Segredos do Coração III
Capítulo 12 — A Aliança Sombria e o Jogo de Sombras
por Valentina Oliveira
Capítulo 12 — A Aliança Sombria e o Jogo de Sombras
A noite caiu sobre a cidade, densa e impenetrável, como a teia de segredos que Sofia se propunha a desvendar. Após a desastrosa conversa com Miguel e a confissão ainda mais dolorosa de Helena, Sofia sentiu uma urgência fria e calculista substituindo o desespero. A dor ainda latejava em seu peito, mas a raiva a impulsionava, transformando-a em uma máquina de justiça implacável. Ela sabia que não poderia enfrentar a família de Miguel e seus aliados sozinha. Precisava de alguém que conhecesse as entranhas desse mundo de poder e corrupção, alguém que não tivesse medo de se sujar. E, infelizmente, essa pessoa só podia ser uma: a própria personificação do mal que a assombrava.
O endereço que Helena lhe dera era de um bar discreto em uma rua pouco movimentada do centro. O lugar exalava uma aura de perigo e decadência, o tipo de lugar onde negócios obscuros eram fechados sob o véu da noite. Ao adentrar o estabelecimento, o cheiro forte de bebida e fumaça a atingiu, e os olhares curiosos dos poucos frequentadores se voltaram para ela. Sofia, porém, não vacilou. Com a postura ereta e um olhar decidido, ela varreu o ambiente até encontrar a figura que procurava.
Sentado em um canto isolado, em meio a sombras projetadas por uma luminária fraca, estava Armando. O homem que, em segredo, orquestrava grande parte dos golpes financeiros da cidade, o homem que Elias, o patriarca da família de Miguel, temia e respeitava em igual medida. Seu rosto, marcado por cicatrizes sutis e um sorriso permanente de escárnio, era a imagem perfeita de um predador.
Sofia caminhou em sua direção, o som de seus saltos ecoando no chão de madeira polida. Ao chegar à sua mesa, ela se sentou sem ser convidada, encarando-o com uma intensidade que o fez erguer uma sobrancelha.
“Veio me ver, Srta. Albuquerque? Que honra inesperada.” A voz de Armando era rouca, com um tom de sarcasmo que fez Sofia revirar os olhos internamente.
“Não tenho tempo para joguinhos, Armando. Eu sei quem você é e sei o que você faz.”
Armando soltou uma risada baixa e gutural. “E o que eu faço, Srta. Albuquerque? Sou apenas um empresário de sucesso, com ótimos contatos e uma mente afiada para os negócios.” Ele fez um gesto com a mão, como se oferecesse um copo inexistente. “Gostaria de um drinque?”
“Eu quero informações”, Sofia disse, ignorando a provocação. “Sobre o acidente dos meus pais. Sobre o envolvimento da família de Miguel. E sobre quem mais estava por trás disso.”
O sorriso de Armando se alargou, revelando dentes brancos e impecáveis. “Interessante. Você veio à pessoa errada. Eu não me envolvo em… acidentes. Sou um homem de finanças, não de fatalidades.”
“Você se envolve em tudo o que beneficia Elias e seus capangas”, Sofia retrucou, a paciência se esgotando. “Eles fizeram um acordo com você para silenciar meus pais, não foi? Para que eles não revelassem os esquemas de lavagem de dinheiro e fraudes que a família de Miguel estava cometendo.”
Armando inclinou a cabeça, avaliando-a. “Você está bem informada,Srta. Albuquerque. Mas suas informações são incompletas. Elias é um homem cauteloso. Ele não confiaria em um estranho para um trabalho tão… delicado.”
“Mas ele confiou em Miguel?”, Sofia perguntou, uma faísca de esperança se acendendo. “Ou em alguém mais próximo?”
“Elias é um manipulador. Ele tem muitas pontas soltas que ele prefere que não sejam amarradas. E quanto ao Miguel… o garoto sempre foi um peão nas mãos do pai. Um peão assustado e ambicioso, com um apetite que jamais seria saciado.” Armando serviu-se de um uísque, observando Sofia por cima do copo. “O acidente… digamos que foi um desdobramento infeliz de uma situação delicada. Uma situação que Elias precisava resolver rapidamente. E para isso, ele precisou de alguém com… discrição. Alguém que não fizesse perguntas.”
“Quem, Armando? Quem foi essa pessoa?” A voz de Sofia era um sussurro de desespero.
“Eu não posso te dar nomes, Srta. Albuquerque. Isso seria… ruim para os meus negócios. E para a sua segurança.” Armando deu um gole longo em seu uísque. “Mas posso te dar algo mais valioso. Eu posso te dar um caminho. Elias está cada vez mais desesperado. Seus esquemas estão sob escrutínio. Ele precisa de um trunfo. E você, Srta. Albuquerque, pode ser esse trunfo.”
Sofia o encarou, desconfiada. “Como assim?”
“Miguel é o herdeiro. Mas ele é fraco. Elias sabe disso. Ele precisa de alguém para consolidar o poder, para manter as aparências. E você… você tem o nome da família. Você tem a inteligência que Elias admira e teme. Se você se aliarse a mim, podemos derrubar Elias juntos. Eu me livrando do meu concorrente e você, obtendo a sua vingança.”
A proposta era tão perigosa quanto tentadora. Aliar-se a Armando era entrar no covil do lobo. Mas Sofia estava desesperada. A ideia de usar o próprio jogo de Elias contra ele era sedutora.
“E o que eu ganho com isso? Além de me sujar com o sangue de quem eu odeio?”
“Você terá a família Albuquerque de volta. Você terá o controle. E, quem sabe, talvez um pouco de paz”, Armando disse, um brilho malicioso em seus olhos. “Elias tem muitos inimigos, Srta. Albuquerque. E eu sou o maior deles. Mas ele é um adversário formidável. Precisamos de uma frente unida.”
Sofia refletiu por um longo momento. A imagem de seus pais, seus sorrisos, suas vozes, passou em sua mente. A traição de Miguel, a cumplicidade de Helena… tudo a empurrava para um caminho sem retorno.
“Eu preciso de provas, Armando. Provas irrefutáveis. Não apenas suas palavras. E preciso saber quem foi a pessoa que executou o serviço sujo.”
“Você terá suas provas. E quanto ao executor… ele ainda está em jogo. E ele pode ser a chave para tudo.” Armando sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. “Miguel está se tornando um problema. Ele está inquieto, atormentado pela culpa. Elias quer controlá-lo. E o executor… bem, ele pode ser a solução para ambos.”
Sofia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Miguel estava se tornando um peão em um jogo muito maior. E ela, por mais que o amasse, precisava se livrar dele para conseguir o que queria.
“Então, como faremos isso?”, ela perguntou, a voz firme, a decisão tomada.
“Você vai se aproximar de Miguel. Vai fingir que o perdoa, que quer reconstruir o relacionamento. Vai extrair dele as informações que você precisa sobre os negócios do pai. Enquanto isso, eu vou cuidar de… algumas pontas soltas. E quando chegar o momento certo, agiremos. Juntos.”
“E se eu falhar? Se Miguel desconfiar?”
“Então você terá que improvisar. E eu terei que improvisar também. Mas tenha certeza, Srta. Albuquerque, que Elias Albuquerque não sairá ileso desta vez. Ele vai pagar por tudo o que fez.” Armando levantou-se, estendendo a mão para Sofia. “É um acordo?”
Sofia olhou para a mão dele, hesitou por um instante, e então a apertou. A mão dele era fria e firme, a mão de um homem acostumado a fechar negócios com a morte. “É um acordo.”
Enquanto saía do bar, as luzes da cidade pareciam mais brilhantes, mas também mais ameaçadoras. Ela havia selado uma aliança sombria, um pacto com o diabo. Mas, para obter a justiça que tanto almejava, ela estava disposta a caminhar pelas sombras, mesmo que isso significasse se tornar uma delas. O jogo de sombras havia apenas começado, e Sofia estava determinada a ser a jogadora principal, movendo as peças com precisão letal até que a verdade fosse exposta e a justiça, finalmente, fosse feita.