Voltar a te Amar
Capítulo 13 — O Fio da Navalha e o Chamado da Razão
por Camila Costa
Capítulo 13 — O Fio da Navalha e o Chamado da Razão
O peso da verdade era um fardo insuportável para Ricardo. A conversa com sua mãe o deixou em frangalhos, cada palavra dela ecoando em sua mente como um golpe direto em sua alma. A frieza, a ausência de remorso, a justificativa implacável para a ruína de uma família – tudo isso o lançou em um abismo de desilusão. Ele dirigia sem rumo pelas ruas da cidade, o volante apertado em suas mãos, a mente um turbilhão de pensamentos. A imagem de Helena, sua dor, sua fragilidade, contrastava violentamente com a implacabilidade de sua mãe. Ele amava Helena, a Helena que ele conheceu, a Helena que o amava de volta. Mas agora, esse amor estava intrinsecamente ligado à figura sombria de sua mãe.
Ele parou o carro em uma rua tranquila, longe do burburinho da cidade, e respirou fundo, tentando clarear a mente. Precisava pensar. Precisava de uma estratégia. Não podia simplesmente abandonar Helena, nem podia aceitar a crueldade de sua mãe. Era como estar em um fio da navalha, com o abismo de um lado e a queda livre do outro. A razão lutava contra o coração, a lógica contra a emoção.
De repente, seu telefone tocou. Era Helena. Seu coração disparou. O que ela diria? Teria ela mudado de ideia? Teria ela desistido dele? Ele hesitou antes de atender. O medo de ouvir a palavra “adeus” era paralisante. Finalmente, ele atendeu.
“Ricardo?”, a voz de Helena soou suave, mas com um tom de apreensão. “Você sumiu. Fiquei preocupada.”
Ricardo sentiu um alívio imediato, mas a angústia persistia. “Helena, eu… eu precisava pensar. Eu estive com a minha mãe.”
Um silêncio se instalou do outro lado da linha. Ele imaginou o rosto dela, a expectativa em seus olhos. “E… o que ela disse?”, a pergunta veio hesitante.
“Ela… ela não negou. Ela confirmou”, a voz de Ricardo saiu embargada. “Ela disse que fez o que precisava ser feito. Que o mundo dos negócios é implacável. Que a família do seu pai era frágil.”
O silêncio do outro lado era mais eloqüente do que qualquer palavra. Ricardo sentiu o peso do mundo nas costas. Ele não sabia o que mais dizer, como expressar a desilusão, a raiva, a tristeza. “Helena, eu sinto tanto. Eu sinto por tudo o que você passou. E sinto por ser filho dela.”
“Ricardo…”, a voz de Helena era um sussurro, carregado de uma dor profunda. “Eu… eu não sei o que dizer. Eu esperava… não sei o que eu esperava. Talvez uma negação. Talvez um pedido de desculpas.” Ela suspirou, um som que partiu o coração de Ricardo. “Mas isso… isso é ainda pior.”
“Eu não vou desistir de você, Helena. Eu juro”, Ricardo disse com firmeza, a determinação surgindo em meio ao caos. “Eu vou provar para você que eu sou diferente dela. Que o meu amor por você é real. Que eu posso consertar isso. Não sei como ainda, mas eu vou encontrar um jeito.”
“Consertar? Ricardo, você sabe que algumas coisas não podem ser consertadas. A vida do meu pai… a dignidade da minha mãe… a nossa família…”, a voz dela falhou. “Isso tudo foi para sempre. E o seu amor… como ele pode ser real se ele nasceu da mesma fonte que nos destruiu?”
“Porque eu sou eu, Helena. E você é você. E o que existe entre nós é maior do que qualquer coisa que a minha mãe possa ter feito”, Ricardo insistiu, a voz carregada de paixão. “Eu te amo. E eu vou lutar por nós. Por esse amor. Mesmo que seja contra tudo e contra todos.”
Houve uma pausa. Ricardo podia sentir a hesitação de Helena, a luta interna entre a razão e o coração. “Ricardo, eu não sei se consigo. A dor é muito grande. A decepção é muito profunda. Eu te amo, sim. Mas esse amor agora está… ofuscado.”
“Eu sei que está. E eu vou esperar. Vou te dar o tempo que você precisar. Mas não desista de nós. Por favor.” Ricardo sentia a urgência em sua voz, o medo de perdê-la novamente. “Amanhã, eu vou começar a investigar. Vou buscar provas. Vou expor a verdade. Para que você veja que eu estou do seu lado. E que a minha mãe… que ela vai ter que responder por seus atos.”
“Expor a verdade? Ricardo, você sabe o que isso significa? Você vai se colocar contra a sua própria família. Contra a sua mãe.”
“Se for preciso, sim. Porque a verdade é mais importante. E o meu amor por você é mais importante.” Ricardo fechou os olhos, imaginando o futuro incerto. Seria uma batalha árdua, mas ele estava pronto. “Eu preciso ir agora. Mas eu te ligo amanhã. E eu te amo, Helena. Lembre-se disso.”
“Eu… eu também te amo, Ricardo.” A voz dela era um fio, mas era um fio de esperança.
Ele desligou o telefone, sentindo um misto de alívio e apreensão. Tinha dado um passo importante, mas o caminho à frente era repleto de perigos. A razão lhe dizia para ter cautela, para não se precipitar, para não se destruir na tentativa de consertar o irreparável. Mas o seu coração gritava por Helena, clamava por justiça, por redenção. Ele sabia que não podia mais viver na sombra da hipocrisia. Precisava encarar a verdade, por mais dolorosa que fosse.
Ele dirigiu de volta para casa, o crepúsculo cedendo lugar à noite. A decisão estava tomada. Ele não podia mais se esconder. Precisava agir. Precisava lutar por Helena, por seu amor, e por uma justiça que há muito tempo estava sendo negada. A imagem de sua mãe, fria e calculista, o impulsionava a agir. Ele não seria cúmplice de suas ações. Ele seria a voz da verdade, o arauto da justiça, o guardião do amor que ele sentia por Helena. A batalha seria longa, mas ele estava pronto. O fio da navalha o separava do abismo, mas o chamado da razão, alimentado pelo amor, o impulsionava para frente.