Amores que Doem III
Capítulo 22 — O Jogo de Sombras de Victor
por Valentina Oliveira
Capítulo 22 — O Jogo de Sombras de Victor
Victor, ou melhor, Gabriel de Almeida Prado, observava a cidade de seu escritório no topo do arranha-céu. A chuva havia parado, deixando um rastro de brilho nas ruas molhadas. As luzes da metrópole se estendiam até onde a vista alcançava, um mar de estrelas artificiais que espelhavam a vastidão de seus planos e ambições. Mas, naquele momento, o brilho das luzes não conseguia penetrar a escuridão que pairava em sua alma.
Os últimos dias haviam sido intensos. A negociação com os investidores estrangeiros fora um sucesso, consolidando ainda mais seu império. O acordo com a concorrente era questão de tempo, e seu nome era sussurrado com reverência e temor nos corredores do poder financeiro. Ele havia manipulado o mercado, comprado informações, criado alianças estratégicas e, no final, estava no topo.
Mas a satisfação de mais uma vitória era ofuscada pela imagem de Sofia. A dor em seus olhos quando descobriu a verdade, a fragilidade em sua voz, o desmoronar de seu mundo… tudo isso o assombrava. Ele a havia amado, de uma forma distorcida e possessiva, talvez. Mas o amor não o impedira de seguir com seu plano. Ele era Victor, um predador no mundo dos negócios, e Sofia, em sua ingenuidade e paixão, havia sido a isca perfeita.
Seus dedos tamborilavam na mesa de mogno polido. A ironia da situação o atingia com força. Ele havia se apaixonado pela mulher que se tornara sua parceira no jogo de traição. Ele queria protegê-la, mas também a usara como um peão. A dualidade de sua natureza o consumia.
"Senhor Almeida Prado?", a voz de sua secretária, Clara, ecoou do intercomunicador.
"Sim, Clara."
"O senhor Montenegro ligou novamente. Ele insiste em falar com o senhor."
Victor sorriu, um sorriso gélido. Marcos Montenegro. O homem que ele estava prestes a arruinar. Montenegro era um dos seus rivais mais antigos, um homem arrogante e prepotente que sempre o subestimara. Agora, o jogo estava prestes a virar.
"Diga a ele que estou ocupado. E informe-me sobre os movimentos de sua empresa nas últimas 24 horas. Quero cada detalhe."
"Sim, senhor."
Victor desligou o intercomunicador e se levantou, caminhando até a janela panorâmica. A noite era um convite à reflexão, mas sua mente estava focada em estratégias, em como desmantelar Montenegro peça por peça. Ele sabia que Montenegro estava desesperado, buscando um empréstimo de última hora para cobrir suas dívidas. E Victor estaria lá para fechar o acordo, mas não para salvá-lo.
Ele pegou o celular e discou um número.
"Alô?"
"Sou eu", disse Victor, a voz controlada.
"Victor. Achei que nunca mais falaria comigo", respondeu a voz áspera do outro lado. Era Montenegro.
"Tenho assuntos mais importantes para tratar do que responder às suas ligações, Montenegro. Mas estou disposto a ouvi-lo. Diga-me, o que o aflige?"
"Você sabe muito bem o que me aflige. Preciso de um empréstimo. Urgente."
Victor riu, um som seco e sem humor. "Um empréstimo? Depois de tudo o que você fez para sabotar meus negócios? Você tem coragem, Montenegro."
"Eu… eu fui impulsivo. Agora, preciso de ajuda."
"E por que eu deveria ajudá-lo? Você não me deu escolha quando tentou me prejudicar."
"Eu lhe darei o que quiser. Qualquer coisa."
Victor fez uma pausa, saboreando a agonia do rival. "O que eu quiser, você diz?"
"Sim. Dinheiro, ações… o que for."
"Interessante. Tenho um acordo em mente, Montenegro. Um acordo que pode salvá-lo. Mas haverá um preço alto."
"Eu pago o preço que for."
"Ótimo. Precisamos nos encontrar amanhã. No meu escritório. Às dez da manhã. E traga todos os seus documentos. Eu quero ver a real situação financeira de sua empresa. E quero um contrato de cessão de controle de todas as suas ações. Sem exceções."
Montenegro hesitou por um momento. "Cessão de controle? Isso é… é tudo."
"É o preço, Montenegro. Ou você perde tudo, de qualquer forma. A escolha é sua."
Victor ouviu a respiração pesada de Montenegro do outro lado da linha. Ele sabia que o homem estava encurralado.
"Tudo bem", Montenegro finalmente cedeu, a voz carregada de derrota.
"Excelente. Tenho certeza de que será um excelente negócio para mim. Agora, se me der licença, tenho outros assuntos para tratar."
Victor desligou o telefone antes que Montenegro pudesse responder. Ele sabia que havia acabado com o rival. Era o fim de uma longa batalha, e ele, mais uma vez, saíra vitorioso.
Mas enquanto se voltava para sua mesa, o rosto de Sofia invadiu seus pensamentos. Ele havia a magoado profundamente. Ele a amava, mas não conseguia mudar quem era. A necessidade de controle, de poder, era mais forte.
Ele se sentou em sua cadeira e abriu um documento na tela do computador. Era um relatório sobre Sofia. Ela estava se afastando de Gabriel de Almeida Prado, o investidor. Ela estava se aproximando de Rafael. Aquela informação o incomodou de uma forma que ele não conseguia explicar. Rafael. O amigo de infância. Um homem bom, decente. Alguém que poderia oferecer a Sofia a paz que ele, Victor, jamais seria capaz de dar.
Uma pontada de ciúmes o atravessou. Não era ciúme possessivo, mas um ciúme de não ser o homem que poderia fazê-la feliz. Ele sabia que ela merecia mais do que ele poderia lhe oferecer. Ela merecia um amor puro, sem jogos, sem mentiras.
Ele fechou o relatório e olhou para as luzes da cidade. O jogo de sombras em que ele vivia parecia cada vez mais solitário. Ele era um rei em seu castelo de vidro, mas um rei sem rainha. E a imagem de Sofia, com seus olhos marejados, era um lembrete constante de tudo o que ele havia perdido, ou talvez, de tudo o que nunca seria capaz de ter.
Um pensamento o atingiu. Ele precisava vê-la. Não como Victor, o manipulador, mas como Gabriel, o homem que, em algum lugar profundo de sua alma, ainda a amava. Ele precisava tentar se redimir, ou pelo menos, entender o que estava acontecendo com ela.
Ele pegou o celular novamente e discou o número de Sofia. A chamada chamou, e chamou, e chamou. Finalmente, a voz dela atendeu, mas não era a voz dela. Era a voz de Rafael.
"Alô?"
Victor congelou. "Quem é?"
"Rafael. Quem fala?"
"Sou eu. Gabriel."
Houve um silêncio constrangedor do outro lado. "Gabriel? Por que está ligando para Sofia?"
"Eu… eu precisava falar com ela."
"Ela não está em condições de falar com você agora. Ela está se recuperando."
As palavras de Rafael atingiram Victor como um soco no estômago. "Recuperando-se de quê? De mim?"
"Sim, Gabriel. De você. Da sua traição. Ela está muito abalada."
"Eu sei. Eu… eu me arrependo."
"Você se arrepende? Ou apenas lamenta ter sido descoberto?" Rafael perguntou, a voz carregada de um misto de raiva e tristeza.
"Eu me arrependo de ter magoado Sofia. Mais do que você imagina."
"Então, dê a ela o espaço que ela precisa. Deixe-a curar suas feridas. Sem você por perto."
Victor cerrou os punhos. Ele queria gritar, dizer a Rafael que ele não entendia nada, que Sofia era dele. Mas sabia que Rafael estava certo. Ele havia machucado Sofia, e a única coisa que podia fazer era se afastar e dar-lhe a chance de se curar.
"Tudo bem", Victor disse, a voz quase inaudível. "Diga a ela… diga a ela que eu sinto muito."
"Eu direi", respondeu Rafael, a voz mais suave. "Adeus, Gabriel."
Victor desligou o telefone. A escuridão em seu escritório parecia mais densa agora. Ele havia vencido Montenegro, consolidado seu poder, mas a vitória parecia vazia. Ele era um homem solitário, preso em seu próprio jogo de sombras, assombrado pelo fantasma do amor que ele mesmo havia destruído. E agora, a única coisa que restava era esperar, e talvez, um dia, ela o perdoasse. Mas ele sabia que esse dia estava muito, muito distante.