Amor à Primeira Vista
Amor à Primeira Vista
por Valentina Oliveira
Amor à Primeira Vista
Por Valentina Oliveira
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Capítulo 11 — O Veleiro dos Sonhos e a Sombra do Passado
O sol beijava a pele de Mariana com a delicadeza de um amante, pintando o céu de tons alaranjados e dourados enquanto ela observava o horizonte da varanda da mansão. A brisa do mar trazia consigo o perfume salgado e a promessa de um novo dia. Aquele amanhecer era um reflexo da nova vida que ela e Rafael estavam construindo. A herança de D. Aurora, antes um fardo de segredos e desconfianças, agora se desdobrava em oportunidades, em um legado de amor e esperança.
Rafael aproximou-se por trás dela, envolvendo-a em um abraço que era ao mesmo tempo protetor e apaixonado. Ele depositou um beijo suave em seu pescoço, sentindo a pele arrepia-se sob seus lábios.
"Pensativa, meu amor?", ele sussurrou, a voz rouca de quem despertou há pouco.
Mariana virou-se nos braços dele, seus olhos verdes brilhando com uma mistura de carinho e uma ponta de preocupação. "Estava pensando em tudo, Rafa. Em como tudo mudou tão rápido. Parece que foi ontem que estávamos presos em teias de mentiras, e agora... agora temos tudo. Ou quase tudo."
Rafael a apertou mais forte. "Quase tudo? O que está faltando, meu bem? Você me tem. Temos a mansão, a empresa… Temos um futuro pela frente."
Ela sorriu, um sorriso genuíno que alcançava seus olhos. "Eu sei, meu amor. E sou imensamente grata por isso. Mas… e aquele sonho antigo de D. Aurora? O veleiro. Ela sempre falou com tanto carinho sobre ele, sobre o desejo de navegar sem rumo, de ver o mundo pelo mar. Sinto que ainda há um pedaço dela em aberto, um desejo que não se realizou."
Rafael a olhou com ternura. "O 'Atena'? Lembrava-me dela ter me mencionado. Era um projeto abandonado, não era? No antigo galpão de barcos da propriedade."
"Exato. Fui até lá ontem. Está em péssimo estado, Rafa. Mas… eu vi o potencial. Vi o sonho dela ali, em meio a teias de aranha e poeira. E pensei… e se nós terminássemos? E se pudéssemos navegar nele, como ela sempre quis? Seria uma homenagem linda."
Os olhos de Rafael se iluminaram. Ele adorava ver Mariana assim, com aquele brilho de paixão em seus projetos. "Mariana, você é incrível. Sempre pensando nos outros, sempre buscando realizar os sonhos. Claro que vamos terminar o veleiro. Vamos restaurá-lo para que pareça novo, para que D. Aurora, de onde quer que esteja, se sinta orgulhosa."
Ele a beijou, um beijo profundo que selou a promessa. A ideia do veleiro, o "Atena", despertou neles um novo fôlego. Não era apenas um barco, era um símbolo. Um símbolo de liberdade, de aventura, de um futuro que eles construiriam juntos, honrando o passado.
Nos dias seguintes, o antigo galpão de barcos ganhou vida nova. Marinheiros experientes foram contratados, e Mariana, com seu olhar atento aos detalhes, supervisionava cada etapa da restauração. Rafael, embora menos envolvido na parte técnica, fazia questão de estar presente, de trazer lanches, de ouvir suas ideias e de admirar o progresso. A cada peça que era reparada, a cada camada de tinta nova que era aplicada, sentiam o espírito de D. Aurora mais perto, guiando-os.
Enquanto o "Atena" tomava forma, uma sombra sutil começou a pairar sobre a mansão. Era a presença de Sérgio, o primo distante de Rafael, que havia reaparecido recentemente. Ele se apresentou com um ar de preocupação genuína, alegando que queria se reaproximar da família e oferecer seu apoio em tudo que precisassem. Rafael, sempre com seu coração generoso, o acolheu, mas Mariana sentia uma inquietação crescente. Havia algo em Sérgio que a incomodava. Um sorriso que não chegava aos olhos, um olhar calculista que parecia sondar mais do que ver.
Certo dia, enquanto Mariana escolhia os tecidos para as velas do veleiro, Sérgio a abordou no salão principal. Ele carregava uma taça de conhaque, um ar de falsa camaradagem.
"Impressionante o que vocês estão fazendo com o veleiro, Mariana", disse ele, o tom um pouco condescendente. "D. Aurora ficaria maravilhada. Embora eu ache que um projeto desses seja um tanto… dispendioso para os tempos atuais. A empresa de Rafael, apesar de tudo, ainda tem suas fragilidades."
Mariana sentiu um frio na espinha. "A empresa está se recuperando, Sérgio. E o veleiro é um investimento no legado de D. Aurora. Não é apenas um custo."
"Legado… sim. Um legado que, confesso, me causa certa curiosidade. D. Aurora era uma mulher de muitos segredos, não é mesmo? E essa herança… ela não veio sem um preço, sem que algumas verdades fossem deixadas de lado."
O tom de Sérgio mudou, tornando-se mais incisivo. Mariana o encarou, sua postura tensa. "Não sei a que verdades você se refere, Sérgio. D. Aurora nos deixou um presente. E estamos honrando sua memória."
"Ah, mas as memórias podem ser enganosas, Mariana. E os legados, às vezes, escondem mais do que revelam. Você tem certeza de que sabe tudo sobre essa herança? Sobre quem realmente se beneficiou dela, e quem foi deixado para trás?"
As palavras de Sérgio eram venenosas, plantando sementes de dúvida. Ele parecia saber mais do que dizia, e seu interesse na herança não parecia ser apenas o de um parente distante. Mariana sentiu o sangue gelar. A sombra do passado, que ela pensava ter deixado para trás, parecia estar se manifestando através de Sérgio.
Naquela noite, ela confidenciou suas apreensões a Rafael. "Rafa, o Sérgio… ele me disse coisas estranhas hoje. Sobre a herança, sobre segredos. Ele parecia… saber de algo. Algo que nos incomoda."
Rafael franziu a testa. "Sérgio? Ele sempre foi um pouco ambicioso, mas… o que ele disse exatamente?"
Mariana repetiu as palavras dele, a voz embargada. Rafael a ouviu atentamente, seus olhos escurecendo com preocupação. Ele confiava em Mariana, e sabia que ela não inventaria algo assim.
"Não se preocupe, meu amor", disse ele, beijando a testa dela. "Sérgio está tentando nos assustar. Ele pode ter suas próprias intenções, mas não vai conseguir nos separar. Nós vamos descobrir o que ele quer, e vamos lidar com isso. Juntos."
Mas enquanto ele falava, um pensamento inquietante pairava em sua mente. Sérgio não era apenas um primo distante. Ele também era um herdeiro de D. Aurora, embora com uma parcela menor. Teria ele tentado manipular a situação em seu benefício? Ou haveria algo mais profundo, algo que nem ele, nem Mariana, haviam descoberto ainda?
O veleiro "Atena", em seu processo de restauração, parecia agora carregar não apenas os sonhos de D. Aurora, mas também as incertezas e as sombras que voltavam a assombrá-los. A brisa do mar, antes um sopro de esperança, agora parecia sussurrar avisos. O caminho à frente não seria tão tranquilo quanto haviam imaginado.