Promessas Quebradas
Capítulo 10 — O Embate das Promessas e a Renúncia do Amor
por Valentina Oliveira
Capítulo 10 — O Embate das Promessas e a Renúncia do Amor
O escritório de Rafael, no coração pulsante do centro do Rio de Janeiro, era um santuário de vidro e aço, um símbolo de seu sucesso implacável. A vista panorâmica da cidade, um espetáculo de luzes e movimento, contrastava com a tensão palpável que pairava no ar. Isabella estava sentada em frente à mesa imponente de Rafael, o manuscrito de "O Beijo da Maré" pousado entre eles como um juiz silencioso.
"Você disse que precisávamos conversar, Isabella", Rafael começou, a voz calma, mas com um toque de impaciência velada. Seus olhos, antes tão acolhedores, agora pareciam frios e calculistas. "E eu estou aqui, pronto para ouvir."
Isabella respirou fundo, o perfume sutil do café que emanava de uma xícara em sua mesa tentando acalmá-la. "Rafael, eu conversei com Sérgio."
A menção do nome dele causou uma leve contração nos lábios de Rafael. "Ah, Sérgio. Aquele artista de alma atormentada. O que ele disse dessa vez?"
"Ele me contou sobre a melodia", Isabella disse, a voz firme, olhando diretamente nos olhos de Rafael. "A melodia que você transformou, a que você lançou como sua. Ele disse que você o deixou de lado, que você quebrou uma promessa."
Um sorriso irônico surgiu nos lábios de Rafael. Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços. "Isabella, Isabella. Você se deixa levar facilmente pelas lamentações de almas fracassadas. Sérgio é um músico talentoso, sim, mas ele não tem a visão para o mundo real. Eu o ajudei, eu dei uma direção para o nosso projeto. Ele não soube aproveitar a oportunidade, e eu tive que seguir em frente. Isso é negócio, Isabella. É a lei da sobrevivência."
"Mas ele disse que a essência era dele, Rafael. Que você pegou a inspiração e a transformou em algo que ele nem reconhecia mais." A voz de Isabella ganhava força a cada palavra. "E quanto ao contrato? A cláusula sobre os direitos de adaptação. É padrão mesmo, ou é uma forma de você garantir controle total sobre minha obra?"
Rafael suspirou, como se estivesse lidando com uma criança teimosa. "Isabella, você está sendo paranoica. Eu acreditei em você, acreditei no seu livro. Eu investi tempo e dinheiro para que ele fosse publicado. Essa cláusula é padrão para proteger o investimento da editora. Se o seu livro se tornar um sucesso, é natural que queiramos explorar outras mídias. E, sim, Sérgio me procurou. Ele está amargurado, ele se sente um fracassado, e agora ele está tentando te manipular contra mim. Ele quer destruir o que estamos construindo juntos."
Ele se inclinou para frente, sua voz tornando-se mais persuasiva, quase sedutora. "Bella, não deixe que a negatividade de Sérgio contamine o seu futuro. Pense no seu livro, no seu sonho. Eu estou te oferecendo a chance de realizá-lo. Você quer voltar a ser uma editora assistente, revisando manuscritos alheios, ou quer ver o seu nome estampado nas livrarias, nas listas de mais vendidos?"
As palavras de Rafael eram um veneno doce, tentando seduzi-la de volta para sua teia. Ele pintava Sérgio como um invejoso, e a si mesmo como o salvador de seu sonho. Mas Isabella não era mais a mesma escritora ingênua que chegara àquela cidade. A experiência, as conversas, tudo a havia transformado.
"Rafael", ela disse, a voz firme, desfazendo qualquer vestígio de dúvida. "Eu não sou ingênua. Eu sei o que Sérgio disse, e eu vejo a forma como você manipula as palavras para se justificar. Você fala de ajudar artistas, mas seu único interesse é o lucro. Você não protege a arte, você a explora."
O sorriso de Rafael desapareceu. Seus olhos faiscaram com um brilho perigoso. "Você está acusando a mim, Isabella? Você está me acusando de algo que eu não fiz?"
"Você transformou a melodia de Sérgio em algo irreconhecível e a lançou como sua. Você quebrou uma promessa. E essa cláusula no contrato... eu pedi uma segunda opinião. E o advogado me disse que ela é excessivamente restritiva e pode me tirar o controle sobre as adaptações futuras. Você não me ofereceu isso de forma transparente. Você tentou me enganar."
Rafael se levantou abruptamente, batendo as mãos na mesa. "Você está louca! Você está deixando um músico fracassado envenenar sua mente contra mim! Eu te ofereci tudo! Eu te dei uma chance! E é assim que você me paga? Com acusações infundadas?"
"Eu não estou sendo infundada, Rafael. Estou sendo cautelosa. E agora, eu sei que não posso confiar em você para proteger meu trabalho. 'O Beijo da Maré' é mais do que um livro para mim. É a minha alma. E eu não posso entregá-la a alguém que a verá apenas como um produto a ser explorado."
Ela pegou o manuscrito e o puxou para perto de si. O amor que ela sentia por seu livro lutava contra a decepção amarga que sentia por Rafael. Ele era o homem que a fizera sonhar com a publicação, o homem por quem ela começara a sentir algo mais profundo. Mas ele também era o homem que Sérgio descrevera, um predador disfarçado de benfeitor.
"Eu não posso aceitar sua proposta, Rafael", Isabella declarou, a voz embargada pela emoção. "Eu vou procurar outra editora. Uma que entenda o valor da minha obra, não apenas o seu valor de mercado."
Rafael a encarou, a raiva substituída por um silêncio gélido. A verdade, crua e inegável, havia se instalado entre eles. As promessas de um futuro brilhante se quebraram, assim como as promessas antigas de Sérgio.
"Você está cometendo um erro terrível, Isabella", ele disse, a voz fria como o gelo. "Você vai se arrepender disso."
Isabella não respondeu. Ela se levantou, pegou sua bolsa e se dirigiu à porta. Ao sair do escritório, a luz do sol que entrava pelas janelas parecia zombeteira. Ela sentiu o peso da renúncia, a dor de ver um sonho se desvanecer, mas também sentiu a força da decisão. Ela havia escolhido a verdade, mesmo que isso significasse um caminho mais árduo. O eco da verdade, ela sabia, a guiaria. E o amor por sua arte, essa sim, era uma promessa que ela jamais quebraria. O amor por Rafael, no entanto, essa promessa, ela a deixava ali, no coração de vidro e aço da cidade, tão frágil e irreal quanto as melodias esquecidas.