Cativada pelos seus Olhos II
Cativada pelos seus Olhos II
por Isabela Santos
Cativada pelos seus Olhos II
Por Isabela Santos
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Capítulo 16 — A Tempestade na Alma e o Refúgio Inesperado
O peso da confissão de Miguel pairava no ar, denso como a umidade antes de uma tempestade. Helena, com os olhos ainda fixos nos dele, sentia as palavras ecoando em sua mente, cada sílaba um soco no estômago. Não era a surpresa que a abalava, mas sim a forma como as peças do quebra-cabeça de sua vida, antes desconexas, começavam a se encaixar de maneira cruel. Aquele homem, tão presente em seus pensamentos ultimamente, tão capaz de fazê-la sentir coisas que há muito julgava adormecidas, era, em parte, o responsável pela dor que ela carregava.
"Você... você sabia o tempo todo?", a voz de Helena soou embargada, um fio tênue de mágoa escapando por entre os lábios. Ela afastou-se um passo, o corpo tremendo de uma revolta silenciosa. A imagem do Miguel que ela vira naquele baile beneficente, o homem que a olhava com uma intensidade que a desarmava, agora se misturava à sombra do Miguel que, por anos, a mantivera alheia a uma verdade fundamental.
Miguel deu um passo à frente, a dor estampada em seu rosto. Seus olhos, que tanto a haviam cativado, agora eram um espelho de seu próprio sofrimento. "Helena, por favor, me deixe explicar. Não foi uma escolha fácil. Foi uma decisão tomada em um momento de desespero, para proteger a todos."
"Proteger?", a incredulidade tingia a voz dela. "Você chama isso de proteção? Me manter na ignorância, permitindo que eu sofresse sem saber a verdadeira causa? Você sabia o que minha mãe passou, Miguel. Sabia o quanto eu a amava e o quanto sua ausência me dilacerava. E você... você fez parte disso." As lágrimas, antes contidas, agora rolavam livremente por seu rosto, misturando-se às gotas de chuva que começavam a cair, como se o céu chorasse com ela.
A chuva aumentava, chicoteando as janelas do escritório, cada pingo um som de acusação. Helena sentia-se presa em um pesadelo, a realidade teimando em ser mais cruel do que qualquer ficção. Ela sempre acreditara em justiça, em verdades reveladas. Mas agora, a verdade que se desdobrava era um labirinto de mentiras e omissões, onde o homem que a atraía era também um dos seus algozes.
"Eu não tive escolha, Helena", Miguel insistiu, a voz rouca de emoção. "Se a verdade viesse à tona naquela época, a ruína seria completa. Não apenas para mim, mas para a família dela, para você. Era uma armadilha sem saída."
"Armadilha?", Helena riu sem humor, uma risada quebradiça que se perdeu no barulho da tempestade. "E o que é essa situação agora, Miguel? Um jogo cruel onde você decide quem deve sofrer e quem deve ser poupado?" Ela se virou, buscando ar, o peito apertado, a sensação de sufocamento piorando a cada segundo. A sala parecia pequena demais, as paredes se fechando sobre ela.
Ela caminhou em direção à porta, as mãos tremendo ao segurar a maçaneta. "Eu preciso sair daqui. Preciso pensar."
"Helena, espere!", Miguel a chamou, mas ela não parou. A chuva já caía com força total quando ela abriu a porta e saiu para a noite chuvosa. O vento gelado e as gotas impiedosas eram um alívio, um espelho físico da tempestade que a consumia por dentro. Ela correu, sem rumo, as lágrimas misturando-se à chuva, o coração em frangalhos.
Enquanto isso, em seu apartamento, Clara observava a tempestade que se formava no céu com uma apreensão crescente. A conversa com o Dr. Almeida a deixara inquieta. Ele falara com uma seriedade que a assustara, mencionando riscos, a necessidade de cuidados redobrados. E a imagem do rosto de Helena, tão frágil ultimamente, não saía de sua cabeça.
Os trovões ecoavam, e Clara, com um sobressalto, lembrou-se de algo que o médico havia dito sobre o estresse poder ser prejudicial. Ela pegou o telefone, discando o número de Helena, mas a ligação chamou e chamou, sem resposta. Um frio na espinha percorreu seu corpo. Algo estava errado.
Miguel, após a saída abrupta de Helena, ficou paralisado na sala. A tempestade lá fora parecia um reflexo fiel do caos que se instalara em sua alma. Ele havia tentado ser honesto, mas a verdade, por mais bem intencionada que fosse, havia ferido Helena profundamente. Ele se aproximou da janela, observando a chuva torrencial. O medo de perdê-la, de vê-la se afastar para sempre, era um fardo insuportável.
De repente, o telefone tocou. Era Clara. "Miguel? Você viu a Helena? Ela saiu correndo daqui, encharcada, e não consigo falar com ela. Estou preocupada."
O sangue de Miguel gelou. "Não, Clara. Ela saiu daqui há pouco. Eu... eu disse a ela algumas coisas." A voz dele estava tensa, a preocupação em sua voz se misturando à culpa.
"Que coisas, Miguel? Ela parecia arrasada quando me ligou antes. E agora ela sumiu na chuva..." A voz de Clara embargou.
Miguel correu para o seu carro. A cidade parecia um borrão sob a chuva intensa. Ele dirigia com pressa, os olhos vasculhando cada rua, cada esquina. Onde Helena poderia ter ido?
Enquanto isso, Helena, exausta e desorientada, cambaleava pelas ruas desertas. O frio começava a penetrar em seus ossos, mas o ardor em seu peito a impedia de sentir o desconforto físico. Ela parou em frente a um prédio antigo, com uma fachada imponente, que sempre a intrigara. Era um antigo casarão, agora transformado em um centro cultural, com exposições de arte e um pequeno café aconchegante. Sem pensar muito, ela entrou, buscando refúgio da tempestade.
O calor suave do café, o cheiro de livros antigos e o burburinho abafado de conversas a envolveram. Ela se sentou em um canto isolado, o corpo ainda tremendo, mas a tempestade exterior parecia, por um momento, se acalmar. Ela observava os quadros expostos, as cores vibrantes e as formas abstratas, mas sua mente estava em outro lugar, revivendo as palavras de Miguel, a dor em seus olhos, a crueldade da situação.
Minutos depois, Miguel estacionou o carro em frente ao casarão. Ele a vira entrar, um lampejo de alívio misturado à apreensão. Ele respirou fundo e entrou no centro cultural. Seus olhos varreram o local até encontrá-la, encolhida em um canto, o rosto pálido e marcado pela chuva e pelas lágrimas.
Ele se aproximou lentamente, o coração batendo descompassado. Helena levantou os olhos ao sentir sua presença. A mágoa ainda estava lá, mas agora, misturada a uma exaustão profunda.
"Helena", ele sussurrou, sentando-se à mesa dela, sem a invadir. "Eu sinto muito."
Ela apenas o encarou, sem palavras, a chuva que caía lá fora parecendo ecoar a tempestade interna que ela ainda não sabia como domar. Ele esperou, paciente, a dor em seus olhos refletida nos dela. O refúgio inesperado, a quietude do lugar, contrastavam violentamente com a turbulência que os separava. E naquele silêncio carregado, ambos sabiam que a tempestade, longe de ter acabado, estava apenas começando.