Amor na Tempestade III
Capítulo 2 — O Perfume da Saudade e o Sabor da Incerteza
por Isabela Santos
Capítulo 2 — O Perfume da Saudade e o Sabor da Incerteza
O cheiro de jasmim invadia o apartamento de Helena, um perfume suave e persistente que ela sempre associava às noites de verão em sua infância. Agora, porém, o aroma parecia trazer consigo uma carga de melancolia, um lembrete agridoce de tempos mais simples, antes que a vida se tornasse um labirinto de emoções complexas. Ela estava sentada à mesa da cozinha, um caderno de partituras aberto à sua frente, mas as notas pareciam dançar sem rumo, sem a inspiração que antes a guiava com tanta facilidade.
Desde a visita de Sofia, Helena vinha tentando, com todas as suas forças, se reconectar com a música. Era seu refúgio, sua voz quando as palavras falhavam. Mas desde que Pedro se fora, as melodias pareciam escorrer por entre seus dedos como água, deixando apenas o vazio. Ela pegava o lápis, hesitava, e o depositava novamente na mesa, o silêncio da página branca um reflexo do silêncio em seu coração.
O telefone tocou, estridente, tirando-a de seus devaneios. Era sua mãe, Dona Clara, com sua voz vibrante e preocupada.
"Helena, querida! Como você está? Tem comido direito? Precisa de alguma coisa?"
Helena suspirou, tentando soar mais animada do que se sentia. "Estou bem, mãe. Comendo, dormindo, o de sempre."
"O de sempre não parece ser o suficiente, minha filha. Você sabe que pode contar comigo para tudo. Se quiser vir para cá, arrumo um quarto para você. Pelo menos a gente se distrai."
"Eu agradeço, mãe, de verdade. Mas eu preciso ficar aqui. Preciso tentar achar meu rumo."
"Seu rumo, Helena, é o que te faz feliz. E eu não vejo você feliz há muito tempo." A voz de Dona Clara embargou um pouco. "Sei que a partida de Pedro foi um golpe duro. Mas ele não é o único homem no mundo, minha filha. Você é jovem, linda, talentosa..."
"Mãe, por favor. Não é sobre encontrar outro homem. É sobre… sobre a perda. Sobre o futuro que eu achava que teria."
Houve um silêncio no outro lado da linha, um silêncio pesado de compreensão e impotência. Dona Clara sabia que as palavras não podiam curar a dor que Helena sentia.
"Eu sei, querida. Eu sei. Mas lembre-se do que sua avó sempre dizia: 'O sol volta a brilhar depois da tempestade'. E você, minha flor, sempre foi forte."
"Eu me sinto tão frágil agora, mãe."
"É normal. Mas a fragilidade não te define. O que te define é como você se levanta depois de cair. E você vai se levantar. Eu acredito em você."
Após desligar o telefone, Helena sentiu um misto de alívio e peso. O amor de sua mãe era um porto seguro, mas a constante preocupação também a pressionava. Ela precisava provar para si mesma, e não apenas para os outros, que conseguia se reerguer.
Decidiu que precisava sair, respirar um ar diferente. Vestiu um vestido leve e saiu, caminhando sem rumo pelas ruas de paralelepípedos. O sol da manhã aquecia seu rosto, e o movimento da cidade, por mais que a distraísse, não conseguia apagar a sombra que a acompanhava.
Passou em frente a uma floricultura, e o aroma das rosas a atraiu. Lembrava-se de Pedro lhe dando um buquê de rosas vermelhas em seu primeiro aniversário de namoro. Ele tinha ficado tão sem graça, as mãos suando, mas o sorriso dele era a coisa mais linda que ela já tinha visto.
"Bom dia!", disse a vendedora, uma senhora de cabelos prateados e olhos gentis. "Procurando alguma coisa especial?"
Helena hesitou. "Eu… eu não sei. Talvez um pouco de cor para alegrar o dia."
"Ah, as flores têm esse poder. O que você acha dessas aqui?" A vendedora apontou para um arranjo de girassóis vibrantes. "Elas trazem luz, mesmo nos dias mais cinzentos."
Helena sorriu. Girassóis. Eles pareciam um bom símbolo. Esperança, luz, virando-se para o sol.
"Eu levo", decidiu.
Enquanto esperava, seus olhos vagaram pelas outras flores. Rosas, tulipas, lírios. E então, seu olhar pousou em um pequeno vaso de jasmim. O aroma, tão familiar, a atingiu com força. Ela lembrou-se de uma noite, há alguns meses, em que Pedro a pegou no colo, no jardim de sua casa, e a beijou sob a luz do luar, o perfume do jasmim envolvendo-os.
"Esse jasmim é o mais cheiroso que tenho", comentou a vendedora, percebendo o olhar de Helena. "E o perfume dele, dizem, traz lembranças de momentos felizes."
Lembranças. Era o que ela tinha de sobra. E eram essas lembranças, doces e amargas, que a impediam de seguir em frente.
Helena comprou os girassóis e voltou para casa, com o vaso em mãos. Colocou-o em um lugar de destaque na sala, e as flores vibrantes realmente trouxeram um ponto de luz ao ambiente. Mas o perfume do jasmim, que ela havia trazido consigo sem querer, pairava no ar, misturando-se à tristeza.
Ela tentou compor novamente. Sentou-se ao piano, os dedos pairando sobre as teclas. Desta vez, em vez de tentar criar algo novo, ela decidiu revisitar uma peça antiga, uma composição que ela havia escrito no início do namoro com Pedro. Era uma melodia leve, cheia de inocência e alegria.
Enquanto tocava, as memórias invadiam sua mente como ondas. O primeiro encontro, os olhares tímidos, as conversas intermináveis. A paixão avassaladora que os consumira. A certeza de que eram feitos um para o outro. E então, a sombra da despedida, a dor aguda da partida.
As notas começaram a mudar, o ritmo acelerou, a melodia se transformou em um lamento. As lágrimas começaram a cair sobre as teclas do piano, embaçando sua visão. Ela não conseguia mais separar a música da dor.
De repente, o telefone tocou novamente. Era Marcos, um amigo músico, um colega de conservatório de Pedro.
"Helena? Tudo bem? Soube que você anda meio sumida." A voz dele era amigável, mas carregava um tom de hesitação.
"Estou bem, Marcos. Só… um pouco pensativa."
"Entendo. É sobre o Pedro, né?"
Helena suspirou. Ela não conseguia evitar que todos soubessem. "Sim."
"Olha, Helena, sei que não é da minha conta, mas eu queria te dizer uma coisa. O Pedro… ele não foi embora por falta de amor, sabe? Ele estava passando por muita coisa. Uma pressão enorme da família, problemas no trabalho. Ele se sentia… sufocado."
Helena franziu a testa. Sufocado? Pedro nunca lhe dissera nada assim. Pelo contrário, ele sempre a enaltecia, dizia que ela era o ar que ele respirava.
"Sufocado por quê, Marcos? Ele nunca me falou nada."
"Ele não queria te preocupar. Achava que você não entenderia. Ou pior, que você se sentiria culpada." Marcos fez uma pausa. "Ele te amava, Helena. Amava muito. E o que ele fez, por mais doloroso que tenha sido, ele achou que era o único jeito de se salvar. De se reencontrar."
"Se reencontrar?", Helena repetiu, a voz fria. "E a mim, ele esqueceu de se reencontrar?"
"Não, Helena, de jeito nenhum. Ele te ama. Só que… ele estava perdido. E quando a gente está perdido, às vezes faz coisas que não entende direito. Ele me disse que esperava que um dia você entendesse."
A conversa com Marcos deixou Helena ainda mais confusa. Ela sabia que Pedro a amava, mas a ideia de ele se sentir "sufocado" era algo novo e perturbador. Era uma justificativa, sim, mas uma justificativa que a fazia se sentir ainda mais impotente. Ele a amava, mas não a via o suficiente para compartilhar suas angústias?
Ela desligou o telefone, o peso em seu peito aumentando. A incerteza era um veneno lento, corroendo sua alma. Ela olhou para os girassóis, que pareciam observá-la com seus rostos radiantes. Eles eram um lembrete de que a luz existia, mas ela ainda não conseguia alcançá-la.
O perfume do jasmim parecia mais forte agora, misturando-se ao cheiro do café que ela havia preparado mais cedo. O aroma, antes associado à felicidade, agora era um convite à saudade. Helena fechou os olhos, a imagem de Pedro cada vez mais vívida em sua mente. Ele estava se sentindo sufocado? E ela, por não perceber, teria contribuído para isso?
A melodia que ela tentava compor havia se transformado em um emaranhado de notas dissonantes, refletindo a turbulência em seu interior. A saudade era um perfume que a envolvia, e a incerteza, um sabor amargo em seus lábios. Ela sabia que precisava encontrar uma saída, um caminho para fora dessa tempestade. Mas, por enquanto, ela estava presa em um turbilhão de emoções, com o eco de um adeus e o perfume persistente da saudade como únicos companheiros.