Promessas Quebradas

Promessas Quebradas

por Valentina Oliveira

Promessas Quebradas

Por Valentina Oliveira

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Capítulo 1 — O Encontro Sob a Chuva Fina

A tarde caía preguiçosa sobre o Rio de Janeiro, tingindo o céu de um laranja melancólico. Na Lapa, o burburinho habitual das ruas espreguiçava-se, misturando o aroma de café fresco com o cheiro adocicado de churros. Mas para Isabella, ali, em frente à sua modesta livraria “Páginas do Tempo”, o tempo parecia estagnar. A chuva fina e persistente, típica da estação, molhava as calçadas de pedra e criava reflexos cintilantes nas poucas poças d’água.

Isabella ajustou o cachecol de lã sobre os ombros, sentindo um arrepio que nada tinha a ver com o clima. Era a angústia crescente, a sombra de uma decisão que pairava sobre sua vida como a garoa sobre a cidade. A livraria, um sonho cultivado desde a infância, herdada de seu avô, um amante de livros que lhe ensinara a decifrar o mundo entre as páginas, estava à beira de um precipício. As contas acumulavam-se, as vendas diminuíam, e o fantasma do aluguel atrasado assombrava seus pensamentos.

Ela olhou para a porta de vidro, onde o letreiro de madeira, pintado à mão por ela mesma anos atrás, tremeluzia sob a luz fraca. Cada livro ali dentro era um pedaço de sua alma, uma história que ela desejava compartilhar. Havia os clássicos empoeirados, as novidades mais comentadas, os raros exemplares de autores esquecidos. E havia, escondido em uma prateleira nos fundos, o seu manuscrito. Um romance que escrevera em segredo, movida pela inspiração de um amor que um dia acreditou ser eterno.

Um homem, envolto em um guarda-chuva preto elegante, parou em frente à vitrine. Ele era alto, com ombros largos que pareciam carregar o peso do mundo, e o rosto, parcialmente obscurecido pela penumbra, exibia traços de uma beleza austera, quase melancólica. Seus olhos, quando se voltaram para Isabella, eram de um azul profundo, como o mar em dias de tempestade. Havia uma intensidade neles que a fez prender a respiração.

Ele abriu a porta da livraria, o sino acima dela tilintando com uma melodia suave. O cheiro de papel antigo e a fragrância sutil de canela que Isabella sempre mantinha no ar pareciam envolvê-lo. Ele tirou o guarda-chuva, sacudiu as gotas de chuva e o colocou com cuidado em um suporte próximo à entrada.

"Boa tarde", disse ele, a voz grave e aveludada, com um sotaque carregado que Isabella não soube identificar de imediato. "Espero não estar incomodando."

"De forma alguma", respondeu Isabella, tentando disfarçar o nervosismo com um sorriso. "Seja bem-vindo. Posso ajudá-lo a encontrar algo?"

Ele percorreu o olhar pela livraria, seus olhos fixando-se em cada detalhe: as pilhas de livros, os cantos aconchegantes com poltronas gastas, os pequenos bilhetes com recomendações escritas à mão por ela.

"Procuro um refúgio", disse ele, e Isabella sentiu que ele não falava apenas de um lugar físico. "Um lugar onde as histórias ainda importam."

Ela assentiu, o coração batendo um pouco mais forte. "Este é o lugar, então. As histórias sempre importam." Ela apontou para a prateleira mais próxima. "Temos novidades, clássicos, poesia... O que você busca?"

Ele se aproximou da prateleira de romances. Seus dedos longos e fortes deslizaram pelas lombadas dos livros, como se estivesse acariciando rostos conhecidos.

"Algo que me faça sentir... vivo", murmurou ele, quase para si mesmo. "Algo que me tire desta chuva, desta melancolia."

Isabella sentiu uma pontada de identificação. Ela também se sentia presa, à deriva.

"Talvez algo de Gabriel García Márquez?", sugeriu ela. "Cem Anos de Solidão' é um convite para um mundo que te consome."

Ele sorriu, um leve repuxar dos lábios que transformou o semblante austero em algo mais suave. "Um clássico, sim. Mas hoje, busco algo um pouco mais... visceral."

Ele parou em frente a uma seção de autores brasileiros contemporâneos. Seus olhos pousaram em um exemplar de "O Vento Sopra de Norte" de um autor desconhecido. Ele o pegou com reverência, como se fosse um tesouro.

"Nunca ouvi falar deste autor", comentou Isabella, curiosa.

"Eu também não", disse ele, folheando as páginas com cuidado. "Mas a capa me chamou a atenção. E o título... 'O Vento Sopra de Norte'. Parece uma promessa."

Ele continuou a folhear, e então, algo o fez parar. Um livro mais fino, escondido entre os outros, com uma capa simples e um título manuscrito: "Ecos do Coração". Era o seu manuscrito. O livro que ela escrevera sob a inspiração de um amor que se desfez em promessas quebradas.

O ar pareceu rarear na livraria. Isabella sentiu um frio na espinha. Como ele o encontrara? Ela nunca o colocara à venda. Era um segredo guardado a sete chaves, uma lembrança dolorosa que ela não desejava compartilhar.

Ele pegou o livro com a mesma delicadeza que usara com o outro. O título manuscrito parecia brilhar sob a luz fraca. Ele abriu o livro e começou a ler as primeiras linhas.

" 'O sol se punha em tons de fogo sobre as águas da Guanabara, e ela sentia o peso da saudade apertar o peito...' " ele leu em voz baixa, o sotaque ainda mais pronunciado agora, como se as palavras o transportassem para outro lugar.

O rosto de Isabella empalideceu. Aquelas eram as mesmas palavras que ela escrevera naquela tarde chuvosa, anos atrás, quando o amor de sua vida partira sem dizer adeus, deixando para trás apenas promessas vazias e um coração em pedaços.

Ele ergueu os olhos do livro, encontrando os dela. Havia uma pergunta silenciosa no olhar dele, e um pânico crescente no dela. Ele reconheceu a intensidade da escrita, a dor crua que emanava daquelas poucas palavras.

"Quem escreveu isso?", perguntou ele, a voz agora carregada de uma emoção que Isabella não soube decifrar.

"Eu", respondeu ela, a voz embargada. "Sou eu quem escrevi."

Um silêncio denso se instalou entre eles, quebrado apenas pelo som suave da chuva lá fora. Ele olhou para ela, e em seus olhos azuis, Isabella viu um misto de surpresa, compaixão e algo mais... uma fagulha de reconhecimento. Parecia que ele estava olhando não para uma desconhecida, mas para um fantasma do passado.

"É... é um livro belíssimo", disse ele, devolvendo o manuscrito com cuidado para a prateleira. A delicadeza com que ele o fez era quase um carinho. "A dor que emana destas palavras é palpável. Tão real."

Ele pegou o livro de Gabriel García Márquez, como se precisasse de um escudo.

"Obrigado pela recomendação", disse ele, a voz mais contida agora. Ele tirou a carteira do bolso. "Quanto fica?"

Enquanto Isabella registrava a venda, suas mãos tremiam. Ela sentia os olhos dele sobre ela, uma presença que a desarmava por completo. Era como se aquele encontro inesperado, sob a chuva fina da Lapa, fosse um prenúncio de algo maior, de algo que mudaria o curso de suas vidas para sempre.

Ele pagou, pegou o livro e voltou a colocar o guarda-chuva na mão. Antes de sair, ele parou na porta.

"Um dia, espero ler mais de você", disse ele, e seus olhos encontraram os dela novamente. Havia uma promessa implícita naquela frase, uma promessa que, para Isabella, soou perigosamente familiar.

Ele saiu, e o sino tilintou mais uma vez. Isabella ficou parada, o coração em disparada, olhando para a porta fechada. A chuva continuava a cair, mas agora, dentro dela, algo havia mudado. A melancolia que a envolvia parecia ter sido tocada por uma faísca inesperada, um eco do passado que se manifestara em forma de um estranho com olhos de tempestade e uma voz que parecia vir de longe. Ela não sabia quem ele era, nem por que o seu manuscrito o tocara tanto, mas uma coisa era certa: aquele encontro não seria esquecido.

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