Voltar a te Amar
Romance: Voltar a te Amar
por Camila Costa
Romance: Voltar a te Amar Gênero: Romance Romântico Autor: Camila Costa
Capítulo 16 — O Eco das Promessas Quebradas
O sol da manhã, em tons de ouro e laranja, tentava romper a cortina espessa de nuvens que pairava sobre a cidade, um prenúncio da tempestade que ainda se formava no horizonte emocional de Helena. Ela se movia pela casa em um estado de torpor, cada passo ecoando no silêncio pesado que se instalara desde a noite anterior. A conversa com Daniel, ou melhor, a falta dela, a deixara em frangalhos. As palavras não ditas, os olhares que se evitavam, tudo contribuía para a sensação de um abismo se abrindo entre eles.
Ela preparou o café, o aroma forte e amargo parecendo a única coisa real naquele momento. Sentou-se à mesa da cozinha, mas a xícara permaneceu intocada. Sua mente voltava incessantemente para as palavras de Sofia, a revelação bombástica que viera à tona como um fantasma persistente. A culpa, a mágoa, o sentimento de traição… tudo se misturava em um turbilhão que a impedia de respirar. Daniel estava ali, no quarto ao lado, mas parecia um estranho. Um estranho que carregava consigo um passado que ela não conhecia, um passado que agora ameaçava destruir o presente que ela tanto lutara para reconstruir.
O telefone tocou, um som estridente que a fez sobressaltar. Era seu irmão, Ricardo. A voz dele, sempre tão calma e ponderada, soou tensa do outro lado.
“Helena? Você está bem?”
“Estou… estou tentando, Ricardo”, respondeu ela, a voz embargada.
“Eu sei. Daniel me contou um pouco. Aquilo que a Sofia disse… eu sinto muito que você tenha que passar por isso.”
“Passar por isso? Ricardo, é como se o chão tivesse sumido sob meus pés. Eu não sei mais em quem acreditar, o que é real. Aquele homem que eu amo… será que eu o conheço de verdade?”
Houve um silêncio do outro lado, onde Helena podia quase sentir a angústia de Ricardo. “Helena, eu entendo sua dor. Mas lembre-se de quem Daniel é. Lembre-se de tudo o que ele fez por você, de tudo o que ele representa. A vida é complexa, cheia de sombras e luzes. O passado de ninguém é imune a imperfeições.”
“Mas ele mentiu para mim, Ricardo. Ele escondeu algo tão importante.” A voz de Helena falhava, a raiva começando a se sobrepor à tristeza.
“Ele errou, Helena. Errou feio. Mas ele está tentando consertar isso. Ele te ama, e isso é o que importa. E você o ama também. Essa é a verdade que vale a pena lutar.”
“Eu não sei se tenho forças, Ricardo. É como se cada promessa que fizemos, cada juramento de amor, estivesse manchado agora. Eu olho para ele e vejo não só o homem que amo, mas também o homem que me escondeu a verdade. E isso dói mais do que eu consigo suportar.”
Ricardo suspirou. “Eu sei que dói. Mas a dor, às vezes, é o preço que pagamos por um amor verdadeiro. O que você vai fazer agora, Helena?”
A pergunta pairou no ar, pesada e carregada de incerteza. Helena olhou para a porta do quarto onde Daniel estava. Ela podia ouvi-lo se mexendo, o barulho suave de passos no carpete. Um arrepio percorreu sua espinha. Ela o amava, amava com uma intensidade que a assustava. Mas a desconfiança, como uma erva daninha, começava a se enraizar em seu coração.
“Eu não sei, Ricardo. Eu realmente não sei.”
A ligação terminou, deixando Helena mais sozinha do que antes. Ela se levantou, a decisão tomada em seus olhos. Ela precisava de ar, precisava de espaço. Foi até o quarto e encontrou Daniel sentado na cama, o olhar perdido no vazio. Ele levantou a cabeça ao vê-la, um lampejo de esperança em seus olhos que logo se apagou ao perceber a frieza em seu semblante.
“Helena…”
“Eu preciso sair, Daniel”, ela disse, a voz firme, mas a tremer. “Eu preciso pensar. Longe de tudo isso. Longe de nós.”
Ele se levantou, a expressão de dor se intensificando. “Por favor, Helena, não faça isso. Podemos conversar. Eu explico tudo.”
“Explica o quê, Daniel? Explica como você pôde me esconder algo assim? Explica como você pode olhar nos meus olhos e fingir que tudo está bem quando você carrega esse segredo nas costas?” A voz dela subiu, a angústia transbordando. “Eu não me reconheço mais, Daniel. E acho que, por enquanto, você também não me conhece mais.”
Ela pegou a bolsa, o coração martelando no peito como um tambor de guerra. Ela não podia mais ficar ali, presa naquele turbilhão de emoções. Cada objeto na casa parecia gritar com a memória de promessas feitas, de um futuro sonhado, agora ameaçado de extinção.
“Eu vou para a casa da minha mãe por alguns dias. Preciso de um tempo para respirar.”
Daniel deu um passo em sua direção, as mãos estendidas, mas Helena recuou. A dor em seu rosto era palpável, um reflexo da dor que ela sentia.
“Não, Helena. Por favor, me deixe falar.”
“Não há nada para falar agora, Daniel. Quando eu estiver pronta, talvez… talvez a gente converse. Mas agora, eu preciso ir.”
Ela saiu do quarto, sentindo o peso do olhar dele em suas costas. Ao atravessar a sala, seus olhos pousaram em uma fotografia que eles tiraram na viagem à praia, o sorriso genuíno em seus rostos, o sol beijando suas peles. Uma lágrima solitária escorreu por sua bochecha. Ela sabia que o amor deles era real, que eles tinham construído algo forte. Mas a confiança, a base de qualquer relacionamento duradouro, estava abalada. E Helena não tinha certeza se seria capaz de reconstruí-la. O eco das promessas quebradas, ou talvez apenas as promessas não totalmente reveladas, ressoava em seu coração, um prenúncio de uma tempestade ainda maior.