Entre o Amor e o Ódio

Capítulo 7 — A Herança Sussurrante, Um Legado de Traição

por Valentina Oliveira

Capítulo 7 — A Herança Sussurrante, Um Legado de Traição

O amanhecer pintava o céu com tons de cinza e violeta, um espetáculo pálido que mal conseguia disfarçar a desolação que se abatia sobre a Fazenda das Oliveiras. A sede, agora um esqueleto carbonizado, emitia um cheiro acre de destruição, um testemunho mudo da violência da noite. Helena, sentada em uma pedra a alguma distância, observava os restos fumegantes, o peso da culpa ainda mais pesado em seus ombros. O fogo havia sido controlado, mas as chamas que arderam em seu interior pareciam ter deixado marcas indeléveis.

Rafael, exausto, com o rosto ainda manchado pela fuligem e a roupa chamuscada, aproximou-se dela. O silêncio entre eles era um abismo. A descoberta da caixa com os pertences de Eliza Vasconcelos e a mentira de Helena haviam criado uma barreira invisível, mas intransponível.

“Você ainda está aqui”, ele disse, a voz desprovida de emoção. A decepção era palpável.

Helena levantou o olhar. “Eu… eu não tinha para onde ir. E eu queria ver se podia ajudar em alguma coisa.” A desculpa parecia fraca, até para seus próprios ouvidos.

Rafael soltou um suspiro cansado. “Ajudar? Helena, você se lembra do que me disse? Que estava aqui para buscar o que era seu. Para nos destruir. E agora… o fogo. E aqueles objetos. Tudo parece se encaixar em um plano. Um plano que você, com certeza, conhece todos os detalhes.”

As acusações o atingiram, mas ela não podia recuar. A verdade sobre o plano de sua avó, sobre a origem daquelas posses, era um fardo que ela carregava há anos. A intenção de sua avó era reaver o que fora roubado, reescrever a história de humilhação de Eliza Vasconcelos. E Helena, por mais que se sentisse dividida, era a principal peça nesse quebra-cabeça.

“Rafael, eu não… eu não fui eu que causei o incêndio”, ela tentou defender-se, a voz embargada. “E aqueles objetos… eu os encontrei, sim. Mas o que eles significam… eu não pensei que seria assim.”

Ele a encarou, os olhos cansados e desconfiados. “Não pensou? Ou não queria pensar? Porque, Helena, você sabe que esses objetos são a prova viva da antiga riqueza da minha família. A riqueza que sua avó sempre disse ter sido roubada. A Eliza Vasconcelos que sua avó idolatrava. A Eliza que, segundo sua versão, foi traída pelo meu avô.”

Ele se aproximou, o tom de voz baixando para um murmúrio carregado de mágoa. “E agora, com a sede em chamas, com esses objetos surgindo do nada… parece que o seu plano está se concretizando. A vingança que sua avó tanto almejava.”

Helena sentiu uma vertigem. As palavras dele eram um espelho das próprias dúvidas que a assombravam. Ela sentia uma repulsa imensa por tudo o que estava acontecendo, pela ideia de que o sofrimento de uma família se baseava na destruição de outra. Mas, ao mesmo tempo, a história de Eliza, a mulher forte e injustiçada, ecoava em sua alma, exigindo justiça.

“Eu entendo que você me veja assim, Rafael”, ela disse, respirando fundo. “Entendo sua dor. Mas eu não sou minha avó. Eu não quero destruir ninguém. Eu só quero que a verdade seja conhecida. Que as injustiças sejam reparadas. Mas não assim. Não com fogo. Não com ódio.”

Rafael riu, um som amargo e sem humor. “Justiça? Reparação? Helena, você fala de justiça enquanto seus olhos escondem o mesmo fogo que consumiu a minha casa? Você fala de reparação enquanto sua avó me privou do que eu tinha direito? O que você chama de ‘reparação’ é a minha ruína. E eu não vou permitir que você, ou quem quer que seja, me tire mais do que já me tiraram.”

Ele se virou, pronto para ir embora, mas Helena o segurou pelo braço. O contato físico foi como um choque. Ele parou, mas não a olhou.

“Rafael, por favor”, ela implorou, a voz quase um sussurro. “O que está em jogo não é apenas a sua família ou a minha. É a nossa história. É a verdade sobre o que aconteceu com Eliza. Eu sei que há mais. O diário dela… ele pode conter as respostas que precisamos. Respostas sobre o que realmente aconteceu. Sobre por que ela escondeu essas coisas. Talvez… talvez não tenha sido exatamente como minha avó contou.”

Ele hesitou, a mão dela em seu braço um elo tênue que o prendia à realidade. A ideia de que as respostas poderiam estar naquele diário chamuscado, um legado sussurrante de traição e dor, o intrigou. Por anos, a história oficial era a única que ele conhecia. A história de um avô justo e uma família que havia sido prejudicada por uma descendente desonrada. Mas as palavras de Helena, por mais que desconfiasse dela, plantaram uma semente de dúvida.

“Você quer ler o diário?”, ele perguntou, finalmente virando-se para ela, o olhar ainda carregado de desconfiança, mas com uma pitada de curiosidade.

“Sim”, Helena respondeu com firmeza. “Nós dois. Precisamos saber. Precisamos entender o que realmente aconteceu com Eliza. E por que isso está nos afetando tanto, tantos anos depois.”

Rafael olhou para os restos fumegantes da sede, para o medalhão com o brasão de sua família, para Helena, a mulher que ele começara a amar e que agora, talvez, fosse a personificação de sua ruína. A ideia de desvendar um segredo de família, um segredo que envolvia a figura controversa de Eliza Vasconcelos, era tentadora. Era a chance de, talvez, limpar o nome de seu avô. Ou, quem sabe, de descobrir uma verdade ainda mais sombria.

“Tudo bem”, ele disse, a voz grave. “Vamos ler o diário. Mas você vai me prometer uma coisa, Helena. Se descobrirmos que você está mentindo, que este é apenas mais um ardil de sua avó para nos prejudicar… não haverá perdão.”

Helena sentiu um arrepio na espinha. A ameaça era real, a tensão entre eles palpável. A promessa que ela fez em seu coração era sincera: ela queria a verdade. E se a verdade sobre sua avó fosse dolorosa, ela teria que enfrentá-la.

“Eu prometo”, ela respondeu, a voz firme. “Vamos descobrir a verdade. Juntos.”

Ele assentiu, ainda cético, mas com um vislumbre de esperança misturada à desconfiança. Eles caminharam juntos em direção ao que restava da sede. O diário, a única pista tangível do passado, estava em suas mãos. Era um legado sussurrante de traição, uma herança de segredos que prometia desvendar não apenas o destino de Eliza Vasconcelos, mas também o futuro de Helena e Rafael, um futuro que pairava incerto entre o amor e o ódio, entre a verdade e a mentira.

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