Destinos Entrelaçados II
Capítulo 3 — O Batismo de Sofia e a Sombra do Passado
por Valentina Oliveira
Capítulo 3 — O Batismo de Sofia e a Sombra do Passado
O dia do batismo de Sofia amanheceu radiante, um convite do céu para celebrar a nova vida que chegava ao mundo. Helena, ao acordar, sentiu um misto de alívio e apreensão. O reencontro na galeria na noite anterior havia sido intenso, um turbilhão de emoções que a deixara exausta e inquieta. Rafael estava ali, vivo, real, e a faísca que um dia os uniu ainda parecia crepitar.
A cerimônia seria na Igreja da Nossa Senhora da Candelária, um templo de arquitetura imponente que guardava a história da cidade. Helena se arrumou com cuidado, escolhendo um vestido azul-claro, elegante e discreto, que contrastava com a intensidade da noite anterior. Ao se olhar no espelho, notou a sombra de cansaço sob seus olhos, mas também um brilho diferente, um vislumbre de algo que ela não via há muito tempo: a possibilidade.
Ao chegar à igreja, o burburinho de familiares e amigos a acolheu. Clara, radiante em seu vestido branco, abraçou-a com força. "Você veio! Que bom! A Sofia vai adorar ter a madrinha aqui."
Helena sorriu, sentindo o calor do abraço da irmã. "Como eu poderia perder o batismo da minha afilhada?"
A cerimônia foi emocionante. O padre conduziu o ritual com solenidade, e Sofia, dormindo tranquilamente nos braços de Clara, parecia abençoada desde o primeiro momento. Helena sentiu uma pontada de desejo por aquela paz, por aquela simplicidade que a vida de casada e mãe trazia. Mas ela logo afastou esses pensamentos. Sua vida era outra, construída em pilares de independência e sucesso profissional.
Foi durante a comunhão que ela o viu. Rafael, sentado em um dos bancos do fundo, com o olhar fixo em Sofia. Ele estava acompanhado por um homem mais velho, de feições gentis, que Helena supôs ser seu pai. Quando ele ergueu os olhos e a encontrou, um leve sorriso curvou seus lábios. Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquele homem ainda tinha o poder de desestabilizá-la.
Após a missa, a recepção aconteceu em um salão charmoso próximo à praia de Copacabana, com vista para o mar. A música suave, o aroma de comida brasileira e as conversas animadas criavam uma atmosfera festiva. Helena se manteve perto de Clara e Ricardo, tentando evitar encontros casuais. Mas o destino, mais uma vez, tinha outros planos.
"Helena! Que surpresa maravilhosa te ver aqui", a voz de Rafael soou perto de seu ouvido.
Ela se virou, encontrando os olhos dele. A intensidade de seu olhar a fez vacilar. Ele estava mais relaxado agora, um sorriso aberto no rosto.
"Rafael. Você veio."
"Claro que vim. Não perderia o batismo da minha afilhada por nada neste mundo." Ele fez uma pausa, seus olhos percorrendo o rosto dela. "E você, como tem estado? Sua irmã me disse que você está em São Paulo, arrasando no mundo da arte."
"Tenho trabalhado bastante", Helena respondeu, tentando manter a compostura. "E você? Ouvi falar da sua exposição. Parabéns. As obras são..."
"São um pedaço de mim", ele completou, com um tom que revelava mais do que as palavras. "Um pedaço que eu guardei por muito tempo."
A conversa fluiu com uma estranha naturalidade, como se os dez anos de separação tivessem sido apenas um piscar de olhos. Eles falaram sobre arte, sobre suas vidas, sobre o Rio. Mas por trás das palavras superficiais, havia uma corrente subterrânea de sentimentos não ditos, de perguntas não feitas.
"Eu me lembro de quando você pintava nas ruas de Santa Teresa", Helena disse, um sorriso nostálgico brincando em seus lábios. "Você era tão livre, tão apaixonado pelo que fazia."
Rafael riu. "E você, sempre com aquela sua lógica impecável, tentando me colocar nos eixos. Lembra quando você tentou organizar meu ateliê?"
"E você jogou tudo fora porque disse que a desordem era a minha musa!", Helena retrucou, rindo.
A risada deles se misturou à música, um som familiar e reconfortante. Por um momento, eles esqueceram o tempo, a distância, as mágoas. Eram apenas Helena e Rafael, dois jovens apaixonados em uma tarde ensolarada no Rio de Janeiro.
Mas a realidade, como sempre, cobrou seu preço. Ricardo se aproximou, com um sorriso amigável. "Helena, querida, queria te apresentar o Sr. Albuquerque. Um artista renomado."
Rafael estendeu a mão para Ricardo. "Prazer em conhecê-lo. Sou Rafael de Albuquerque. Afilhado da pequena Sofia."
Ricardo apertou sua mão. "Ricardo Vasconcelos, pai da Sofia. É um prazer. Sua arte é incrível."
Enquanto os homens conversavam, Helena observava a interação. A vida de Rafael parecia ter seguido em frente, assim como a dela. Mas havia algo nos olhos dele, uma melancolia sutil que a incomodava.
Mais tarde, enquanto Helena se afastava para pegar uma bebida, Rafael a seguiu. "Helena, eu queria falar com você. A sós."
Ela hesitou. A ideia de ficar sozinha com ele era ao mesmo tempo tentadora e aterrorizante. "O que você quer falar, Rafael?"
"Sobre nós. Sobre tudo o que aconteceu." Ele olhou para o mar, seus olhos refletindo o azul profundo do oceano. "Eu nunca te esqueci, Helena. Nem por um dia."
As palavras dele a atingiram como um soco. Ela sentiu o coração acelerar, o calor subir ao rosto. "Rafael, isso foi há dez anos. Nós seguimos em frente."
"Você seguiu em frente, Helena. Eu, nem tanto. Fiquei preso a você, às lembranças. E à dor." Ele se virou para ela, seu olhar intenso e sincero. "Eu sei que te magoei. Que te abandonei de uma forma cruel. Mas na época, eu estava perdido. Assustado com a intensidade do que eu sentia por você."
Helena desviou o olhar, incapaz de sustentar a sinceridade em seus olhos. A dor de sua partida repentina, sem explicação, ainda estava lá, latente. "Você desapareceu, Rafael. Sem uma palavra. Sem um adeus."
"Eu sei. E me arrependo amargamente disso todos os dias. Mas eu precisava de espaço. Precisava entender o que estava acontecendo comigo. E com nós." Ele estendeu a mão, como se quisesse tocá-la, mas parou no ar. "Eu sei que não tenho o direito de pedir, mas eu queria uma chance. Uma chance de te mostrar que mudou. Que posso ser o homem que você merece."
O convite para o batismo, a exposição, o reencontro. Tudo parecia convergir para este momento. Helena olhou para Rafael, vendo não apenas o homem que a havia magoado, mas também o artista apaixonado que ela amara profundamente. A sombra do passado pairava sobre eles, mas pela primeira vez em dez anos, Helena sentiu que talvez pudesse haver uma luz no fim do túnel. Uma luz tênue, incerta, mas que a convidava a arriscar, a olhar para frente, sem medo do que o futuro poderia reservar para aqueles destinos entrelaçados.