Cativada pelos seus Olhos II
Capítulo 5 — A Tempestade em Família e a Semente da Dúvida
por Isabela Santos
Capítulo 5 — A Tempestade em Família e a Semente da Dúvida
A manhã seguinte amanheceu com um céu nublado, pressagiando a tempestade que Helena sentia se formar em seu âmago. Ela decidiu aceitar o convite de Laura, não por desejo, mas por uma necessidade de confrontar o fantasma que a assombrava. A ideia de ir ao apartamento de Laura, o mesmo lugar onde ela e Daniel haviam planejado um futuro que nunca se concretizou, trazia um aperto no peito. No entanto, a conversa com Ricardo na noite anterior havia plantado uma semente de esperança, e ela precisava ver se essa semente seria pisoteada pelas intrigas de sua irmã, ou se teria a chance de germinar.
Ao chegar ao luxuoso apartamento de Laura, na Lagoa, Helena foi recebida com um sorriso forçado e um abraço gélido. A decoração era impecável, um reflexo do gosto requintado de Laura, mas Helena sentia a atmosfera tensa, carregada de significados não ditos.
"Sente-se, Helena. Quer um café? Um chá?", ofereceu Laura, com uma falsa gentileza que a irritava.
"Um copo d'água, por favor", respondeu Helena, sentando-se em um sofá de couro branco.
Laura serviu a água e sentou-se em uma poltrona oposta, o olhar fixo em Helena. "Eu queria conversar sobre ontem à noite. Sobre você e aquele homem."
"Ricardo Montenegro", corrigiu Helena, sua voz calma, mas firme. "E não há nada para conversar, Laura. Eu estava tendo uma conversa. E você interrompeu."
Laura riu, um som agudo e sem humor. "Uma conversa? Dando as mãos? Helena, você não é mais inocente. E eu sei que você não é boba. Você sabe que Daniel não vai aceitar isso."
"Daniel não tem nada a ver com a minha vida, Laura. E você também não", disse Helena, sentindo a raiva subir. "Eu vim para o Rio para recomeçar. Para ser livre. E eu não vou permitir que você ou Daniel ditem minhas escolhas."
"Livre? Você acha que pode simplesmente fugir do passado? Daniel te ama, Helena. E ele está furioso. Ele me ligou ontem à noite, preocupado com você." Laura falou com uma falsidade que chegava a doer.
"Preocupado? Ou com ciúmes?", Helena retrucou, o sarcasmo evidente em sua voz. "Você e Daniel são a prova de que nem todo amor é leal, Laura. E eu não quero mais nada com isso."
Laura levantou-se, andando pela sala com passos nervosos. "Você está se enganando, Helena. Você sempre foi frágil. Daniel te conheceu, te amou, te quebrou. E agora você acha que um estranho vai te salvar? Ele está te usando, Helena. Como todos os homens. Eles te querem pela sua fortuna, pela sua beleza. E quando se cansarem, vão te descartar."
As palavras de Laura atingiram Helena como um golpe. Era exatamente o que ela temia. A dúvida, a insegurança. Mas, ao mesmo tempo, a imagem de Ricardo, seus olhos sinceros, sua voz gentil, surgiu em sua mente. Ele não parecia um homem que se importava com sua fortuna. Ele parecia se importar com ela.
"Você não me conhece, Laura. E não conhece Ricardo", disse Helena, sua voz surpreendentemente firme. "Ele me mostrou uma perspectiva diferente. Ele acredita em mim. E eu não vou permitir que você me jogue de volta no abismo onde você vive."
Laura parou de andar e encarou Helena, seus olhos faiscando de raiva. "Você vai se arrepender disso, Helena. Você sempre volta para ele. E você vai voltar para Daniel. Ele é o seu destino."
"Não, Laura. Meu destino sou eu quem escrevo. E ele não inclui você nem Daniel." Helena levantou-se também, sentindo uma força que não sabia que possuía. "Eu não vim aqui para brigar. Vim para te dizer que eu não vou mais me curvar às suas manipulações. Eu sou livre. E não preciso da sua aprovação."
Ela caminhou em direção à porta, sem olhar para trás. Ao abrir a porta, sentiu a mão de Laura segurar seu braço.
"Espere, Helena. Pelo menos me diga... você ainda ama Daniel?"
Helena parou, o coração apertado. A pergunta era um nó em sua garganta. Ela amava o homem que conheceu, o homem que ela imaginou que ele fosse. Mas o homem que a traiu? Não. Aquele amor havia morrido.
"Eu amei o homem que eu achava que ele era, Laura. Mas esse homem não existe mais. Assim como o amor que eu sentia por ele." Ela puxou o braço gentilmente, mas com firmeza. "Adeus, Laura."
Ao sair do apartamento, Helena sentiu um misto de alívio e exaustão. A tempestade em sua família havia sido inevitável, mas ela havia sobrevivido. Ela não havia se deixado abater. A semente da dúvida que Laura havia tentado plantar em sua mente estava sendo regada pela confiança que ela estava começando a depositar em si mesma e na possibilidade de um novo começo.
No final da tarde, enquanto o sol lutava para romper as nuvens, o celular de Helena tocou novamente. Era Ricardo.
"Helena? Como você está?"
"Estou bem, Ricardo. A tempestade passou."
"Fico feliz em ouvir isso. Eu estava pensando... se você se sentir pronta, talvez pudéssemos ir àquele jantar hoje à noite? Em um lugar novo, um restaurante mais reservado que descobri. O que você me diz?"
Helena sorriu. A dúvida de Laura parecia distante agora. A verdade que ecoava em sua alma era mais forte. A possibilidade de um novo amor, um amor que a visse por inteiro, era mais tentadora.
"Eu adoraria, Ricardo", disse Helena, sua voz tingida de esperança. "Hoje à noite. Eu estou pronta."
Naquele momento, enquanto o céu começava a clarear, Helena Albuquerque sentiu que estava, finalmente, dando um passo decisivo para fora das sombras. A semente da dúvida plantada por Laura havia sido substituída por uma flor de esperança, cultivada pelo brilho inesperado dos olhos de Ricardo Montenegro. O caminho ainda seria longo, mas pela primeira vez em muito tempo, ela sentia que não estaria trilhando-o sozinha. O eco da verdade, em sua forma mais pura, havia encontrado um lar em seu coração.
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