Cativada pelos seus Olhos II

Cativada pelos seus Olhos II

por Isabela Santos

Cativada pelos seus Olhos II

Romance Romântico

Autor: Isabela Santos

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Capítulo 6 — As Cicatrizes da Mentira e o Perfume da Verdade

O sol da manhã, implacável e dourado, banhava as praias de Copacabana, transformando a areia em um tapete de diamantes e o mar em um espelho cintilante. Mas para Clara, a beleza estonteante do Rio de Janeiro parecia ter perdido o encanto. O peso das revelações da noite anterior a esmagava, sufocando-a em uma névoa de desilusão e mágoa. Sentada em um quiosque à beira-mar, com um café frio esquecido em suas mãos, ela observava as ondas quebrarem suavemente na orla, cada uma delas um eco cruel da turbulência que assolava sua alma.

Lara, sua irmã mais velha, com seus cabelos negros revoltos pelo vento e o semblante preocupado, sentou-se ao seu lado, um gesto de solidariedade silencioso. O silêncio entre elas era denso, preenchido apenas pelo murmúrio das conversas alheias e pelo grito distante de uma gaivota. Lara sabia que precisava falar, que a verdade, por mais dolorosa que fosse, era a única cura possível para as feridas abertas.

“Clara…”, começou Lara, a voz embargada pela emoção. “Eu sei que… que tudo o que aconteceu ontem… parece um pesadelo. Mas eu precisava te contar. Precisava que você soubesse o que realmente aconteceu com a nossa mãe.”

Clara desviou o olhar do mar e fixou-o em Lara, um brilho de dor e incredulidade em seus olhos azuis, que antes transbordavam de alegria e inocência. Agora, eles pareciam empoeirados, opacos, refletindo a devastação que a consumia.

“Você me contou uma mentira por anos, Lara. Uma mentira tão bem construída que eu acreditei em cada palavra. A mãe que você descreveu… a mãe que me abandonou… nunca existiu, não é?” A voz de Clara era um sussurro rouco, quase inaudível, mas carregado de uma força que fez Lara estremecer.

Lara sentiu um aperto no peito. Cada palavra de Clara era uma facada em seu próprio coração. Ela se odiava por ter mantido a farsa por tanto tempo, mas o medo, o medo de perder Clara, de vê-la sofrer ainda mais, a havia paralisado.

“Não, Clara. A mãe que você conheceu, a mãe que te amou com toda a força do seu ser, essa mãe não te abandonou. Essa mãe… essa mãe se foi cedo demais. E eu… eu cometi o erro de te proteger demais. De acreditar que te poupar da verdade seria o melhor para você.”

Lara respirou fundo, reunindo a coragem necessária para desdobrar o novelo de mentiras que a envolvia. “Nossa mãe não era infeliz. Ela era vibrante, era apaixonada, era a pessoa mais cheia de vida que eu já conheci. E ela te amava mais do que tudo. O pai… o pai sempre foi um homem difícil, Clara. Ciumento, possessivo. Ele não suportava a ideia de você se parecer tanto com ela, de ter o mesmo espírito livre. Ele sempre teve medo de te perder, assim como a perdeu.”

As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Clara, silenciosas, mas implacáveis. Ela apertou os punhos, a pele ficando branca nos nós dos dedos. A imagem que ela construíra de sua mãe, uma figura distante e fria, desmoronava a cada palavra de Lara.

“O que aconteceu com ela, Lara? Por que você disse que ela nos deixou?”

“Ela… ela adoeceu, Clara. Uma doença… súbita, cruel. Ela lutou bravamente, mas não resistiu. O pai… ele não soube lidar com a dor. Ele se fechou em si mesmo, e quando você começou a perguntar sobre ela, ele… ele me obrigou a mentir. Ele disse que era para o seu bem, para que você não sofresse com a perda tão cedo. Eu era nova, assustada… e eu cedi.” A voz de Lara falhou, e ela abraçou Clara com força, sentindo os ombros da irmã tremerem.

Clara se deixou envolver pelo abraço, encontrando um pequeno consolo na presença de Lara. Mas a dor da verdade era pungente, uma ferida que latejava. “Então… o pai… ele me manteve longe da verdade? Por quê? Por que ele faria isso?”

“O medo, Clara. O medo da perda. E o orgulho, talvez. Ele nunca foi bom em lidar com as emoções. Ele achava que te afastando das memórias dela, te pouparia da dor. Mas ele só criou um abismo. E eu… eu fui cúmplice desse abismo por anos.”

O sol agora estava alto no céu, banhando tudo em uma luz ofuscante. Clara sentiu como se estivesse sendo exposta, suas mais profundas dores reveladas sob a luz implacável da verdade. A figura de seu pai, sempre tão austera e controladora, agora adquiria contornos sombrios, manipuladores. E a imagem de sua mãe, antes nebulosa, agora se tornava clara e vibrante em sua mente, uma mulher que ela nunca conheceu de verdade.

“E o senhor Almeida?”, perguntou Clara, a voz embargada pela emoção. “Por que ele me disse aquilo? Ele sabia de tudo?”

Lara hesitou por um momento, o olhar desviado. “O senhor Almeida… ele é um homem bom, Clara. Ele amava nossa mãe. E ele sempre soube que o pai não estava sendo honesto com você. Ele tentou intervir, várias vezes. Mas o pai… ele nunca ouviu.”

“Então ele viu a minha dor. Ele me viu acreditando em uma mentira o tempo todo.” A indignação começava a misturar-se à tristeza. A gentileza do senhor Almeida, antes vista como um simples gesto de bondade, agora se revelava como uma compaixão profunda, uma tentativa de consolar uma alma ferida pela verdade que ele não podia revelar.

“Ele te amava, Clara. Ele sempre te amou. E ele te protegeu à sua maneira. Assim como eu tentei te proteger, mas falhei miseravelmente.” As lágrimas de Lara também começaram a cair. “Eu sinto muito, Clara. Sinto muito por ter te feito sofrer. Por ter te tirado a chance de conhecer a verdade sobre a nossa mãe.”

Clara olhou para Lara, a irmã que dividiu com ela o silêncio do luto, a irmã que agora dividia com ela o peso da verdade. Havia raiva, sim, mas também havia um fio tênue de compreensão. Lara também havia sido uma vítima, presa em uma teia de mentiras tecida pelo próprio pai.

“O que vamos fazer agora, Lara?”, perguntou Clara, a voz mais firme, um resquício de sua força interior ressurgindo.

“Nós vamos viver, Clara. Nós vamos honrar a memória da nossa mãe vivendo. E nós vamos encontrar a felicidade. Juntas.” Lara apertou a mão de Clara. “E quanto ao pai… ele terá que enfrentar as consequências de suas ações. E nós também.”

O sol continuava a brilhar, mas agora, para Clara, ele parecia um pouco menos ofuscante. As cicatrizes da mentira ainda estavam ali, frescas e doloridas, mas o perfume da verdade, por mais amargo que fosse, começava a preencher o vazio, oferecendo a promessa de cura e de um novo começo. O caminho seria longo e difícil, mas pela primeira vez em muito tempo, Clara sentiu que não estava mais sozinha em sua jornada. E isso, por si só, era um raio de esperança em meio à escuridão.

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