Promessas Quebradas

Capítulo 2 — O Fantasma do Passado e a Oferta Irrecusável

por Valentina Oliveira

Capítulo 2 — O Fantasma do Passado e a Oferta Irrecusável

Os dias que se seguiram à visita do estranho foram tomados por uma agitação interna para Isabella. A livraria, antes um porto seguro, agora parecia um palco onde o passado e o presente se confrontavam de maneira cruel. Ela não conseguia tirar da cabeça os olhos azuis profundos do homem, a maneira como ele tocara seu manuscrito, o reconhecimento tácito que ela vira ali. Quem era ele? E por que o seu livro, sua confissão secreta de amor e desilusão, o afetara tanto?

Ela revirava os olhos para a prateleira onde o manuscrito repousava, agora intocado, quase como se fosse um segredo exposto. Isabella o escrevera em um momento de dor aguda, um desabafo que se transformou em arte, em um reflexo de um amor que florescera com a força de um furacão e terminara com a fúria de um tsunami. Era a história de Sofia, uma jovem idealista que se apaixonara perdidamente por um músico talentoso e volátil, um homem que lhe prometera um futuro de estrelas e paixão, mas que, no fim, sucumbira às suas próprias incertezas, deixando-a à deriva. A inspiração, a melodia do amor, viera de um tempo em que ela acreditava que as promessas eram eternas.

Isabella passava horas rearranjando os livros, limpando as prateleiras com um zelo redobrado, tudo para evitar pensar naquele homem. Mas sua imagem persistia, como uma melodia que se recusa a sair da cabeça. Ela se pegava observando os clientes que entravam, esperando, quase que inconscientemente, que ele retornasse.

Numa terça-feira chuvosa, o inevitável aconteceu. O sino tilintou, e ali estava ele novamente, o mesmo guarda-chuva preto, o mesmo ar de mistério. Ele parecia ter se tornado uma parte da paisagem chuvosa da Lapa. Desta vez, ele não se dirigiu à seção de romances, mas caminhou diretamente para o balcão.

"Boa tarde", disse ele, um sorriso leve dançando em seus lábios. "Espero que não se importe com meu retorno. A chuva me trouxe de volta."

Isabella sentiu um calor subir pelas faces. "De forma alguma", respondeu, a voz mais firme desta vez. "Sinta-se em casa. Posso ajudá-lo a encontrar algo novo?"

Ele balançou a cabeça. "Na verdade, vim para outra coisa. Sou um homem de negócios, sabe? E, quando encontro algo de valor, gosto de investi-lo."

Isabella franziu a testa, sem entender. "Valor?", repetiu.

Ele a olhou nos olhos, e a profundidade do seu olhar a fez sentir-se exposta. "O valor da sua escrita. Ouvi dizer que você está passando por dificuldades financeiras. Ouvi falar sobre a livraria."

O estômago de Isabella deu um nó. Quem poderia ter contado a ele? Ela era cuidadosa, discreta.

"As notícias correm rápido na Lapa", ele disse, como se tivesse lido seus pensamentos. "E eu tenho um interesse particular em investir em arte, em histórias. Em talentos que podem estar escondidos."

Ele tirou uma pasta de couro de sua maleta. Abriu-a e retirou alguns papéis.

"Eu sou Arthur Montenegro", disse ele, estendendo a mão para ela. "E estou interessado em fazer uma proposta para a sua livraria. Uma proposta que pode tirar você de qualquer dificuldade e, quem sabe, dar um novo fôlego a este lugar encantador."

Isabella hesitou por um momento antes de apertar sua mão. A firmeza do aperto dele era reconfortante, mas também intimidadora. Arthur Montenegro. Um nome que soava como poder, como riqueza.

"Arthur Montenegro?", repetiu ela, maravilhada. "O... o empresário? O dono das Montenegros Empreendimentos?"

Ele sorriu, um sorriso genuíno desta vez, que suavizou ainda mais seus traços. "O mesmo. Mas hoje, não sou o empresário. Sou apenas um homem que se encantou com um lugar e com uma história."

Ele colocou os papéis sobre o balcão. Eram documentos de compra e venda, com um valor que fez Isabella arregalar os olhos. Era uma quantia muito acima do que ela imaginara ser o valor de mercado de sua livraria. Era uma oferta irrecusável, um resgate dos seus problemas financeiros.

"Mas... por quê?", Isabella gaguejou. "Eu sou apenas uma pequena livreira. E a minha livraria não é nada comparada ao império que o senhor construiu."

Arthur inclinou-se ligeiramente para frente, seus olhos fixos nos dela. "O império Montenegro começou com um sonho, com uma paixão. Assim como a sua livraria. E eu reconheço a força de um sonho. Além disso", ele fez uma pausa, um brilho nos olhos, "há algo mais."

Ele apontou para a prateleira onde o manuscrito de Isabella estava. "Eu quero investir em você, Isabella. Quero publicar seu livro. Quero que o mundo leia as suas 'Ecos do Coração'."

Isabella sentiu o chão sumir sob seus pés. Publicar seu livro? Aquela história íntima, guardada a sete chaves? Era assustador, mas ao mesmo tempo, era o sonho de uma vida.

"Publicar?", sussurrou ela, a voz embargada de emoção. "Mas... eu nunca pensei..."

"Eu vi o potencial. A dor. A beleza. A sua escrita tem alma, Isabella", disse ele, a voz séria. "Eu posso ajudar a dar a ela a plataforma que ela merece. E em troca, você me permite ser parte deste recomeço."

Ele explicou os termos da oferta. Ele compraria a livraria, mas com a condição de que Isabella continuasse administrando-a, com total liberdade criativa. Além disso, ele cobriria todas as dívidas, reformaria o local e lhe daria um adiantamento generoso para a publicação de seu livro. Ele seria o editor, o investidor, o parceiro.

O dilema era imenso. Vender a livraria, o legado de seu avô, era como vender uma parte de si mesma. Mas a alternativa era a falência, a perda de tudo. E a oportunidade de ver seu livro publicado, de compartilhar sua arte com o mundo, era um chamado irresistível.

"Por que eu?", Isabella perguntou novamente, a dúvida ainda presente. "Por que se importar tanto com uma livraria e uma escritora desconhecida?"

Arthur Montenegro a encarou. O olhar dele era intenso, quase confessional.

"Talvez porque eu também já estive à beira do abismo", disse ele, a voz baixa. "Talvez porque eu reconheço a solidão de quem luta por seus sonhos. E, principalmente", ele hesitou, como se lutasse com suas próprias palavras, "talvez porque algo em você, em sua história, me lembra de alguém que um dia eu amei e perdi."

Aquelas palavras atingiram Isabella como um raio. Alguém que ele amou e perdeu? Seria possível que ele tivesse alguma ligação com o passado que a atormentava? O homem do seu manuscrito, o músico que partira sem dizer adeus, também era um homem de paixões intensas, de voos altos e quedas abruptas.

Ela olhou para os documentos sobre o balcão, para a oferta que representava a salvação. Olhou para Arthur Montenegro, um homem de mistérios e de um poder avassalador, que parecia carregar em seus olhos a mesma melancolia que ela sentia em seu próprio coração.

"Eu preciso de tempo para pensar", disse ela, a voz trêmula.

"Claro", Arthur concordou, fechando a pasta. "Mas não demore muito. O vento nem sempre sopra a nosso favor, Isabella. E esta é uma oportunidade que pode não voltar."

Ele se virou para sair, mas parou na porta. "Eu estarei de volta. Para saber sua decisão. E, quem sabe, para tomar um café e conversar sobre os rumos da literatura brasileira."

Ele saiu, deixando Isabella em um turbilhão de emoções. A proposta de Arthur Montenegro era um presente dos deuses, ou uma armadilha disfarçada? Ela sentia a força daquela oferta, a promessa de um futuro melhor. Mas também sentia o peso do passado, a sombra das promessas quebradas que a haviam moldado. E a misteriosa ligação que Arthur parecia ter com a dor de sua alma.

Naquela noite, Isabella mal dormiu. As imagens de Arthur Montenegro se misturavam às lembranças do homem que inspirara seu manuscrito, o músico que partira, deixando para trás apenas a saudade e a incerteza. Ela sabia que precisava fazer uma escolha. Uma escolha que definiria seu futuro, e talvez, a salvação de seus "Ecos do Coração". A chuva lá fora parecia sussurrar segredos antigos, e Isabella sentia que, de alguma forma, o destino estava batendo à sua porta.

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