Algo que ele nunca me contou." Helena hesitou, a decisão de compartilhar ou não pesando em sua mente. Sofia era sua amiga, e ela confiava nela. "Eu vim para a mansão antiga da família dele."

Houve um breve silêncio do outro lado da linha. "A mansão? Aquele lugar que ele raramente mencionava?", Sofia perguntou, a voz agora mais tensa. "Helena, você tem certeza do que está fazendo? Esse lugar tem uma história complicada."

"Eu sei. E eu encontrei uma carta. Uma carta antiga, da mãe dele. E ela fala de um segredo, de algo que foi escondido aqui." Helena explicou o conteúdo da carta, a menção ao "lugar seguro" e ao "algo de grande valor".

Sofia ficou em silêncio por mais alguns segundos. Quando falou, sua voz era mais baixa, quase um sussurro. "Helena, você precisa ter cuidado. Há coisas que Rafael esconde, sim. E nem sempre são coisas boas."

"O que você quer dizer, Sofia? Você sabe de algo mais?", Helena insistiu.

"Eu sei que ele tem inimigos, Helena. Pessoas que o procuram. E ele fez de tudo para manter o passado dele longe de você. Talvez por isso ele tenha sumido. Talvez esse segredo seja perigoso."

Perigoso. A palavra ecoou na mente de Helena. Ela olhou ao redor da mansão, sentindo uma nova onda de apreensão. A beleza decadente do lugar agora parecia ameaçadora.

"Eu preciso encontrar esse segredo, Sofia. Eu preciso entender por que Rafael se foi. E eu preciso saber se ele está em perigo."

"Eu não sei se isso é uma boa ideia, Helena. Talvez você deva voltar. Deixe que Rafael resolva isso. E quando ele voltar, vocês podem conversar."

"Eu não posso voltar agora, Sofia. Eu já comecei. E eu sinto que estou perto." Helena sentiu um instinto forte, uma intuição que a impelia a continuar. "Se algo acontecer, se eu precisar de ajuda, eu te ligo."

"Tudo bem. Mas por favor, tenha cuidado. E me mantenha informada."

Desligaram o telefone. Helena se sentiu um pouco mais forte, menos sozinha, mesmo sabendo que Sofia estava a centenas de quilômetros de distância. Ela voltou a examinar a carta e o álbum de fotos. As raízes se aprofundam... Onde as raízes se aprofundam?

Ela se lembrou de uma pequena estufa nos fundos da mansão, visível através de uma das janelas da sala de jantar. Parecia abandonada, o vidro quebrado em alguns pontos. Talvez ali, onde as plantas cresciam e se enraizavam...

Com a carta em mãos, Helena saiu pela porta dos fundos, em direção à estufa. O caminho estava coberto de folhas secas e galhos caídos. A estrutura de ferro da estufa estava enferrujada, e o vidro, em alguns lugares, estava faltando. O interior estava cheio de vasos quebrados, terra espalhada e plantas mortas. Mas no centro, havia um canteiro mais arrumado, com algumas samambaias ainda verdes. E ali, no meio da terra úmida, algo brilhava levemente.

Helena se ajoelhou, os dedos procurando na terra. Era uma pequena caixa metálica, a ferrugem formando desenhos intrincados em sua superfície. Tinha o mesmo símbolo da rosa estilizada que ela viu no espelho de mão. A caixa não tinha fechadura visível, mas havia uma pequena abertura na lateral. Com cuidado, ela usou a ponta de uma chave que encontrou no chão para forçar a abertura.

A caixa se abriu com um clique suave. Dentro, não havia dinheiro ou joias. Havia um pequeno caderno de capa de couro, um conjunto de cartas amarradas com uma fita desbotada, e uma pequena pedra preciosa, de um azul profundo, que parecia capturar a luz e brilhar com uma intensidade incomum.

Helena pegou o caderno. Era o diário da mãe de Rafael. E as cartas eram do homem que escreveu a carta que ela encontrou. Ela abriu o diário em uma página aleatória. A caligrafia era diferente, mais firme, mas a dor e a saudade eram palpáveis. Falava de um amor proibido, de uma gravidez inesperada, de um homem que não podia assumir a paternidade por medo, por pressão familiar. Falava de como ela teve que entregar o filho, Rafael, para ser criado por outros, prometendo que um dia, quando fosse seguro, ela o buscaria.

Helena sentiu seu coração apertar. Rafael, abandonado? Criado por outros? As palavras do diário se misturavam com as cartas, contando uma história de sacrifício, de amor materno, de uma vida de dificuldades e segredos. E a pedra preciosa... era um símbolo desse amor, um presente de despedida, talvez?

Enquanto ela estava absorta na leitura, ouviu um barulho vindo da frente da mansão. Um carro se aproximando. O coração de Helena disparou. Ela não esperava ninguém.

Com a caixa em mãos, ela se levantou rapidamente. Precisava sair dali. Precisava entender tudo. A presença de alguém na mansão, naquele momento, a deixou em alerta. Seria Rafael? Ou alguém que procurava o que ela acabara de encontrar?

Ela correu de volta para a estufa, o barulho do carro mais próximo. O sol já começava a se pôr, pintando o céu com tons de laranja e roxo. A luz estava diminuindo, e a mansão, outrora um lugar de memórias, agora parecia um cenário de perigo iminente.

Helena escondeu a caixa em sua bolsa e correu para o carro que havia alugado. O som das portas de um outro veículo batendo soou ao longe. Ela deu a partida, os pneus cantando na terra batida enquanto ela acelerava pela estrada, deixando para trás a velha mansão e seus segredos. A tempestade que Rafael mencionou não era apenas uma metáfora, era um perigo real, e ela acabara de mergulhar de cabeça nele. Ela precisava encontrar Rafael. Agora mais do que nunca.

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