Voltar a te Amar
Capítulo 3 — O Passado Bate à Porta
por Camila Costa
Capítulo 3 — O Passado Bate à Porta
O silêncio do quarto da pousada parecia amplificar os pensamentos de Clara. O reencontro com Pedro, embora doloroso em sua honestidade, havia trazido uma clareza que ela não esperava. A conversa na praia havia desenterrado a raiz de sua partida: o medo. Um medo que a consumira e a fizera tomar a decisão mais difícil de sua vida.
Agora, em Arraial d'Ajuda, cercada pelas memórias e pela presença viva de Pedro, ela sentia a necessidade de confrontar não apenas o passado, mas a mulher que ela se tornara. A mulher que fugiu, que se escondeu, que construiu uma vida sólida, mas vazia.
Na manhã seguinte, um sol radiante banhava a vila. Clara decidiu explorar a cidade, caminhar sem pressa, reconectar-se com os lugares que um dia foram palco de sua felicidade e de sua dor. Ela parou em frente a uma pequena loja de artesanato, onde uma senhora idosa, com o rosto marcado pelo sol e um sorriso acolhedor, arrumava seus produtos.
"Dona Eulália?", Clara chamou, a voz hesitante.
A senhora ergueu os olhos, um brilho de reconhecimento surgindo em seu olhar. "Minha filha! Clara? É você mesmo?"
O abraço de Dona Eulália foi caloroso e apertado, como o de uma avó. Clara sentiu-se envolvida por um afeto genuíno, algo que faltava em sua vida agitada e solitária.
"Que surpresa boa! Pensei que nunca mais voltaria a nos visitar", disse Dona Eulália, puxando-a para dentro da loja.
"Eu precisei voltar, Dona Eulália. Tenho assuntos a resolver."
"Assuntos… Ah, minha filha. Sei bem que tipo de assunto te traz de volta para Arraial." Um sorriso malicioso surgiu nos lábios da senhora. "O Pedro, não é?"
Clara corou. "Dona Eulália, eu… é complicado."
"Tudo é complicado quando a gente foge da verdade, meu bem. Mas o Pedro… ele nunca te esqueceu. O coração dele sempre foi seu, mesmo quando ele tentou disfarçar com essa pose de homem durão e solitário."
As palavras de Dona Eulália tocaram um ponto sensível em Clara. Ela sabia que Pedro a amava, mas o medo a impedira de retribuir esse amor com a mesma intensidade. Agora, de volta, ela via que a ausência dela o moldara, mas não apagara a essência do homem que ela amara.
"Ele… ele parece diferente", Clara murmurou.
"O tempo muda a gente, Clara. Mas não muda o que está na alma. E a alma dele sempre foi sua. A sua, por outro lado… parece que se perdeu um pouco no caminho."
A franqueza de Dona Eulália, embora um pouco dura, era necessária. Clara sentiu que precisava ser honesta consigo mesma.
"Talvez eu tenha me perdido", ela admitiu. "Mas estou aqui para me reencontrar."
"E quem sabe, se reencontrar com ele também?", Dona Eulália sugeriu, com um brilho nos olhos. "O amor verdadeiro, quando é assim, não morre. Apenas adormece, esperando a hora certa de despertar."
Clara sorriu timidamente. A esperança de Dona Eulália era contagiante, mas a realidade era mais complexa.
"Eu não sei, Dona Eulália. Há muita água para correr sob a ponte."
"Enquanto houver água, há esperança, minha filha. Agora, me conte. O que a trouxe de volta? Algum trabalho, algum parente?"
"Eu… eu decidi mudar de vida. Buscar algo mais… autêntico." Clara sentia-se estranhamente confortável em compartilhar seus anseios com Dona Eulália. A senhora tinha um jeito de ouvir que a fazia sentir compreendida.
"Autêntico… Arraial tem muito disso. E o Pedro tem muito disso. Ele é um homem de verdade, Clara. Leal, trabalhador, com um coração de ouro. Pena que a mocinha aqui não soube valorizar."
Clara baixou a cabeça, sentindo-se envergonhada. "Eu sei."
"Mas isso não quer dizer que a chance acabou. O mar pode levar, mas também pode trazer de volta. E você voltou." Dona Eulália pegou uma pequena pulseira de sementes e a colocou nas mãos de Clara. "Use isto. Um amuleto de Arraial. Para te dar força e sabedoria para encontrar seu caminho."
Agradecendo a Dona Eulália, Clara saiu da loja com o coração mais leve e a pulseira de sementes em seu pulso. O sol da manhã parecia mais gentil agora, e o perfume das flores mais doce.
Enquanto caminhava de volta para a pousada, ela avistou uma cena que a fez parar. Pedro estava conversando com um grupo de pescadores, suas mãos gesticulando enquanto ele falava com paixão. Ele parecia um líder natural, alguém respeitado por sua comunidade.
Clara observou-o por um instante, sentindo uma onda de admiração. Ele era um homem forte, resiliente, que soube reconstruir sua vida após a partida dela. E ela, por outro lado, fugira.
Decidida a não mais fugir, Clara se aproximou.
"Pedro?", ela chamou, sua voz suave, mas firme.
Ele se virou, seus olhos encontrando os dela. Havia uma expressão de surpresa em seu rosto, mas também um toque de… expectativa?
"Clara. Que surpresa te ver por aqui de novo", ele disse, o tom mais amigável do que na noite anterior.
"Eu estava caminhando", ela explicou. "Dona Eulália me deu isto." Ela ergueu o pulso, mostrando a pulseira.
Pedro sorriu. "Dona Eulália e seus amuletos. Ela sempre foi uma figura importante aqui."
"Ela me contou sobre você", Clara disse, sentindo-se um pouco envergonhada.
"Contou o quê?", Pedro perguntou, a curiosidade aparente em seu olhar.
"Que você… que você nunca me esqueceu."
Um leve rubor subiu pelas faces de Pedro. Ele desviou o olhar por um instante, como se tentasse disfarçar a emoção. "Dona Eulália fala demais. Mas… ela não está totalmente errada."
O coração de Clara deu um salto. "Não está errada?"
"Eu nunca esqueci você, Clara. Como poderia? Você foi a primeira e única mulher que amei de verdade." A confissão saiu de seus lábios de forma natural, desprovida de dramatismo, mas carregada de uma sinceridade que fez Clara sentir um aperto no peito.
"E eu te amei também, Pedro. Eu te amei tanto que me assustei."
"Eu sei", ele disse, seus olhos fixos nos dela. "Eu também senti isso. Mas o medo, Clara, ele não pode ser maior do que o amor."
"Eu aprendi isso da maneira mais difícil."
Um grupo de crianças passou correndo, rindo e brincando, quebrando a intensidade do momento.
"Você veio para ficar?", Pedro perguntou, mudando de assunto, mas com um tom de esperança velada.
"Eu não sei", Clara respondeu sinceramente. "Eu vim para tentar. Para ver se consigo encontrar o que perdi."
"E o que você acha que perdeu?", ele indagou, a voz ainda mais suave.
"A mim mesma. E a nós."
Pedro assentiu lentamente. "Talvez este seja o lugar para reencontrar as duas coisas." Ele hesitou por um momento, como se estivesse reunindo coragem. "Eu tenho um barco. Talvez… talvez possamos dar uma volta. Pelo mar. E conversar. Sem pressa."
Clara sentiu um frio na barriga. Um convite para um passeio de barco, exatamente como nos velhos tempos. Era uma oportunidade, mas também um risco. O mar, que antes era palco de seu amor, agora poderia ser o palco de sua redenção.
"Eu adoraria", ela disse, um sorriso genuíno iluminando seu rosto.
Pedro retribuiu o sorriso, e pela primeira vez desde que ela chegara, Clara sentiu que talvez a jornada de volta para si mesma, e para ele, pudesse realmente começar. Mas ela sabia que o passado, com suas sombras e seus fantasmas, ainda bateria à porta, e eles precisariam estar fortes para enfrentá-lo, juntos ou separados.