Amor à Primeira Vista II

Claro, vamos mergulhar neste romance brasileiro com paixão e drama!

por Ana Clara Ferreira

Claro, vamos mergulhar neste romance brasileiro com paixão e drama!

Amor à Primeira Vista II Autor: Ana Clara Ferreira

Capítulo 1 — O Encontro Inesperado Sob a Chuva Carioca

O asfalto do Leblon, molhado pelo temporal que desabava sobre o Rio de Janeiro, refletia as luzes neon dos bares e restaurantes como um espelho turvo. Ana Paula, encharcada até os ossos, apertava o passo em direção ao seu apartamento. O salto fino de seu escarpin parecia querer traí-la a cada segundo, afundando na poça d'água que se formava na calçada. Seus cabelos, outrora presos num coque elegante para a reunião que acabara de frustrar, agora grudavam em seu rosto, fios escuros rebeldes que a deixavam ainda mais desesperada.

“Que droga de dia!”, resmungou para o vento que chicoteava o tecido fino de seu vestido de seda, revelando mais do que deveria a sua pele. A brisa salgada, misturada à chuva fina e persistente, trazia um cheiro de maresia e terra molhada que, em outras circunstâncias, a faria suspirar de contentamento. Mas hoje, Ana Paula sentia apenas a frustração de um dia que se recusava a cooperar. O projeto que defendera com unhas e dentes fora engavetado pela diretoria, um golpe que a atingira em cheio. O reconhecimento que buscava, a recompensa pelo esforço incansável, pareciam ter evaporado como a garoa que insistia em cair.

Ela era Ana Paula Mendes, 28 anos, arquiteta talentosa, conhecida por sua determinação feroz e um olhar que, quando não estava focado em plantas e estruturas, podia derreter corações. Mas hoje, o que se via em seu rosto era uma expressão de derrota, um franzir de testa que denunciava a preocupação e o cansaço. O guarda-chuva, que ela esquecera no escritório, tornava a caminhada pela Avenida Ataulfo de Paiva uma tortura. As poucas pessoas que cruzavam seu caminho apressavam o passo, encolhidas sob seus próprios escudos contra o aguaceiro.

Quando virou a esquina para a Rua Bartolomeu Mitre, algo a fez parar bruscamente. Um vulto, debruçado sobre a janela de um carro de luxo preto, chamou sua atenção. Era um homem, de ombros largos e cabelos escuros e rebeldes, como os dela, mas que pareciam ter uma vida própria sob a chuva. Ele estava visivelmente irritado, batendo no volante com a mão, e parecia ter um problema com o veículo.

Por um instante, Ana Paula hesitou. Ajudar um desconhecido, ainda mais um homem tão imponente e aparentemente furioso, não era exatamente o que seu instinto de autopreservação aconselhava. Mas havia algo naquele desespero que a fez se aproximar. Talvez fosse o reflexo de sua própria frustração do dia, ou talvez fosse a curiosidade que sempre a acompanhou, a necessidade de entender o que se passava por trás das aparéias.

“Com licença?”, ela disse, a voz um pouco trêmula pela água fria e pela hesitação.

O homem levantou a cabeça bruscamente, os olhos azuis intensos, como o mar em tempestade, fixando-se nela. Um susto genuíno, seguido por uma carranca que parecia se dissipar lentamente ao perceber que era uma mulher, e não um mecânico ou um policial, quem o abordava.

“Pois não?”, a voz dele era grave, rouca, com um leve sotaque que ela não soube identificar de imediato.

“Eu vi que o senhor está com problemas. Precisa de ajuda?”, ela perguntou, tentando sorrir, um gesto que não alcançou seus olhos cansados.

Ele a observou por um longo momento, a chuva escorrendo por seu rosto, acentuando as linhas de preocupação. Parecia ponderar se deveria aceitar a oferta de uma estranha molhada e desesperada.

“Meu carro simplesmente parou de funcionar”, ele disse, com um suspiro. “Estou tentando ligar para o guincho, mas o sinal aqui é péssimo, e a bateria do meu celular está acabando.”

Ana Paula deu um passo à frente, ignorando a água que ameaçava invadir seus sapatos. “Talvez eu possa ajudar. Meu celular, pelo menos, está com bateria. Posso tentar ligar para alguém para o senhor.”

Ele sorriu, um sorriso curto, mas que iluminou seu rosto, suavizando as linhas de tensão. “Isso seria uma gentileza enorme da sua parte. Meu nome é Ricardo.”

“Ana Paula”, ela respondeu, estendendo a mão direita, que ele apertou com firmeza, seus dedos quentes e fortes contrastando com o frio úmido que a envolvia. Um arrepio percorreu sua espinha, uma sensação estranha e inesperada.

“Muito prazer, Ana Paula. E muito obrigado.”

Enquanto Ana Paula vasculhava sua bolsa em busca do celular, Ricardo observava-a com uma curiosidade crescente. Ela era bonita, de uma beleza natural e elegante, mesmo sob a chuva e com o cabelo desgrenhado. A força em seu olhar, a determinação em sua postura, mesmo quando encharcada, o cativaram. Havia algo nela que o intrigava, uma chama que, ele sentia, ardia sob a superfície calma.

“Aqui está”, ela disse, entregando o aparelho. “É da minha operadora, talvez tenha um sinal melhor.”

Ricardo pegou o celular com cuidado, seus dedos ainda roçando os dela. Ele discou o número do guincho, e para o alívio de ambos, a ligação foi completada. Enquanto esperavam, um silêncio confortável se instalou entre eles. A chuva parecia ter diminuído um pouco, transformando-se em uma garoa mais suave.

“Ainda bem que você apareceu”, Ricardo disse, devolvendo o celular. “Eu já estava começando a achar que teria que passar a noite aqui, conversando com os carros.”

Ana Paula riu, um som leve e inesperado. “Eu também não teria gostado nada de ficar aqui. O dia já foi ruim o suficiente.”

“Algo te incomoda?”, ele perguntou, o tom de voz carregado de uma gentileza genuína.

Ana Paula hesitou por um instante, mas a sinceridade em seus olhos a encorajou a desabafar um pouco. “Perdi uma oportunidade de trabalho importante. Dias de luta que parecem ter sido em vão.”

Ricardo assentiu, compreendendo a dor da frustração. “Eu sei como é. A vida às vezes nos dá rasteiras inesperadas. Mas o importante é não desistir, não é?”

“É o que tento me dizer”, ela respondeu, um sorriso melancólico nos lábios.

Nesse momento, o guincho chegou, um veículo grande e barulhento que interrompeu a conversa íntima que começava a se formar. Ricardo agradeceu Ana Paula novamente, e ela sentiu uma pontada de decepção.

“Não por nada”, ela disse, sentindo um calor estranho no peito. “Espero que seu dia melhore agora.”

“Graças a você, acho que sim”, ele respondeu, seus olhos azuis transmitindo uma gratidão que ia além das palavras. “Você mora por perto?”

“Sim, a duas quadras daqui”, ela apontou.

“Talvez… se você não se importar, eu gostaria de te agradecer com um café. Assim que resolver essa situação com o carro, é claro. Para me desculpar por ter te atrapalhado na chuva.”

Ana Paula sentiu o coração acelerar. A ideia de passar mais tempo com ele, de continuar aquela conversa inesperada, era tentadora. Mas a prudência ainda a alertava.

“Eu não sei…”, ela começou.

“Sem compromisso algum”, Ricardo insistiu, percebendo sua hesitação. “Apenas um café, para agradecer. E talvez, quem sabe, para me contar mais sobre seus projetos. Pelo seu olhar, percebi que você é uma mulher com paixão pelo que faz.”

Ela o olhou, analisando sua expressão. Não havia malícia em seus olhos, apenas uma genuína admiração e um convite sincero. A chuva parecia ter levado consigo parte de suas inibições.

“Tudo bem”, ela disse, um sorriso mais aberto agora. “Mas apenas um café rápido. Preciso me secar e recuperar o fôlego.”

Ricardo sorriu amplamente, um sorriso que prometia um futuro incerto e excitante. “Excelente. Te espero lá na cafeteria da esquina em meia hora? A ‘Maré Alta’?”

“Combinado”, ela respondeu, sentindo-se estranhamente leve, apesar de ainda estar molhada.

Enquanto Ricardo acompanhava o guincho para a oficina, Ana Paula se dirigiu para casa, o coração batendo em um ritmo diferente. A frustração do dia parecia ter sido substituída por uma expectativa ansiosa. A chuva, que antes parecia um obstáculo intransponível, agora trazia consigo um aroma de novidade e a promessa de algo que ela não esperava: um encontro que poderia mudar o curso de seu destino. Ela mal sabia que aquele breve encontro sob a chuva carioca era apenas o prelúdio de uma tempestade de emoções que estava prestes a abalar as estruturas de sua vida.

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