Corações Partidos II
Claro, aqui estão os capítulos 11 a 15 de "Corações Partidos II", escritos no estilo de um romancista brasileiro de best-sellers:
por Ana Clara Ferreira
Claro, aqui estão os capítulos 11 a 15 de "Corações Partidos II", escritos no estilo de um romancista brasileiro de best-sellers:
Coraçoes Partidos II Autor: Ana Clara Ferreira
Capítulo 11 — O Fantasma do Passado na Serra
O cheiro forte e adocicado das jabuticabeiras em flor pairava no ar denso da serra, misturando-se ao aroma úmido da terra recém-revolvida. A brisa fresca, que costumava trazer alívio nos dias quentes, agora parecia carregar um peso, um prenúncio sombrio que se instalara na alma de Helena. Ela caminhava pela estrada de terra batida que levava à sua antiga casa de infância, um sobrado colonial desbotado pelo tempo e pela saudade, ali, aninhado entre as colinas verdejantes da serra fluminense. Cada passo trazia de volta um turbilhão de memórias, risadas infantis ecoando nos corredores vazios, o cheiro de café passado pela avó, o toque áspero das mãos do avô no seu rosto.
Mas hoje, o que a assombrava não eram as lembranças doces, mas sim a sombra de um homem. Ricardo. O nome, sussurrado pelo vento, arranhava sua garganta como um espinho. Fazia cinco anos desde que o vira pela última vez, naquele aeroporto, com o bilhete de ida comprado, um adeus silencioso que a despedaçou. Ele, o arquiteto brilhante, o homem que prometeu um futuro a dois, que a fez acreditar no amor eterno, partira sem olhar para trás, deixando para trás apenas um rastro de dor e perguntas sem resposta.
Ela apertou a alça da bolsa de couro surrada, sentindo a textura familiar, um conforto pequeno em meio à tempestade interna. A decisão de voltar à serra, para a casa que herdara de sua tia-avó, fora impulsionada por uma necessidade urgente de silêncio, de um refúgio longe do burburinho da cidade e, principalmente, longe de qualquer vestígio de Ricardo. Ela o vira algumas vezes em eventos sociais, sempre acompanhado, sempre com um sorriso polido que não alcançava os olhos, e cada vez era como uma facada fresca.
Ao dobrar a última curva, a casa surgiu à sua frente, imponente e melancólica. As persianas de madeira estavam fechadas, a pintura descascada revelava as camadas de um passado que ela mal reconhecia. Uma herança inesperada, um convite para revisitar suas raízes e, talvez, encontrar um novo começo. Ou, como ela temia, um reencontro inevitável com o passado que se recusava a ser esquecido.
O portão rangeu, um som familiar e agourento. Ao entrar no jardim, as roseiras selvagens que sua tia-avó tanto amava ainda teimavam em florescer, um espetáculo de cores vibrantes contrastando com a atmosfera sombria da casa. Ela sentiu um arrepio. Não estava sozinha.
Um vulto se moveu na varanda. Um homem alto, de ombros largos, a silhueta inconfundível. O coração de Helena disparou, um tambor desgovernado no peito. Não podia ser. Era impossível. Ela parou, a respiração presa na garganta. O vulto se virou. E então, a luz do sol poente iluminou seu rosto. Ricardo.
Ele estava ali, parado como uma estátua, o mesmo cabelo escuro levemente desalinhado, o mesmo olhar penetrante que um dia a fez perder o chão. O tempo parecia ter sido suspenso, o ar rarefeito da serra se tornando ainda mais espesso. Seus olhos se encontraram, e em um instante, todo o tempo que passou, toda a dor, toda a raiva, toda a saudade, se materializou naquele encontro.
"Helena?", a voz dele, mais grave do que ela se lembrava, soou como um trovão distante. Um misto de incredulidade e algo que ela não ousava nomear cruzou seu rosto.
Ela não sabia o que dizer. Suas pernas pareciam presas ao chão. Queria correr, fugir, desaparecer. Mas seus pés não obedeciam. Ela apenas o encarou, a raiva começando a borbulhar sob a superfície do choque.
"O que você está fazendo aqui, Ricardo?", a pergunta saiu rouca, carregada de anos de mágoa.
Um sorriso amargo surgiu nos lábios dele. "Eu… eu moro aqui agora, Helena."
As palavras a atingiram como um soco. Morar ali? Na casa que fora dela, que ela herdara? O mundo de Helena girou. O que era aquela loucura?
"Mora aqui?", ela repetiu, a voz vacilando. "Essa casa é minha. Eu acabei de chegar."
Ricardo deu um passo à frente, o olhar tingido de algo que parecia desespero. "Eu sei. Helena, por favor, me deixe explicar."
"Explicar o quê? Explicar porque você está na minha casa? Explicar porque você sumiu da minha vida há cinco anos sem uma palavra e agora aparece como se nada tivesse acontecido?" A voz dela subiu, a raiva explodindo em fúria. Ela não se importava com o que os vizinhos poderiam pensar, se houvesse algum. Aquele homem a destruíra, e agora ele estava ali, na sua frente, com uma desculpa barata.
"Não é uma desculpa barata, Helena. É a verdade. A verdade é que eu… eu perdi tudo. E essa casa… ela era o único lugar que me restava." A voz dele era baixa, quase um sussurro.
Helena o observou, a incredulidade lutando contra a dor que ressurgia. Ela podia ver a linha de preocupação profunda em seu rosto, as rugas que pareciam ter se aprofundado em seus olhos. Ele parecia… diferente. Mais cansado. Mais perdido.
"Você perdeu tudo?", ela sibilou. "E você acha que eu não perdi nada? Eu perdi você, Ricardo! Eu perdi a minha confiança, a minha paz! Eu passei anos tentando entender o que eu fiz de errado, por que você me deixou!"
As lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. Ela tentou contê-las, mas era inútil. A dor era muito profunda. Ricardo deu mais um passo, estendendo uma mão em sua direção.
"Helena, por favor, não chore. Eu… eu nunca quis te machucar."
Ela recuou como se ele a tivesse queimado. "Não me toque! Você não tem esse direito!"
O olhar dele se desviou, a dor estampada em seus olhos. "Eu sei. Me perdoe. Eu sou um idiota. Mas a vida… a vida me deu uma lição dura." Ele olhou em volta, para a casa, para o jardim. "Depois que eu fui embora, tudo desmoronou. A empresa que eu construí, os meus pais… eles tiveram um acidente e… e eu fiquei sozinho. Sem ninguém. Eu não tinha para onde ir. E aí… eu descobri que sua tia-avó tinha falecido. E que essa casa… estava abandonada. Eu sabia que era seu por direito, mas eu estava desesperado. Eu precisava de um lugar. Eu não queria que você soubesse, eu não queria te encontrar assim."
Helena o escutava, o coração apertado por uma emoção confusa. A história dele era trágica. Ela não podia negar isso. Mas ainda assim…
"E você achou que roubar a minha casa era a solução?", ela perguntou, a voz mais calma, mas ainda carregada de ressentimento.
Ricardo balançou a cabeça. "Não foi roubar, Helena. Foi… um ato de desespero. Eu ia te procurar, te contar tudo. Mas… você apareceu. E eu fiquei paralisado." Ele deu um suspiro profundo. "Eu não sei o que fazer agora. Eu sei que você tem todo o direito de me expulsar daqui. Mas eu… eu não tenho mais nada. Essa casa é um fantasma do passado, para mim também. Um lugar que me lembra de uma época em que eu era feliz. Em que você era feliz."
Helena olhou para ele, para o homem que um dia amou com toda a sua alma. A raiva ainda estava lá, mas começava a dar lugar a uma compaixão relutante. Ela não sabia o que fazer. Voltar para a cidade? Deixar a casa para ele? O que ela queria era paz, mas ali, na serra, ela se deparara com a tempestade mais inesperada.
"Eu preciso de tempo para pensar, Ricardo", ela disse, a voz firme, mas carregada de exaustão. "Eu não sei se consigo lidar com tudo isso agora."
Ela se virou e começou a caminhar de volta para a estrada, deixando Ricardo para trás, sozinho, na varanda da casa que era um eco de seus corações partidos. A serra, que deveria ser seu refúgio, transformara-se em um palco para o reencontro mais doloroso de sua vida.