Cap. 3 / 21

O Amor que Perdi

Capítulo 3 — O Eco das Velhas Mágoas no Leme

por Valentina Oliveira

Capítulo 3 — O Eco das Velhas Mágoas no Leme

O vento forte e salgado do Leme chicoteava o rosto de Clara, trazendo consigo o cheiro inconfundível do mar revolto. As ondas espumavam contra as pedras, um espetáculo de força e fúria que parecia refletir o turbilhão que ela sentia em seu interior. Há semanas, o Rio de Janeiro se tornara o palco de um reencontro que ela não antecipara, um reencontro com Rafael, o homem que fora seu grande amor e a causadora de sua maior dor.

Desde aquele primeiro encontro na mureta de Copacabana, a vida de Clara havia se transformado em uma montanha-russa de emoções. Rafael ressurgira de seu passado como um fantasma a quem ela não conseguia mais ignorar. No Jardim Botânico, eles haviam trocado palavras que pareciam destrancar anos de ressentimento e saudade. Ele pedira uma chance, uma oportunidade de reconquistá-la, de provar que havia mudado. E ela, em um misto de desespero, curiosidade e uma fagulha de esperança, havia aceitado.

Hoje, eles haviam combinado de se encontrar no Leme, um lugar que, ironicamente, nunca fora de Clara e Rafael. Ela preferia a tranquilidade da Zona Sul, enquanto ele, um homem da Barra, sempre fora mais ligado àquela região mais distante da cidade. Mas a escolha do Leme fora dele, como se quisesse trazer algo novo para a dinâmica deles, algo que não estivesse impregnado das memórias do passado.

Clara o avistou sentado em um dos quiosques à beira-mar, a camisa de linho que ele usava na última vez agora substituída por uma camiseta escura que realçava seu porte físico. Seus cabelos, ainda com os fios prateados, estavam um pouco mais compridos, emoldurando um rosto que, apesar das rugas de expressão, mantinha a mesma beleza que a havia encantado anos atrás. Ele a viu e um sorriso se desenhou em seus lábios, um sorriso que ainda possuía aquela curva peculiar que a fazia suspirar.

"Clara! Que bom que você veio", disse ele, levantando-se para recebê-la.

Ela se aproximou, o coração batendo um pouco mais rápido. A cada encontro, a tensão entre eles parecia aumentar, um fio invisível que os ligava e os afastava ao mesmo tempo. "Eu disse que viria, não disse?", respondeu ela, tentando soar mais confiante do que se sentia.

Sentaram-se em uma mesa afastada, o som das ondas servindo como trilha sonora para a conversa que se anunciava. Rafael pediu um chopp e Clara, um suco de maracujá. O silêncio que se instalou entre eles não era mais o silêncio constrangedor do início, mas um silêncio carregado de expectativas.

"Então...", começou Rafael, a voz um pouco mais baixa. "Como você tem passado? Depois daquele dia no Jardim Botânico, eu tenho pensado muito em você."

Clara observou as ondas quebrando na areia. "Tenho passado. A vida segue, não é? E você? Como anda a sua vida?"

"A minha vida… tem sido uma constante tentativa de acertar. De fazer as coisas do jeito certo. Eu voltei para o Rio com a intenção de reconstruir, não só a minha carreira, mas a minha vida. E você, Clara, faz parte dela. De uma forma que eu jamais pensei que pudesse ser." Ele a olhou nos olhos. "Eu sinto muito pelo que aconteceu. Pelo meu egoísmo, pela minha falta de maturidade. Pelo jeito que eu te machuquei."

A sinceridade em sua voz era palpável, mas Clara não conseguia ignorar o peso das lembranças. "Rafael, eu já disse. As cicatrizes demoram a sarar. E as suas palavras… elas ainda ecoam em mim."

"Eu sei. E eu não espero que você me perdoe de imediato. Mas eu quero te mostrar que eu mudei. Que eu aprendi. Que o meu amor por você… ele não desapareceu, apenas se transformou. Amadureceu." Ele tomou um gole de seu chopp. "Eu fui um idiota, Clara. Um completo idiota. Fui tão focado em ascender, em provar para o meu pai que eu era capaz, que me esqueci do mais importante: o meu futuro com você. E eu perdi o meu futuro."

Clara sentiu um aperto no peito. A dor que ela sentiu ao ouvir aquelas palavras anos atrás, a solidão que a consumiu, tudo aquilo voltou com força. "Você não é o único que carrega mágoas, Rafael. Eu lutei muito para superar. Para não me deixar consumir pela raiva e pela tristeza."

"E eu admiro a sua força, Clara. Admiro a sua capacidade de seguir em frente. Eu, por outro lado, fiquei preso a um passado que eu construí de forma errada. E a sua ausência foi a prova mais gritante disso." Ele suspirou. "Eu vejo você agora, Clara, e vejo a mulher incrível que você se tornou. E me pergunto como eu pude ser tão cego para não ver isso antes."

"Talvez você só estivesse olhando para o lugar errado, Rafael. Focado em conquistar o mundo, esqueceu de cuidar do seu próprio universo."

"E o meu universo, Clara, sempre foi você. Mesmo quando eu me afastei, mesmo quando eu agi como um imbecil, você era a minha estrela guia. E eu a perdi no caminho." Ele pegou a mão dela sobre a mesa. "E agora que você voltou, eu quero tentar te guiar de volta para mim. Se você me der essa chance."

O toque dele era caloroso, familiar. Era como tocar em um sonho que ela pensava ter sido esquecido para sempre. Mas o medo ainda estava ali, a cautela a impedia de se entregar completamente. "Rafael, não é tão simples. Tanta coisa aconteceu. Tantas pessoas se machucaram."

"Eu sei. E a minha responsabilidade nisso é imensa. Mas eu estou aqui, Clara. Para assumir as minhas responsabilidades. Para te ouvir. Para te amar. Para tentar te mostrar que o nosso amor, o que a gente sentiu, ele não foi em vão. Ele só precisou de tempo para amadurecer, para ser redescoberto."

"Amadurecer? Ou morrer?", a pergunta escapou de seus lábios antes que ela pudesse contê-la. A dúvida era real, e ela precisava expressá-la.

Rafael apertou a mão dela. "Eu não acho que o nosso amor morreu, Clara. Ele apenas adormeceu. E agora ele está despertando. E eu não vou deixar que ele volte a dormir. Não vou deixar que você vá embora novamente." Havia uma determinação em seus olhos que a fez tremer.

"E como você pretende fazer isso, Rafael? Você acha que uma simples conversa, um pedido de desculpas, pode apagar anos de dor e de ausência?"

"Não apagar, Clara. Mas curar. Com tempo, com carinho, com honestidade. Com a prova de que eu sou um homem diferente. Um homem que te ama de verdade. Um homem que está disposto a construir um futuro ao seu lado." Ele se inclinou para mais perto. "Eu não quero mais ser o fantasma do seu passado, Clara. Eu quero ser o homem do seu presente e do seu futuro."

Clara olhou para ele, para a sinceridade em seu olhar, para o arrependimento que ele demonstrava. Ela sentiu uma batalha interna se intensificar. O medo a puxava para trás, para a segurança da solidão. Mas uma pequena chama de esperança a empurrava para frente, em direção ao desconhecido, em direção à possibilidade de um amor redescoberto.

"Eu ainda tenho medo, Rafael. Medo de me entregar e ser machucada novamente. Medo de que você volte a ser o homem que eu conheci."

"Eu entendo o seu medo. E não vou te pressionar. Apenas te peço que me dê uma chance de provar que eu mudei. Uma chance de te reconquistar. Dia após dia. Com atitudes, não apenas com palavras." Ele soltou a mão dela, mas manteve o olhar fixo em seus olhos. "Eu quero te levar para jantar. Quero te ouvir. Quero conhecer a Clara de hoje. E quero te mostrar o Rafael que a vida me ensinou a ser."

A proposta era tentadora. A ideia de reviver momentos, de criar novas memórias, de se permitir sentir novamente… era algo que ela ansiava em segredo. Mas o peso das mágoas era grande.

"Não sei se estou pronta para isso, Rafael."

"E eu estarei aqui, quando você estiver. Não vou sumir de novo, Clara. Prometo. Dessa vez, estarei aqui. E vou esperar o tempo que for preciso. Porque eu acredito em você. Acredito em nós. E acredito que o amor que a gente perdeu, pode ser reencontrado."

Ele sorriu, um sorriso que não era mais o do jovem arrogante, mas o de um homem que conheceu a dor e o arrependimento. Clara sentiu um misto de alívio e apreensão. Ela sabia que aquele reencontro estava longe de ter um fim. E que as velhas mágoas, como o eco do mar revolto do Leme, continuariam a ressoar, desafiando-os a encontrar um novo caminho. A decisão estava em suas mãos, e o futuro, incerto, pairava no ar como a maresia salgada.

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