Coração em Chamas

Capítulo 14 — A Tempestade que Vem do Mar

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 14 — A Tempestade que Vem do Mar

O reencontro de Helena e Gabriel, com a revelação da verdade sobre suas origens, havia transformado a atmosfera na fazenda Valente. A antiga rivalidade, a atração incerta, tudo fora submerso por um senso de irmandade recém-descoberta e um respeito profundo. No entanto, as águas tranquilas de São Miguel dos Campos estavam prestes a ser agitadas por uma tempestade que vinha do mar, trazendo consigo não apenas chuvas torrenciais, mas também desdobramentos inesperados que testariam a força desse novo laço.

Naquela manhã, o céu já anunciava a mudança. Nuvens pesadas se aglomeravam no horizonte, prometendo um temporal. O vento, antes brando, agora soprava com mais força, agitando as copas das mangueiras e trazendo consigo o cheiro salgado do oceano. Helena observava o céu da varanda, sentindo uma inquietação que ia além da previsão do tempo.

Gabriel apareceu, o semblante sério, mas seus olhos transmitiam uma nova confiança ao encontrar os dela. "Acho que o tempo vai virar de verdade", ele disse, a voz firme. "A colheita está quase no fim, mas ainda temos algumas plantações que precisam ser protegidas."

"Eu ajudo", Helena respondeu prontamente, sem hesitar. A fazenda se tornara seu lugar, e ela sentia uma responsabilidade em protegê-la, em honrar a memória de sua mãe e em construir algo novo ao lado de Gabriel.

Enquanto trabalhavam lado a lado no campo, sob o vento cada vez mais forte e as primeiras gotas de chuva, o silêncio entre eles era confortável, repleto de uma compreensão mútua. A revelação do parentesco não diminuíra a intensidade da conexão que sentiam; pelo contrário, a tornara mais profunda, mais significativa.

De repente, um carro diferente, um modelo luxuoso que destoava da paisagem rural, surgiu na estrada de terra, levantando poeira. Era um carro que Helena não via há muito tempo. Seu coração deu um salto.

"Não pode ser…", ela murmurou.

Gabriel seguiu seu olhar. "Quem é?", ele perguntou, a testa franzida.

O carro parou em frente à sede da fazenda. Dele desceu uma mulher elegantemente vestida, com um ar de sofisticação fria. Era a Dra. Beatriz Montenegro, a ex-mulher de Eduardo, seu pai biológico, e madrasta de Helena por um breve período. Seus olhos, penetrantes e calculistas, percorreram a paisagem com um misto de desprezo e avaliação.

Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A presença de Beatriz era como um presságio, uma sombra do passado que ela pensava ter deixado para trás.

"O que ela quer aqui?", Helena perguntou, a voz carregada de apreensão.

Gabriel a olhou, percebendo a tensão. "Não sei, mas não parece uma visita de cortesia."

Beatriz se aproximou, o salto de seus sapatos finos afundando levemente na terra molhada. Um sorriso forçado brincou em seus lábios ao ver Helena.

"Helena, querida. Que surpresa te encontrar neste lugar tão… rústico", ela disse, a voz polida, mas com um tom de condescendência. Seus olhos logo se voltaram para Gabriel, avaliando-o com um interesse calculado. "E quem é este jovem bonito?"

"Dra. Montenegro, esta é Helena Valente. E este é Gabriel Valente, o dono da fazenda", disse Seu Afonso, aparecendo como um raio, percebendo a tensão no ar.

Beatriz riu, um som seco e sem alegria. "Helena Valente? Querida, você sabe que seu nome de casada era Montenegro. E quanto a você, Gabriel… suponho que seja um dos Valente. Tão previsível." Ela fez uma pausa, seus olhos azuis fixos em Helena. "Estou aqui por um assunto delicado. Assuntos que envolvem a herança de Eduardo."

Helena sentiu um nó na garganta. A menção de Eduardo Montenegro sempre trazia uma carga de ressentimento. Um homem que se casara com sua mãe por conveniência, que a havia tratado com frieza, e que agora, em sua ausência, sua ex-mulher aparecia para reivindicar algo.

"A herança de Eduardo já foi devidamente dividida, Dra. Montenegro. E eu não vejo o que isso tem a ver com a fazenda Valente", Helena disse, tentando manter a calma, embora a raiva borbulhasse em seu peito.

"Ah, mas tem tudo a ver, querida Helena. Ou devo dizer, Helena Valente, filha de Cecília e… Rafael?", Beatriz disse, com um sorriso malicioso, claramente saboreando a revelação. "Sei de tudo. Sei sobre o caso de sua mãe, sei sobre quem era o seu pai biológico. E sei que Eduardo a registrou como sua filha."

Gabriel olhou para Helena, perplexo. Ele não fazia ideia de que Eduardo Montenegro havia registrado Helena como sua filha.

"Eduardo se casou com Cecília, e mesmo sabendo que ela esperava um filho de outro homem, ele a registrou como sua. Por quê? Por causa do nome Valente. Por causa da fortuna que Cecília herdaria. E você, Helena, mesmo sendo filha de um… artista de rua, se beneficiou disso. E agora, essa fortuna, que deveria ter vindo para os meus filhos de Eduardo, está sendo ameaçada."

"Seus filhos? Você tem filhos com Eduardo?", Helena perguntou, chocada.

"Claro que tenho. Dois. E eles têm direitos sobre a fortuna de Eduardo, que, convenhamos, foi construída em grande parte com o dinheiro que sua mãe herdou dos Valente. Dinheiro esse que seu avô Domício, em sua infinita sabedoria, destinou para que Eduardo honrasse o nome da família ao se casar com Cecília." Beatriz fez uma pausa dramática, observando a confusão no rosto de Helena e Gabriel. "E agora, com a descoberta de que você, Helena, é na verdade filha de um sujeito chamado Rafael, e que sua mãe jamais amou Eduardo… isso abre precedentes legais interessantes."

O vento uivava, e as primeiras gotas de chuva se transformaram em um aguaceiro. O céu desabou sobre a fazenda.

"O que você está insinuando?", Gabriel perguntou, dando um passo à frente, protegendo Helena.

"Estou insinuando, Gabriel, que a fortuna que Eduardo deixou para seus filhos, que inclui parte da fortuna dos Valente, está em risco. Se for provado que Cecília jamais amou Eduardo e que o casamento foi uma farsa para garantir a legitimidade da herança, e que Helena, a herdeira principal, é filha de outro homem… bem, isso pode invalidar muita coisa. E o que você acha que Eduardo faria se soubesse que foi enganado e que o dinheiro da sua família foi parar nas mãos de um artista sem eira nem beira e sua filha ilegítima?", Beatriz disse, com um tom de triunfo. "Ele certamente não gostaria que a herança fosse para você, Helena. Ele a deixaria para os meus filhos. E eu, como inventariante, farei de tudo para garantir que isso aconteça."

Helena sentiu o estômago revirar. A batalha legal que se anunciava era assustadora. Ela, que buscava paz e um recomeço, estava sendo arrastada para um conflito que envolvia heranças, fraudes e a sombra de um casamento infeliz.

"Você está enganada. Minha mãe amou meu pai, Rafael. E Eduardo sabia que ela não o amava. O registro de nascimento foi um acordo, sim, mas a lei me reconhece como filha dele", Helena rebateu, a voz firme, apesar do medo.

"Leis podem ser interpretadas, querida. E eu sou muito boa em interpretações. E em encontrar brechas", Beatriz sorriu friamente. "Se eu provar que o casamento foi um engodo, que Cecília nunca teve intenção de amar Eduardo, que o motivo do casamento era puramente financeiro… então a sua posição como herdeira direta pode ser questionada. E a fortuna que você pensa que tem direito, pode acabar nas mãos de quem realmente a merece. Meus filhos."

A chuva caía torrencialmente, transformando a terra em lama. O vento açoitava a fazenda. A tempestade externa parecia refletir a tempestade que se abria na vida de Helena e Gabriel. A presença de Beatriz Montenegro era a prova de que os fantasmas do passado estavam longe de serem apaziguados. A luta pela verdade e pela herança de Cecília havia apenas começado, e o futuro, antes promissor, agora se mostrava sombrio e incerto, com a ameaça de Beatriz pairando como um presságio de desgraça.

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