Voltar a te Amar
Voltar a te Amar
por Camila Costa
Voltar a te Amar
Por Camila Costa
---
Capítulo 1 — O Reencontro Sob o Sol de Ouro
O sol da Bahia parecia ter se rebelado contra o céu naquela tarde. Dourado, intenso, como se quisesse aquecer não apenas a pele, mas as almas perdidas que vagavam por aquelas praias de areia branca e fina. Era o tipo de calor que convidava à introspecção, que trazia à tona memórias adormecidas como conchas esquecidas na maré baixa. E foi sob esse sol implacável que Clara, após dez anos de ausência, pisou novamente em Arraial d'Ajuda.
Dez anos. Uma eternidade para alguns, um piscar de olhos para outros. Para Clara, tinha sido uma vida inteira. Deixara aquela terra como uma jovem sonhadora, com o coração ainda pulsante de uma paixão avassaladora e a alma ferida pela dor da separação. Retornava agora como uma mulher forjada pelas tempestades da vida, com cicatrizes visíveis e invisíveis, mas com um fio de esperança teimando em se manter aceso em seu peito.
A pousada, que antes fora um casarão colonial charmoso, agora exibia uma fachada mais imponente, reformada, mas ainda guardava a essência que ela tanto amava. As buganvílias coloridas, outrora delicadas, agora transbordavam em cascata pelas paredes caiadas. O cheiro de maresia misturado ao jasmim inebriava os sentidos, um perfume que ela jamais esqueceria.
Desceu do táxi com a mala pesada em uma mão e o coração ainda mais pesado na outra. A brisa marinha acariciou seu rosto, e por um instante, o tempo pareceu retroceder. Ela sentiu a areia sob os pés descalços, o eco das gaivotas, o murmúrio das ondas... e a presença dele. Uma presença que, mesmo à distância, a atingia como um raio.
Seus olhos percorreram a praia, um hábito involuntário. E lá estava ele. Pedro.
A dez anos, Pedro fora seu porto seguro, seu amor mais puro, o homem que jurara amar para sempre. Era o pescador de sorriso largo, de mãos calejadas pelo sal e pelo trabalho, de olhar profundo que parecia ler sua alma. Agora, ele estava ali, encostado em seu barco, com o corpo mais forte, a barba por fazer que acentuava seus traços rudes, mas com o mesmo olhar que ela sabia que jamais seria esquecido. O sol batia em seu rosto, realçando a beleza crua e viril que ela guardara em seu coração como um tesouro secreto.
Um arrepio percorreu sua espinha. Era ele. Imutável em sua essência, transformado pelo tempo como a própria paisagem ao redor. O tempo não o havia diminuído, apenas o esculpira, tornando-o ainda mais atraente. Seus cabelos escuros, antes sempre bem penteados, agora estavam despenteados pelo vento. Ele usava uma camiseta branca simples, que se grudava em seus ombros largos, revelando a força de seus braços.
O coração de Clara disparou, batendo descompassado contra suas costelas. Era como se um tambor ancestral estivesse ecoando em seu peito, anunciando o retorno. Ela o observou por longos segundos, imersa naquela visão que parecia um sonho, um fantasma de seu passado materializado diante de seus olhos. Ela não sabia o que sentir: alegria, medo, saudade avassaladora, ou uma mistura de tudo isso.
Pedro, como se sentisse seu olhar, ergueu a cabeça. Seus olhos, de um azul profundo como o próprio oceano, encontraram os dela. Por um breve instante, o tempo parou. A praia, a multidão de turistas, o barulho dos carros… tudo desapareceu. Existiam apenas eles dois, presos naquele olhar que carregava dez anos de silêncio, de saudade, de perguntas sem resposta.
O sorriso que brotou nos lábios de Pedro foi sutil, quase imperceptível, mas carregado de uma emoção que Clara reconheceu imediatamente. Era um misto de surpresa, reconhecimento e, talvez, um toque de resignação. Ele não se moveu, apenas a encarou, como se estivesse tentando decifrar a aparição diante dele.
Clara sentiu as pernas tremerem. Engoliu em seco, tentando controlar a respiração. Ela não estava preparada para isso. Não imaginara que o reencontro seria tão imediato, tão avassalador. Planejara mil e uma maneiras de encontrá-lo, de preparar seu coração para o impacto. Mas a realidade superava qualquer planejamento.
Finalmente, ela reuniu coragem e deu um passo à frente. A areia afundou sob seus pés, um som suave quebrando o silêncio ensurdecedor entre eles. Pedro deu um passo na direção dela. E depois outro.
O espaço entre eles diminuiu, e com ele, a distância que dez anos de ausência haviam criado. Clara podia sentir o calor que emanava dele, o cheiro de maresia e de algo mais, um perfume de terra e de vida que a puxava para perto.
Quando estavam a poucos metros de distância, Pedro parou. Ele a estudou de cima a baixo, seus olhos percorrendo cada detalhe de seu rosto, como se quisesse reavivar cada memória. Clara sentiu-se exposta sob aquele olhar intenso, como se ele pudesse enxergar a alma de sua alma.
"Clara?", sua voz, rouca e profunda, quebrou o silêncio. Era a mesma voz que ela ouvia em seus sonhos, a mesma que a embalava em noites de insônia.
"Pedro", sua própria voz saiu trêmula, quase um sussurro. Era tão difícil pronunciar seu nome depois de tanto tempo.
Um leve sorriso surgiu nos lábios de Pedro. "Você voltou."
Não era uma pergunta, era uma constatação. E em sua voz, Clara percebeu uma complexidade de emoções que ela mal conseguia decifrar: surpresa, uma ponta de melancolia, e algo que se assemelhava a uma velha mágoa.
"Eu voltei", ela confirmou, tentando manter a voz firme. "Precisei voltar."
Pedro assentiu lentamente, seus olhos fixos nos dela. "Faz tempo."
"Dez anos", ela disse, a voz embargada. Dez anos que pareceram uma vida inteira.
Ele deu um passo à frente, diminuindo ainda mais a distância entre eles. Clara sentiu o coração acelerar ainda mais. Ela conseguia ver as pequenas rugas de expressão ao redor de seus olhos, o contorno de sua mandíbula forte. Ele era o mesmo e, ao mesmo tempo, tão diferente.
"Você está… diferente", ele murmurou, um sorriso hesitante brincando em seus lábios.
"E você também", ela respondeu, um riso nervoso escapando. "O tempo não perdoa ninguém."
"Mas ele não te tirou a beleza", Pedro disse, e em seus olhos havia um brilho que fez o estômago de Clara revirar. Era um elogio sincero, desprovido de malícia, mas carregado de uma profundidade que a fez corar.
Ela desviou o olhar por um instante, sentindo-se exposta. "Eu… eu precisava resolver algumas coisas. Assuntos pendentes."
"Assuntos pendentes", ele repetiu, a voz adquirindo um tom mais sério. "Dez anos é muito tempo para assuntos pendentes, Clara."
A indireta era clara. E ela sabia que ele tinha todo o direito de dizer aquilo. Afinal, fora ela quem partira, sem explicações, sem despedidas adequadas. Deixara um rastro de dor e incerteza.
"Eu sei", ela sussurrou, sentindo um nó na garganta. "E eu sinto muito por isso, Pedro. Por tudo."
Um silêncio pairou entre eles, pesado com o peso do passado. O barulho do mar parecia distante, abafado pela intensidade daquele reencontro. Pedro soltou um suspiro longo e profundo, como se estivesse liberando uma tensão acumulada.
"Venha", ele disse, virando-se abruptamente e caminhando em direção à sua pousada. "Não fique aqui sob esse sol. O que quer que tenha vindo resolver, pode começar lá dentro."
Clara hesitou por um instante. Ele não a convidara, apenas a guiara. Era um gesto dele, sutil, mas que mostrava que, apesar de tudo, havia um resquício de cuidado. Ela pegou sua mala e o seguiu, seus passos ecoando o ritmo acelerado de seu coração.
Ao entrar na pousada, o ar fresco e o perfume das flores a envolveram. A recepção estava mais moderna, mas a alma antiga do lugar ainda estava ali. Pedro a conduziu por um corredor até uma porta de madeira escura.
"Seu quarto", ele disse, abrindo a porta. "Fique à vontade. Se precisar de alguma coisa, é só me chamar." Ele a encarou por um último instante, seus olhos transmitindo uma mensagem indecifrável, e então se virou, desaparecendo pelo corredor tão silenciosamente quanto havia surgido.
Clara entrou no quarto, fechando a porta atrás de si. Estava em um quarto espaçoso, com uma varanda voltada para o mar. Sentou-se na beira da cama, a mala ainda no chão. Respirou fundo, tentando processar tudo o que acabara de acontecer.
Pedro. Ela estava em Arraial d'Ajuda, e Pedro estava ali. O homem que ela amara perdidamente, o homem que a fizera sofrer, o homem que ela acreditava ter deixado para trás para sempre. Ele estava vivo, presente, real. E o reencontro havia sido mais intenso do que ela jamais poderia ter imaginado.
O sol ainda brilhava lá fora, forte e dourado, mas o calor que Clara sentia agora era interno, uma corrente elétrica que percorria seu corpo. Ela sabia que sua volta a Arraial d'Ajuda não seria apenas para resolver "assuntos pendentes", mas para confrontar o passado, para desenterrar sentimentos enterrados e, talvez, para encontrar um caminho de volta para um amor que parecia ter se perdido no tempo. A questão era: esse amor ainda existia? E ela seria capaz de voltá-lo a amar, ou ele seria apenas uma lembrança dolorosa em sua nova vida? A resposta, ela sabia, estava guardada nas profundezas daquele oceano que agora a cercava.