O Amor que Perdi
Capítulo 17 — O Despertar da Verdade no Salão de Festas
por Valentina Oliveira
Capítulo 17 — O Despertar da Verdade no Salão de Festas
A festa de aniversário de Dona Helena era o evento social do ano em Paraty. O salão de festas, decorado com flores exóticas e luzes cintilantes, fervilhava de convidados. Música suave embalava as conversas animadas, e o aroma de canapés finos pairava no ar. Isabella, impecável em um vestido azul-marinho que realçava seus olhos, sentia-se um pouco fora de seu elemento. Ela aceitara o convite de sua mãe mais por obrigação do que por vontade, tentando manter uma fachada de normalidade após o turbilhão que fora seu noivado desfeito.
Daniel estava ali, a seu lado, o fotógrafo oficial do evento. Ele capturava sorrisos, gestos, a alegria efêmera da celebração. Seus olhares se cruzavam vez ou outra, e cada vez que isso acontecia, uma faísca sutil parecia incendiar o ar entre eles. O beijo daquela manhã na praia havia transformado a dinâmica entre eles. Havia uma cumplicidade nova, uma tensão gostosa que Isabella tentava racionalizar, mas que seu coração teimava em abraçar.
Gabriel também estava presente. Com sua esposa, a misteriosa e elegante Sofia, ele circulava pelo salão com uma desenvoltura que feriu o orgulho de Isabella. Vê-lo ali, tão perto, tão alheio à dor que ele lhe causara, era como reviver a ferida. Sofia, com seus olhos penetrantes e um sorriso que parecia esconder segredos, lançava olhares calculistas na direção de Isabella. Havia algo em sua postura, na forma como ela se agarrava ao braço de Gabriel, que gritava insegurança e possessividade.
Dona Helena, a anfitriã, uma mulher de muita classe e uma beleza que o tempo parecia ter ignorado, aproximou-se de Isabella, com um sorriso caloroso.
"Minha filha, que bom que veio! Você está linda, como sempre." Ela olhou para Daniel, que estava um pouco afastado, registrando a cena. "E o Daniel, tão dedicado. É um bom rapaz."
Isabella sentiu um rubor subir às bochechas. "Mãe, Daniel é apenas um amigo."
Dona Helena arqueou uma sobrancelha, um brilho de perspicácia nos olhos. "Amigos que se beijam ao nascer do sol, Isabella? Sua mãe conhece bem a linguagem dos olhares."
Antes que Isabella pudesse responder, Gabriel e Sofia se aproximaram. O clima mudou instantaneamente. Um silêncio tenso pairou sobre o pequeno grupo.
"Ora, ora, quem diria", Gabriel disse, com um sorriso forçado que não chegava aos olhos. "Isabella e Dona Helena. E… Daniel. Que coincidência nos encontrarmos aqui."
Sofia apertou a mão de Gabriel, um gesto possessivo. "Gabriel me falou muito de você, Isabella. Disse que vocês eram muito próximos. Pena que as coisas mudaram, não é mesmo?" O tom de Sofia era quase condescendente, e Isabella sentiu a raiva borbulhar dentro de si.
"As coisas mudam, Sofia", Isabella respondeu, com a voz firme, apesar do tremor em suas mãos. "E nem sempre para o pior."
Gabriel olhou de Isabella para Sofia, um desconforto evidente em seu rosto. Ele parecia dividido entre o dever para com a esposa e um resquício de algo que um dia sentiu por Isabella.
"É uma festa maravilhosa, Helena", Gabriel tentou mudar de assunto, dirigindo-se a Dona Helena. "Obrigado pelo convite."
"De nada, Gabriel. Sempre que precisar, as portas estão abertas", Dona Helena respondeu, com uma diplomacia que escondia um leve desdém.
Foi então que uma figura inesperada entrou no salão. Era Clara, a irmã mais nova de Gabriel, uma jovem vibrante e impulsiva que Isabella conhecera no passado. Clara, com seu jeito despojado, parecia deslocada no ambiente formal, mas seu sorriso era genuíno.
"Gabriel! Sofia! Que bom ver vocês", Clara disse, abraçando o irmão e cumprimentando Sofia com um aceno de cabeça. Ela então se voltou para Isabella, seus olhos brilhando com uma mistura de alegria e preocupação. "Isabella! Meu Deus, como você está linda! Eu… eu sinto tanto pelo que aconteceu."
A sinceridade de Clara foi um bálsamo para Isabella. Gabriel, por outro lado, pareceu visivelmente tenso com a presença da irmã.
"Clara, o que você está fazendo aqui?", Gabriel perguntou, com um tom de repreensão.
"Eu vim ver você, Gabriel. E… eu queria falar com a Isabella também. Sabe, sobre… sobre aquele dia." Clara olhou para Gabriel com um misto de acusação e tristeza.
Sofia, sentindo a tensão crescer, interveio com um sorriso afiado. "Aquele dia? Que dia, Clara? Você está sendo um pouco vaga."
Clara respirou fundo. Ela sabia que estava prestes a acender o pavio de uma bomba. Mas a injustiça a corroía.
"Aquele dia em que o Gabriel sumiu, Sofia", Clara disse, olhando diretamente para a esposa do irmão. "O dia em que ele deveria ter se casado com a Isabella. Eu vi algo naquele dia, algo que me fez entender por que ele fez o que fez."
Gabriel empalideceu. "Clara, cala a boca! Você não sabe o que está dizendo!"
"Eu sei sim, Gabriel! Eu vi você saindo daquele hotel, com ela!", Clara exclamou, apontando para Sofia, que agora encarava Clara com fúria contida. "Você estava com ela na noite anterior ao seu casamento! Você planejou tudo!"
O salão, que antes ecoava de conversas animadas, silenciou. Todos os olhares se voltaram para o grupo. Dona Helena observava tudo com uma expressão impassível, mas seus olhos brilhavam com a expectativa de uma verdade que ela talvez já suspeitasse.
Sofia riu, um riso seco e amargo. "Que mentira absurda! Clara, você sempre foi uma invejosa."
"Invejosa de quê, Sofia? De destruir a felicidade de alguém? De viver de mentiras?", Clara rebateu, com a voz embargada pelas lágrimas. "Eu estava lá, Gabriel. Eu vi você com ela. Você me pediu para não contar nada, disse que era um erro, que ia consertar tudo. Mas você nunca consertou nada! Você apenas deixou que ela te manipulasse!"
Gabriel olhou para Isabella, um pedido mudo de perdão em seus olhos. A dor e a traição estampadas no rosto dela eram mais do que ele podia suportar. Ele se virou para Sofia, a raiva finalmente transbordando.
"É verdade, Sofia?", ele perguntou, a voz rouca. "Você estava comigo naquela noite? Você me dopou? Você me forçou a…?"
Sofia hesitou por um instante. A verdade estava prestes a explodir, e ela sabia que não havia como detê-la. Ela olhou para Gabriel, para Isabella, para os rostos curiosos dos convidados. Um sorriso cruel surgiu em seus lábios.
"Sim, Gabriel", ela disse, com uma frieza arrepiante. "Eu estava com você. E você, meu querido, me amou naquela noite. E Isabella… bem, ela foi apenas um inconveniente no nosso caminho."
Um grito sufocado escapou dos lábios de Isabella. Ela não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Aquele beijo que compartilhou com Daniel, a esperança que começava a brotar, tudo parecia zombar dela. A verdade, nua e crua, a atingiu como um golpe. Gabriel não a traíra apenas com um encontro casual, mas com um plano arquitetado, com uma mulher que se mostrava tão cruel quanto calculista. A festa, que deveria ser um momento de celebração para Dona Helena, transformara-se em um palco de revelações devastadoras. Isabella sentiu o chão sumir sob seus pés. A dor da perda de Gabriel era imensa, mas a dor da humilhação e da mentira que a cercaram era ainda maior.