Entre o Amor e o Ódio

Capítulo 2 — O Confronto na Sede

por Valentina Oliveira

Capítulo 2 — O Confronto na Sede

O rugido do motor do carro importado, um contraste estridente com o silêncio bucólico da fazenda, anunciou a chegada de Rafael Vasconcelos. Isabela o observou pelo vidro da biblioteca, o coração batendo em um ritmo acelerado que nada tinha a ver com a paz que o chá de Dona Aurora prometia. Ele desceu do carro com a desenvoltura de quem é dono do mundo, um terno escuro impecável que parecia imune à poeira e ao calor tropical. Seus cabelos escuros, levemente desalinhados pelo vento, emolduravam um rosto de traços fortes e olhar penetrante, capaz de desarmar qualquer um. Mas não a ela. Pelo menos, não mais.

Isabela respirou fundo, alisando mais uma vez o vestido de linho branco. Ela não era mais a garota assustada que fugira da fazenda anos atrás para buscar seus sonhos na capital. A responsabilidade, a dor da perda e a necessidade de defender o legado de seu pai a haviam endurecido. Ela era a herdeira da Santa Clara, e isso lhe dava uma força que Rafael parecia subestimar.

Quando ele entrou na biblioteca, com um sorriso educado, mas frio, nos lábios, Isabela já estava de pé, os braços cruzados, encarando-o com firmeza.

"Sr. Vasconcelos", ela disse, a voz controlada, mas carregada de uma tensão latente. "Imaginei que seria você."

"Dona Isabela", ele respondeu, o tom respeitoso, mas sem calor. Seus olhos percorreram o ambiente, avaliando a biblioteca com um olhar que ela interpretou como um julgamento silencioso. "Sempre um prazer revê-la. Embora as circunstâncias não sejam as ideais."

"Circunstâncias?", Isabela arqueou uma sobrancelha. "O senhor se refere à morte do meu pai, um homem que o senhor dizia considerar um amigo, mas que parece mais interessado em desenterrar os seus erros? Ou se refere à sua constante interferência nos meus assuntos, como se eu fosse incapaz de gerir a própria herança?"

O sorriso de Rafael vacilou por um instante, e um brilho de algo que poderia ser surpresa, ou talvez irritação, passou por seus olhos. "Dona Isabela, estou apenas cumprindo com o meu dever. Seu pai me confiou a administração de seus negócios. E, neste momento, a Santa Clara está em uma situação financeira delicada. Minha função é garantir que o patrimônio dele não se perca em decisões precipitadas."

"Decisões precipitadas?", ela riu, uma risada seca, desprovida de humor. "O senhor quer que eu venda a fazenda, não é? Venda para quem? Para a S.A. AgroTech, aquela empresa que o senhor representa em tantas transações? A mesma empresa que vem pressionando meu pai há anos para vender essas terras?"

Rafael deu um passo à frente, o semblante sério. "Eu não estou sugerindo nada. Estou apresentando as opções que seu pai discutiu comigo, e que parecem ser as mais viáveis dadas as dívidas acumuladas e a conjuntura econômica. A S.A. AgroTech fez uma proposta generosa."

"Generosa para quem? Para eles?", Isabela retrucou, avançando em direção a ele, a pequena distância entre eles se tornando um campo de batalha. "Essas terras são o legado da minha família há gerações, Sr. Vasconcelos. Não vou vendê-las para satisfazer os interesses de uma corporação gananciosa e, aparentemente, os seus também."

Os olhos de Rafael se fixaram nos dela, um fogo sutil começando a crepitar em sua profundidade. "A senhora está sendo irracional, Dona Isabela. A paixão pelo lugar não paga as contas. Seu pai era um homem pragmático. Ele sabia que a Santa Clara, com suas limitações e custos de manutenção, não se sustentaria indefinidamente."

"E o senhor, com sua frieza calculista, sabe exatamente quanto vale a minha alma, não é? O senhor sempre me viu como uma inconveniente, uma herdeira mimada que voltou para casa com suas mãos sujas de tinta de arquitetura, sem saber nada sobre a terra. O senhor nunca me deu o benefício da dúvida, nunca acreditou que eu pudesse honrar o trabalho do meu pai." A voz de Isabela estava embargada pela emoção, pela mágoa de anos de desconfiança.

"Eu acredito no que vejo", Rafael disse, a voz mais baixa, mas com uma intensidade que fez os pelos de Isabela se arrepiarem. "E o que vejo é uma mulher que ainda não entende a magnitude da responsabilidade que recai sobre seus ombros. Seu pai, em seus últimos anos, estava preocupado. Muito preocupado."

"Preocupado com o quê? Com a venda?", ela o acusou. "Ou preocupado com a forma como o senhor o estava sufocando financeiramente com seus conselhos? Meu pai era um homem de palavra, mas também era um homem de coração. E o senhor, Sr. Vasconcelos, parece não ter coração algum."

Rafael deu um passo para trás, a expressão fechada. "A senhora está confundindo as coisas. A dívida da fazenda é anterior à minha atuação. E quanto ao meu coração, Dona Isabela, é uma questão que não diz respeito à administração da Santa Clara."

"Ah, mas diz sim!", Isabela exclamou, sua voz ecoando pela biblioteca. "Porque se o senhor fosse um homem com um pingo de consideração, entenderia que essa fazenda não é apenas um negócio para mim. É a minha vida, é a memória do meu pai, é o meu lar." Lágrimas teimosas ameaçavam cair, mas ela as segurou com unhas e dentes. Ela não lhe daria o prazer de vê-la chorar.

Rafael a encarou por um longo momento, o silêncio denso carregado de palavras não ditas e de uma tensão palpável. Ele parecia avaliar algo em seus olhos, em sua postura, como se tentasse desvendar a força que a impulsionava.

"Se é assim que a senhora vê as coisas", ele disse, finalmente, a voz voltando a um tom profissional. "Então eu a apresentarei os relatórios financeiros completos. A senhora terá todos os números, todas as dívidas, todas as propostas. A decisão final será sua. Mas que fique claro, Dona Isabela, que eu a aconselhei sobre os riscos."

Ele pegou uma pasta de couro preto que trouxera consigo e a colocou sobre a mesa de centro. "Estes são os documentos. A proposta da S.A. AgroTech e uma análise detalhada da situação atual. Peço que os analise com a mesma seriedade que a senhora demonstra ter."

Isabela pegou a pasta, seus dedos roçando os dele em um breve contato que enviou uma corrente elétrica por ambos. Ela desviou o olhar, sentindo-se desconcertada. Havia algo em Rafael Vasconcelos que a intrigava e a repelia ao mesmo tempo. Uma dualidade que a deixava em alerta constante.

"Eu os analisarei", ela prometeu, a voz mais calma agora, mas com a mesma determinação. "E tomarei a decisão que for melhor para a Santa Clara. Com ou sem a sua aprovação."

Rafael deu um leve aceno de cabeça, seus olhos ainda fixos nos dela. "Eu espero que sim. Pois a alternativa, Dona Isabela, pode ser mais dolorosa do que a senhora imagina."

Ele se virou e saiu da biblioteca, deixando Isabela sozinha com a pasta e o peso de suas palavras. O silêncio que se seguiu era ainda mais pesado do que antes. Ela sabia que a batalha estava apenas começando. E Rafael Vasconcelos seria seu adversário mais formidable.

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