Corações Partidos II

Corações Partidos II

por Ana Clara Ferreira

Corações Partidos II

Autor: Ana Clara Ferreira

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Capítulo 16 — O Espelho da Alma e a Sombra do Passado

O sol da manhã, teimoso em romper as nuvens cinzentas que ainda pairavam sobre a cidade, lançava raios tímidos sobre o quarto de Helena. Mas a luz parecia incapaz de dissipar a escuridão que se instalara em seu peito. A noite anterior fora um turbilhão de emoções: a descoberta chocante sobre a verdadeira paternidade de Sofia, o abraço desajeitado e carregado de culpa de Ricardo, e o silêncio pesado que se instalara entre ela e Lucas. A verdade, desenterrada das poeiras do tempo no sótão da velha mansão, era uma ferida aberta, que latejava a cada respiração.

Helena se levantou da cama, os pés descalços tocando o tapete persa que Dona Aurora tanto amava. O quarto, outrora um refúgio de paz, agora parecia um palco de suas próprias incertezas. Olhou-se no espelho oposto à cama, um móvel antigo com moldura entalhada, que refletia não apenas seu rosto cansado, mas também a complexidade de sua alma. Os olhos, que antes brilhavam com a esperança de um futuro a dois, agora estavam turvos, carregados de uma tristeza profunda e de questionamentos sem respostas fáceis.

"Quem sou eu, afinal?", sussurrou para o próprio reflexo, a voz embargada. "Uma mulher que amou o homem errado? Uma mãe que viveu uma mentira por anos? Ou apenas uma peça no jogo cruel do destino?"

A imagem de Sofia surgiu em sua mente, a risada despreocupada da filha ecoando em seus pensamentos. Sofia, que acreditava ser fruto do amor entre Helena e Lucas. Sofia, que agora teria que lidar com a revelação devastadora de que seu pai biológico era outro. A culpa apertou o coração de Helena. Ela era a guardiã da verdade, e agora precisava encontrar a maneira mais branda de entregá-la à sua filha.

Ouviu passos no corredor. Era Lucas. Seu coração deu um salto, uma mistura de apreensão e um resquício persistente de amor que ela tentava, em vão, sufocar. A porta se abriu lentamente, revelando Lucas, parado no batente, o rosto marcado pela preocupação. Ele parecia mais velho, mais cansado, os ombros curvados sob um peso invisível.

"Helena...", ele começou, a voz rouca.

Ela se virou, os olhos fixos nos dele. Havia uma tempestade contida ali, um mar de mágoas e arrependimentos.

"Lucas, eu não sei o que dizer", ela respondeu, as palavras tropeçando uma nas outras. "Tudo o que achávamos que sabíamos... estava errado."

Ele deu um passo para dentro do quarto, aproximando-se com cautela, como se tivesse medo de assustá-la. "Eu sei. Aquela carta... a confissão de Aurora... mudou tudo. Mas não muda o que sentimos um pelo outro, Helena. Não muda o amor que sempre existiu."

"Amor?", a palavra escapou em um suspiro amargo. "Lucas, você está falando de amor depois de todos esses anos? Depois de tudo o que aconteceu? Você se casou com outra, teve um filho com ela... e agora vem me dizer que o nosso amor continua aí, intocado?"

O olhar de Lucas se tornou mais intenso, as rugas em sua testa se aprofundaram. "O tempo não apagou nada, Helena. Ele apenas adiou. Eu tentei seguir em frente, juro que tentei. Mas você... você sempre esteve aqui", ele levou a mão ao peito, sobre o coração. "Mesmo com Clara ao meu lado, mesmo com a minha vida construída, a sua imagem nunca saiu da minha mente."

Ela balançou a cabeça, incapaz de processar a intensidade de suas palavras. Era difícil acreditar, depois de tanta dor, tanto tempo longe um do outro. "E o que você quer agora, Lucas? Que eu simplesmente esqueça tudo o que sofri? Que eu aceite as suas desculpas como se nada tivesse acontecido?"

"Eu não quero que você esqueça", ele disse, a voz firme, mas cheia de súplica. "Quero que me deixe tentar consertar. Quero que me deixe provar que ainda sou o homem que você amou. E quero, mais do que tudo, estar presente na vida de Sofia. Ela é minha filha, Helena. Eu tenho o direito de conhecê-la, de fazer parte da vida dela."

A menção de Sofia trouxe de volta a angústia. "Você não entende, Lucas. Sofia não sabe de nada. Ela pensa que Ricardo é o pai dela. Como eu vou contar a ela que o homem que ela ama, que o pai que ela conhece... não é o seu pai biológico? E que o seu pai biológico é um homem que ela mal conhece, que apareceu de repente em nossas vidas?"

"Nós vamos contar juntas", Lucas interveio, a voz suave. "Eu vou estar ao seu lado. Não vou deixá-la sozinha nessa. E quando ela entender, quando ela puder processar, nós podemos começar a construir uma nova relação. Uma relação de pai e filha. Uma relação que ela merece."

Helena fechou os olhos, respirando fundo. A oferta de Lucas era tentadora. A ideia de não enfrentar essa tempestade sozinha era um bálsamo para sua alma exausta. Mas o medo ainda a paralisava. O medo de se machucar novamente, o medo de machucar Sofia, o medo de que o passado se repetisse de alguma forma.

"Eu não sei, Lucas", ela murmurou, a voz quase inaudível. "É muita coisa para digerir. Preciso de tempo."

Ele assentiu, compreensivo. "Eu sei. E eu lhe darei o tempo que precisar. Mas saiba que eu estou aqui. E que, aconteça o que acontecer, meu amor por você e o meu desejo de ser pai de Sofia são reais."

Ele se aproximou mais, estendendo a mão como se quisesse tocar seu rosto. Helena hesitou por um momento, mas o desejo de sentir o toque dele, o toque que ela tanto sentiu falta, venceu. Ela se inclinou levemente, permitindo que seus dedos se roçassem. Uma corrente elétrica percorreu seu corpo, reacendendo as brasas de um amor que nunca se apagara completamente.

Naquele instante, olhando nos olhos de Lucas, Helena viu não apenas o homem que a havia magoado no passado, mas também o homem que poderia, talvez, ser o seu futuro. A sombra do passado ainda pairava, escura e ameaçadora, mas pela primeira vez em muito tempo, um raio de esperança, tênue e incerto, começou a brilhar através das nuvens. A verdade era amarga, mas talvez, apenas talvez, houvesse uma maneira de encontrar um caminho para a cura, um caminho para a reconstrução.

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