Cap. 2 / 25

Voltar a te Amar

Capítulo 2 — As Sombras de um Passado Recalcitrante

por Camila Costa

Capítulo 2 — As Sombras de um Passado Recalcitrante

O quarto da pousada era um refúgio temporário, um espaço onde Clara podia tentar recompor os cacos de sua vida desmoronada. A vista para o mar era hipnotizante, uma tela em constante movimento de azuis e verdes, mas naquele momento, Clara não conseguia apreciar sua beleza. A imagem de Pedro, com seus olhos profundos e a voz rouca, dominava sua mente, ofuscando a paisagem.

Dez anos. Parecia que fora ontem que ela partira, com o coração em frangalhos e a promessa sussurrada de que um dia voltaria. Mas a vida, com seus caminhos tortuosos, a levara para longe, para um mundo de concreto e aço, de ambições e decepções. Ela se tornara uma mulher diferente, mais dura, mais cautelosa, construindo muros ao redor de seu coração para protegê-lo de novas dores.

Mas aquele olhar de Pedro, aquele breve sorriso… haviam perfurado todas as suas defesas. Era como se o tempo não tivesse passado para ele, ou talvez, ele tivesse aprendido a conviver com as marcas do tempo de uma forma que ela ainda não conseguia.

Clara levantou-se da cama, andando pelo quarto com os pés descalços. A brisa que entrava pela porta da varanda trazia consigo o cheiro salgado do mar, um lembrete constante de onde ela estava e de quem ela viera reencontrar. Ela abriu a mala, tirando algumas roupas e as colocando no armário. Seus pertences eram poucos, como se ela mesma tivesse se tornado mais leve, mais desencanada.

Enquanto desdobrava uma blusa, seus dedos tocaram um pequeno objeto esquecido no fundo da mala. Era uma concha, polida e brilhante, que Pedro lhe dera em uma tarde ensolarada, na época em que tudo ainda era promessa e felicidade. Ele a chamara de "a concha do amor eterno". Um sorriso triste brotou em seus lábios. O amor eterno durou apenas até o dia em que ela decidiu que não podia mais ficar, que precisava fugir de um destino que parecia predeterminado, mas que a sufocava.

Ela guardou a concha em uma pequena caixa em sua mesa de cabeceira. Era um segredo, um vestígio de um amor que ela tentava enterrar, mas que teimava em reaparecer.

A necessidade de se mover, de não ficar parada em seu próprio turbilhão de pensamentos, a impeliu a sair do quarto. Desceu as escadas e saiu para a rua de pedras, o sol já começando a declinar no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e rosa. As vielas de Arraial d'Ajuda estavam repletas de turistas, artesãos vendendo seus produtos, o burburinho de conversas e risadas. A atmosfera era vibrante, cheia de vida e de uma energia contagiante.

Clara caminhou sem rumo, absorvendo a atmosfera. Lembrava-se de cada canto, de cada loja, de cada rosto conhecido que cruzava seu caminho. Tantos anos de ausência, e ainda assim, Arraial d'Ajuda parecia respirar em seu sangue.

Ela passou pela pracinha, onde a igreja branca se destacava contra o céu alaranjado. Lembrava-se de ter se confessado ali, de ter pedido perdão por sentimentos que não entendia, de ter implorado por coragem. A coragem que ela não teve quando mais precisou.

Seu destino a levou para a beira da praia, onde o movimento era mais intenso. Pescadores arrumavam suas redes, famílias brincavam na areia, casais passeavam de mãos dadas. E em meio a tudo isso, ela o viu novamente. Pedro.

Ele estava sentado em uma cadeira de praia, a olhar para o mar, como se estivesse esperando por algo. A camisa branca que usava mais cedo estava aberta, revelando um peito forte e bronzeado. Ele parecia mais relaxado agora, o semblante mais calmo.

Clara sentiu um misto de apreensão e fascínio. Deveria se aproximar? Ou seria melhor manter a distância? O que ela diria a ele? As perguntas se atropelavam em sua mente.

Enquanto ela ponderava, Pedro ergueu a cabeça, como se sentisse sua presença. Seus olhos a encontraram novamente, e um leve sorriso surgiu em seus lábios. Ele acenou com a cabeça, um convite silencioso para que ela se aproximasse.

Com o coração batendo forte, Clara caminhou até ele. Sentou-se na areia, a uma distância respeitosa.

"Pensando na vida?", ela perguntou, tentando manter a voz leve.

Pedro riu, um som grave que ressoou em seu peito. "Um pouco. O mar tem esse poder, não tem? De fazer a gente se perder em pensamentos."

"Tem sim", Clara concordou, olhando para as ondas que quebravam suavemente na areia. "E você parece se perder com frequência."

"Sempre fui um homem do mar, Clara. É onde me encontro." Ele virou-se para ela, seu olhar agora mais intenso. "E você? O que a traz de volta a este lugar que você fugiu?"

A pergunta, embora direta, não soou acusatória. Havia nela uma curiosidade genuína, uma necessidade de entender.

"Eu precisava de um recomeço", Clara disse, escolhendo as palavras com cuidado. "E senti que este era o lugar certo para isso. Para colocar as coisas em ordem."

"Colocar as coisas em ordem", Pedro repetiu, a testa franzida levemente. "Depois de dez anos? Não é um pouco tarde para isso?"

"Talvez", Clara admitiu. "Mas nunca é tarde demais para tentar. Para buscar paz."

Pedro ficou em silêncio por um momento, observando o mar. "Paz… aqui não é um lugar fácil para encontrar paz, Clara. Principalmente para quem carrega o peso do passado."

"E você não carrega?", ela ousou perguntar.

Ele a olhou, e em seus olhos Clara viu um reflexo de dor antiga. "Eu aprendi a conviver com ele. A transformar a dor em força. Algo que você, talvez, nunca tenha aprendido."

A alfinetada foi direta, e Clara sentiu um nó na garganta. Era a verdade. Ela fugira do que a machucava, em vez de confrontá-lo.

"Eu não soube como", ela confessou, a voz embargada. "Fui jovem, assustada. Não sabia lidar com o que estava sentindo."

"E o que você estava sentindo, Clara?", Pedro perguntou, sua voz suave, mas insistente. "Seja honesta, pelo menos agora."

Clara engoliu em seco. Aquele era o momento. O momento de dizer a verdade, a verdade que ela havia guardado por dez anos.

"Eu estava apaixonada", ela disse, olhando nos olhos dele, a voz embargada pela emoção. "Paixão avassaladora. E o medo de amar demais, de me entregar por completo, de me perder… me assustou. Eu achei que estava te sufocando, que nosso amor era intenso demais para um lugar tão pequeno, para uma vida tão simples."

Pedro a ouviu atentamente, sem interromper. Quando ela terminou, ele soltou um longo suspiro.

"Intenso demais?", ele repetiu, um sorriso irônico surgindo em seus lábios. "O que você chamava de intenso, eu chamava de viver. O que você temia, eu abraçava. Nós éramos um só, Clara. E você se partiu ao meio para fugir de algo que era você."

"E você?", Clara perguntou, com a voz embargada. "Como você lidou com a minha partida?"

Pedro desviou o olhar para o mar, a mandíbula tensa. "Fui devastado. Achei que você me amava. Que nosso futuro era aqui. Mas você escolheu fugir. E eu… eu tive que aprender a nadar sozinho em um oceano de dor."

"Eu sinto muito, Pedro. De verdade", ela sussurrou, as lágrimas começando a se formar em seus olhos.

Ele virou-se para ela, um olhar de resignação no rosto. "Eu sei que sente. Mas o 'sentir muito' não apaga o passado, Clara. Não apaga a dor."

"O que você quer que eu faça, então?", ela perguntou, a voz fraca.

Pedro se aproximou um pouco mais, o olhar fixo no dela. "Eu não sei. Talvez apenas viver o presente. E ver se o que sobrou de nós ainda vale a pena."

Aquele momento pairou no ar, carregado de emoções não ditas, de ressentimentos antigos e de uma atração que o tempo não conseguiu apagar. O sol já havia se posto, e as primeiras estrelas começavam a pontilhar o céu escuro. A praia, agora mais quieta, parecia guardar os segredos de seus corações.

"Tenho que ir", Pedro disse, levantando-se. "Tenho que arrumar as redes para pescar amanhã cedo."

Clara assentiu, sentindo um vazio se instalar em seu peito. Ele se afastou, deixando-a sozinha na areia, com o som das ondas como única companhia. Ela sabia que aquele reencontro era apenas o começo. As sombras de um passado recalcitrante pairavam sobre eles, e a luta para encontrar um caminho para o futuro seria árdua. Mas, pela primeira vez em muito tempo, Clara sentiu que talvez, apenas talvez, houvesse uma chance de que tudo não estivesse perdido. Havia uma fagulha de esperança, frágil, mas real, acesa no fundo de seu coração.

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