Voltar a te Amar
Voltar a te Amar
por Camila Costa
Voltar a te Amar
Autor: Camila Costa
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Capítulo 11 — A Tempestade em Terra Firme
O ar na sala de estar parecia mais denso do que nunca. As palavras de Helena, carregadas de uma dor antiga e um ressentimento que a voz mal conseguia disfarçar, pairavam como nuvens de tempestade prestes a desabar. Ricardo, com o rosto pálido e os olhos arregalados, sentia o chão ceder sob seus pés. As confissões de Helena não eram apenas acusações, eram fragmentos de uma realidade que ele, por anos, se recusou a ver, ou talvez, que preferiu esquecer. A revelação sobre o envolvimento de sua mãe no esquema que arruinou a família de Helena era um golpe baixo, um golpe que ecoava no silêncio pesado que se instalou entre eles.
“Você… você sabia disso tudo?”, a voz de Ricardo saiu rouca, um sussurro incrédulo que mal arranhou o silêncio. Ele sentia um nó na garganta, a dificuldade em respirar era palpável.
Helena o fitou com um olhar que misturava mágoa e uma espécie de resignação amarga. “Sabia? Ricardo, eu vivi isso. Cada dia. Vi meu pai definhar, vi minha mãe perder a esperança, vi tudo desmoronar enquanto a sua família… ah, a sua família prosperava nas nossas ruínas.” O tom de sua voz era uma mistura de sarcasmo e dor. Ela se levantou e começou a andar pela sala, como um animal enjaulado, cada passo marcado pela angústia. “Sua mãe, Dona Beatriz… ela era a rainha da discrição, não é? Sorrindo, oferecendo consolo, enquanto planejava a queda. Ela me contava tudo. Eu era uma garota ingênua, ela me usava como confidente, como se fôssemos amigas. E tudo o que eu falava sobre as dificuldades do meu pai, sobre os medos dele, ela usava contra nós.”
Ricardo fechou os olhos por um instante, tentando assimilar aquela avalanche de informações. A imagem de sua mãe, a mulher que ele sempre idealizou como um porto seguro, agora se apresentava com contornos sombrios e cruéis. Era difícil conciliar a figura doce e maternal que ele conhecia com a mente calculista e manipuladora que Helena descrevia. “Não… não pode ser. Minha mãe nunca faria isso. Ela… ela é uma pessoa boa.” A negação era quase desesperada.
“Boa? Boa para quem, Ricardo?”, Helena parou de andar e voltou a encará-lo, os olhos marejados, mas firmes. “Boa para ela mesma. Boa para a conta bancária dela. Boa para manter as aparências de uma família perfeita. Você cresceu em um ninho de ouro, rodeado de amor e conforto. Você não sabe o que é ver tudo ser roubado. Você não sabe o que é a humilhação, o desespero.” Ela gesticulou com as mãos, a emoção transbordando. “E o pior é que eu nunca soube como te contar. Por anos, eu te procurei, te amei, e você… você me via como a garota que era ‘quase’ sua. Eu não queria te machucar. Eu queria te amar. Mas como amar alguém que representa tudo o que me tirou tudo?”
A menção ao amor de Helena para com ele, em meio àquela explosão de mágoa, atingiu Ricardo como um raio. Ele a olhou, a dor em seus olhos era um espelho da dor que ele sentia em seu próprio peito. Ele se aproximou lentamente, estendendo a mão como se quisesse tocar o rosto dela, mas hesitou. “Helena, por favor… eu sinto muito. Eu sinto muito por tudo o que você passou. Se eu soubesse… se eu tivesse a menor ideia…”
“Mas você não sabia, Ricardo. E quando soube, demorou para acreditar, não é?”, ela o interrompeu, a voz um pouco mais baixa, mas ainda carregada de amargura. “Eu te vi. Eu te vi com ela, a Dona Beatriz, depois de tudo. Ela te abraçava, te dizia o quanto te amava. E eu fiquei ali, invisível, com o peso de tudo o que ela fez. Eu precisei de anos para juntar a coragem de vir te confrontar. Anos para lidar com a minha própria raiva, com o meu próprio luto.” Ela respirou fundo, tentando controlar as lágrimas que teimavam em cair. “Eu não vim aqui para te acusar, Ricardo. Eu vim para te contar a verdade. A verdade que você precisava saber. E agora… agora a decisão é sua. O que você faz com essa verdade é problema seu.”
Ela se virou, pronta para sair, para fugir daquele ambiente que se tornara insuportável. Mas Ricardo, num impulso, a segurou pelo braço. Não com força, mas com firmeza, o desespero em seus olhos era evidente. “Helena, não vá. Por favor. Não assim. Você não pode simplesmente vir e jogar tudo isso em cima de mim e ir embora. Precisamos conversar. Precisamos… eu preciso entender. Eu preciso te ouvir.”
Ela o olhou, a hesitação em seus olhos. A fragilidade em seu olhar contrastava com a força que ela demonstrara até então. “Entender o quê, Ricardo? Entender que a sua mãe destruiu a minha família? Entender que o seu mundo foi construído sobre as ruínas do meu? Entender que o homem que eu amo é filho da mulher que me fez tanto mal?” A voz dela falhou no final. “Eu não sei se eu consigo. Eu não sei se eu quero. Eu te amo, Ricardo. Eu sempre te amei. Mas esse amor… ele está manchado. Mancha pela dor, pela raiva, pela decepção.”
Ricardo sentiu um aperto no peito. As palavras dela eram um veneno lento, mas mortal. Ele sabia que a cura seria longa e dolorosa, e que talvez, o veneno já tivesse se espalhado demais. “Eu também te amo, Helena. E eu não vou te deixar ir. Não agora. Não assim. Eu prometo que vou descobrir a verdade. Eu vou falar com a minha mãe. Eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para consertar isso.”
“Consertar?”, ela soltou uma risada amarga. “Algumas coisas não podem ser consertadas, Ricardo. Algumas coisas se quebram e ficam quebradas para sempre. E a confiança… a confiança é uma delas.” Ela soltou o braço dele e deu um passo para trás. “Eu preciso ir. Preciso pensar. Preciso… respirar.”
Ela saiu pela porta, deixando Ricardo sozinho na sala, o silêncio gritando as palavras não ditas, as verdades dolorosas, e a incerteza sobre o futuro. A tempestade tinha chegado, e ele sentia que estava em terra firme, mas a terra, ele descobrira, era mais movediça do que imaginava. A imagem de sua mãe, agora, era uma incógnita. E o amor por Helena, antes um refúgio, agora era um campo minado. Ele precisava de tempo, de coragem e de uma fé inabalável para navegar por aquele mar revolto. A noite caía lá fora, mas dentro dele, a escuridão era ainda mais profunda.