Coração em Chamas

Capítulo 7 — O Chamado da Terra e do Amor

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 7 — O Chamado da Terra e do Amor

A tarde caía sobre a Fazenda Boa Vista, tingindo o céu de tons alaranjados e rosados. Clara, com o diário de Sofia ainda em mãos, sentia-se como se tivesse viajado no tempo. As palavras da tia-avó haviam aberto uma ferida antiga, mas também despertado uma força adormecida em seu interior. A ideia de que seu amor por Lucas pudesse ser uma repetição de um drama familiar a assustava, mas também a impulsionava a buscar respostas.

Ela decidiu que precisava sair, respirar o ar livre, sentir a terra sob seus pés. A biblioteca, por mais reconfortante que fosse, a aprisionava em pensamentos sombrios. Caminhou em direção aos cafezais, o perfume doce e pungente envolvendo-a. O trabalho nos campos era um bálsamo para sua alma inquieta. Observou os trabalhadores, suas mãos calejadas colhendo os grãos com uma destreza fruto de gerações. Havia uma beleza simples e honesta naquele labor, uma conexão genuína com a terra que a fazia sentir-se pertencente.

Enquanto caminhava por entre as fileiras de arbustos de café, avistou, à distância, uma figura familiar. Era Lucas. Ele estava próximo a um velho trator, com as mãos sujas de graxa, concentrado em algum conserto. Seu porte atlético, mesmo sob as roupas de trabalho simples, era inegável. Clara hesitou por um momento. A conversa com Dona Eulália e a descoberta do diário de Sofia a deixaram apreensiva. Como ela poderia olhar para ele, sabendo da história de seu avô? Como poderia confiar em seus sentimentos quando o passado parecia sussurrar avisos tão claros?

Mas a atração era mais forte que o medo. Havia algo em Lucas que a puxava, um magnetismo que ela não conseguia ignorar. Ela se aproximou, o coração batendo um pouco mais forte.

"Lucas?", chamou ela, sua voz suave no ar do fim de tarde.

Ele ergueu a cabeça, um sorriso caloroso iluminando seu rosto. Seus olhos, de um azul profundo, encontraram os dela, e por um instante, o tempo pareceu parar.

"Clara! Que surpresa boa te ver por aqui. Tudo bem?", perguntou ele, limpando as mãos em um pano sujo.

"Tudo bem, sim. Só aproveitando o fim de tarde", respondeu ela, tentando manter a compostura. "O que está fazendo?"

"Ah, esse trator velho tem vida própria. Resolvi dar um jeito nele antes que resolva parar de vez", ele riu, um som genuíno que a fez sorrir. "Você parece pensativa. Algum problema?"

Clara ponderou se deveria mencionar algo, qualquer coisa, sobre o diário de Sofia. Mas as palavras não saíam. Como explicar a história de um amor proibido que ecoava em seu presente? Ela decidiu por uma abordagem mais sutil.

"Estava pensando sobre a fazenda. Sobre a história dela. Sobre as pessoas que viveram aqui antes de nós."

Lucas deixou o trator e caminhou até ela, seus passos firmes sobre a terra batida. Eles estavam lado a lado, o silêncio preenchido apenas pelo canto dos pássaros e pelo farfalhar das folhas.

"É um lugar com muita história, sem dúvida", disse ele, olhando para o casarão que se erguia ao longe. "Meu avô costumava contar histórias sobre a Fazenda Boa Vista. Ele tinha um carinho especial por esta terra."

A menção ao avô fez Clara prender a respiração. "É mesmo? Que tipo de histórias?"

Lucas deu de ombros, um leve rubor subindo em seu pescoço. "Histórias de um tempo diferente. De um amor que ele nunca esqueceu." Ele fez uma pausa, seus olhos buscando os dela. "Um amor que, diziam, era proibido."

O coração de Clara disparou. Era um sinal. Ou ela estava imaginando coisas? A coincidência era grande demais para ser ignorada. Ela sentiu uma urgência em compartilhar o que descobriu, em desvendar essa conexão que parecia tecer um fio invisível entre seus destinos.

"Lucas... eu encontrei algo hoje. Algo que me fez pensar muito sobre o passado. Sobre seu avô, e sobre minha tia-avó, Sofia."

Ele a olhou com curiosidade, o interesse em seus olhos evidente. "Sofia? A irmã da sua avó?"

Clara assentiu, sua voz embargada pela emoção. "Sim. Eu encontrei o diário dela. E nela, ela falava de um amor... um amor por um homem chamado Rafael."

A menção do nome "Rafael" pareceu atingir Lucas como um raio. Seu semblante mudou, uma sombra de surpresa e algo mais, talvez dor, cruzando seu rosto. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, processando a informação.

"Rafael... era o nome do meu avô", ele disse, sua voz um sussurro rouco.

Um arrepio percorreu a espinha de Clara. Era a confirmação. O passado e o presente se entrelaçavam de uma forma que ela jamais imaginara. Aquele amor proibido de seus avós, separado pelas circunstâncias e pelo tempo, parecia projetar sua sombra sobre eles.

"Eu li sobre eles", Clara continuou, sentindo a urgência em suas palavras. "Sobre o amor deles. Sobre a dor de não poderem ficar juntos. As palavras de Sofia... elas são tão intensas, Lucas. A paixão, o medo, a esperança."

Lucas a olhou, seus olhos azuis marejados. "Meu avô nunca falou muito sobre isso. Ele era um homem reservado. Mas eu sempre senti que havia algo em seu passado que o assombrava. Uma tristeza que ele carregava no fundo dos olhos."

Eles ficaram em silêncio, a vastidão dos cafezais testemunhando a magnitude da revelação. O cheiro doce do café, antes reconfortante, agora parecia carregar o peso de décadas de segredos e paixões reprimidas.

"O diário fala de um lugar especial que eles frequentavam", Clara disse, sentindo uma pontada de esperança. "Uma cabana perto de um córrego. E uma caixa de música que ele lhe deu."

Lucas franziu a testa, pensativo. "Uma cabana? Eu me lembro de um lugar assim. Meu avô costumava me levar para pescar perto de um córrego antigo. Havia ruínas de uma pequena construção por lá."

Um fio de esperança se acendeu no peito de Clara. Aquela cabana poderia ser a chave para desvendar a história completa, para entender o que aconteceu com Sofia e Rafael, e talvez, para encontrar paz em meio à turbulência que ela e Lucas estavam vivenciando.

"Precisamos ir até lá, Lucas", disse ela, com a voz firme. "Precisamos ver se encontramos alguma coisa. Se a caixa de música ainda existe."

Lucas assentiu, seu olhar determinado. "Vamos. O sol está se pondo, mas podemos achar o caminho. É importante para mim também, Clara. Saber mais sobre meu avô, sobre o que o marcou tanto."

Enquanto caminhavam juntos em direção ao riacho, a mão de Lucas roçou a de Clara. Um toque leve, mas carregado de eletricidade. Em meio à descoberta de um passado doloroso, uma nova conexão se fortalecia entre eles. A terra, que antes representava apenas um negócio para Clara, agora parecia um portal para histórias de amor e sofrimento, e o amor que ela sentia por Lucas, antes motivo de incerteza, agora parecia parte de um destino maior, um eco de um amor que desafiou o tempo e as convenções. A Fazenda Boa Vista, com suas memórias escondidas, estava se tornando não apenas um lugar, mas um destino, onde o passado e o presente se fundiam em uma dança de emoções intensas.

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