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Capítulo 12 — A Confrontação e a Fissura na Armadura
por Camila Costa
Capítulo 12 — A Confrontação e a Fissura na Armadura
A noite caiu sobre a cidade como um manto pesado, obscurecendo os contornos familiares e amplificando os sentimentos de Ricardo. Ele permaneceu na sala de estar, o silêncio agora preenchido pelos ecos das palavras de Helena e pela imagem de sua mãe, Dona Beatriz, que se transfigurava em sua mente. A confissão de Helena sobre o papel de sua mãe na ruína da família dela era um golpe que abalava as fundações de sua própria identidade. A mulher que ele sempre admirou, a figura de força e retidão, agora surgia com um semblante sombrio, manipulador.
Ele tentava, em vão, encontrar brechas na narrativa de Helena, buscando desculpas, explicações que pudessem amenizar a brutalidade da acusação. Mas algo em sua voz, na profundidade da dor que ela exalava, o impedia de descartar suas palavras como um mero delírio de ressentimento. Era a verdade crua, nua e dolorosa, que ele não queria enxergar. Ele se levantou e começou a andar pela sala, os passos inquietos, o coração acelerado. Precisava confrontar sua mãe. Precisava de respostas.
Enquanto isso, em seu luxuoso apartamento, Dona Beatriz saboreava uma taça de vinho, a elegância habitual tingida por uma satisfação discreta. O sucesso dos negócios, as conquistas recentes, tudo parecia conspirar para um sentimento de plenitude. Ela não esperava a visita de Ricardo naquele momento. A porta se abriu sem aviso prévio e Ricardo entrou, o semblante sério, os olhos fixos nos dela.
“Mãe”, a voz de Ricardo era firme, mas carregada de uma tensão palpável. “Precisamos conversar. Agora.”
Dona Beatriz ergueu uma sobrancelha, surpresa com a urgência e a seriedade do filho. “Ricardo? O que houve? Você parece… perturbado.” Ela fez um gesto para que ele se sentasse, mas ele permaneceu de pé, a postura rígida.
“Eu estive com a Helena hoje, mãe. E ela me contou coisas. Coisas terríveis.” Ricardo não se deu ao trabalho de rodeios. A verdade precisava ser dita, exposta ao ar. “Ela me contou sobre o passado. Sobre como a sua ‘amizade’ com a mãe dela resultou na ruína da família dela. Sobre como você usou as informações que elas te deram para prejudicá-los.”
O semblante de Dona Beatriz mudou. A surpresa inicial deu lugar a uma expressão de frieza calculista, quase imperceptível para quem não a conhecesse tão bem. Um leve franzir de testa, um endurecimento dos lábios. “Helena? Aquela garota ainda guarda rancor? Ricardo, você sabe que a família dela teve problemas financeiros por causa de má gestão do próprio pai. Não há nada que eu tenha feito.”
“Não minta para mim, mãe!”, a voz de Ricardo se elevou, a frustração explodindo. “Ela me contou detalhes. Como você se aproximou da mãe dela. Como você fingia ser uma amiga. Como você usou tudo o que sabia contra eles. A sua ‘boa vontade’ custou tudo o que eles tinham!”
Dona Beatriz deu um gole longo em seu vinho, seus olhos encontrando os de Ricardo com uma intensidade que o fez estremecer. Havia um brilho de desafio neles, uma recusa em ceder. “Você é ingênuo, meu filho. O mundo dos negócios é implacável. E as pessoas… as pessoas são fracas. Se a família dela não soube se defender, a culpa não é minha. Eu apenas… agi de acordo com as oportunidades.” A frieza em sua voz era um choque.
“Oportunidades? Mãe, você destruiu uma família! Você destruiu a vida de pessoas por dinheiro!”, Ricardo sentia a raiva subir, misturada com uma profunda decepção. A imagem que ele tinha dela estava se despedaçando diante de seus olhos.
“Dinheiro, Ricardo, é o que move o mundo. E eu construí esse império para nós. Para garantir o seu futuro. Para que você nunca passasse pelas dificuldades que a sua avó passou. Você não entende as pressões que enfrentei, as escolhas difíceis que tive que fazer.” A voz de Dona Beatriz ganhava um tom de superioridade, como se estivesse explicando algo óbvio para uma criança. “A família de Helena era frágil. Um sopro de vento e tudo desmoronou. Eu apenas… dei o sopro.”
Ricardo sentiu um nó na garganta. A frieza com que sua mãe falava era aterradora. Ela não demonstrava remorso, apenas uma justificativa fria para seus atos. “E o amor por ela, mãe? O amor pela Helena? Você sabia que ela me amava, não sabia? Que ela era minha, de certa forma. Você planejou tudo isso sabendo que estava destruindo a minha chance de ser feliz?”
Um lampejo de algo que poderia ser surpresa, ou talvez apenas incômodo, cruzou o rosto de Dona Beatriz. “Helena? Aquela garotinha? Você se afeiçoou a ela? Que tolice. Eu nunca a vi como uma ameaça. E se ela foi afetada, foi um dano colateral. Coisas que acontecem na vida.” Ela deu de ombros, um gesto que para Ricardo pareceu um insulto.
“Dano colateral?!”, Ricardo estava incrédulo. “Mãe, você não tem coração? Você não tem empatia? Você destruiu a vida de uma família e ainda acha que está certa?”
“Eu tenho pragmatismo, Ricardo. E eu tenho sucesso. E é isso que importa.” Dona Beatriz levantou-se, aproximando-se de Ricardo, sua voz agora mais suave, mas com uma ameaça velada. “Você precisa entender, meu filho. O mundo é um lugar cruel. E você precisa ser forte. Eu te preparei para isso. Não deixe que sentimentalismos te atrapalhem. E quanto à Helena… você precisa esquecê-la. Ela é um resquício do passado que não nos serve mais.”
“Esquecê-la?”, Ricardo riu, uma risada amarga e sem humor. “Eu a amo, mãe. E é por isso que eu preciso saber a verdade. E a verdade é que você é a pior pessoa que eu pensei que existia.” Ele a olhou nos olhos, a desilusão tomando conta de seu ser. “Eu não te reconheço mais. A mulher que eu admirava, a minha mãe… ela desapareceu. E no lugar dela, eu vejo alguém capaz de qualquer coisa para ter o que quer.”
Dona Beatriz se afastou, uma sombra de mágoa, talvez, cruzando seu olhar. Mas a máscara de controle rapidamente retornou. “Você está sendo dramático, Ricardo. Eu fiz o que tinha que fazer. E você, como meu filho, deveria me apoiar. E não se deixar levar pelas lamúrias de uma garota ressentida.”
“Eu não posso te apoiar nisso, mãe. Nunca.” Ricardo sentiu um peso imenso em seu peito. A fissura na armadura de sua mãe, que ele tanto procurou, agora se abria de forma brutal, revelando um interior desprovido de compaixão. E com essa revelação, a sua própria imagem dela, e a sua própria identidade como filho dela, começavam a desmoronar. Ele se virou e saiu do apartamento, deixando sua mãe em meio ao silêncio opulento, com a taça de vinho intocada e o olhar fixo no vazio. A tempestade dentro dele havia apenas começado. A confrontação com sua mãe não trouxe alívio, apenas a confirmação de seus piores medos. E a dúvida sobre como reconstruir sua vida, e seu amor por Helena, sobre os escombros da verdade, era avassaladora. Ele sabia que o caminho à frente seria longo e doloroso, e que a sua luta não seria apenas para reconquistar Helena, mas para se redimir de um passado que ele agora descobrira ser manchado pela crueldade de sua própria mãe.