Amor à Primeira Vista II

Capítulo 12 — O Refúgio na Saudade e os Ecos do Passado

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 12 — O Refúgio na Saudade e os Ecos do Passado

A manhã chegou em Paraty com uma calma quase irônica. O sol tímido tentava romper as nuvens remanescentes da tempestade da noite anterior, projetando longas sombras sobre as ruas de pedra ainda molhadas. O ar estava limpo, renovado, mas dentro de Helena, a tempestade interior continuava a rugir.

Ela estava em seu quarto, a janela aberta para a vista do mar, agora mais sereno, mas ainda com as ondas quebrando com certa força na praia. O cheiro de café fresco subia da cozinha, misturando-se ao aroma de flores que desabrochavam no pequeno jardim da pousada. Eram detalhes de paz que pareciam zombar da sua agonia.

Desde a conversa com Daniel, ela não dormira. As palavras dele, as explicações… nada parecia ter o poder de acalmar a revolta em seu peito. A imagem de Lucas, o homem que ela acreditava ter amado tão intensamente, agora se misturava à de Daniel, criando um emaranhado de desconfiança e dor. Ela se sentia traída por ambos, cada um à sua maneira.

Daniel, com sua omissão deliberada, com a forma como ele a cercou com um amor que parecia condicionado a segredos. Lucas, com a revelação tardia, com a frieza com que expôs um passado que, ela agora percebia, era mais complexo e doloroso do que imaginara.

Ela pegou o celular, as mãos tremendo levemente. A lista de contatos parecia zombar dela, cada nome associado a uma memória, a uma expectativa. Daniel. Lucas. E, mais abaixo, um nome que ela raramente ousava pronunciar em voz alta: Clara. Sua irmã. A quem ela havia abandonado anos atrás, em uma briga que parecia agora insignificante diante do peso dos segredos que a envolviam.

Respirou fundo e discou o número. Cada toque parecia levar uma eternidade.

"Alô?" A voz de Clara, um pouco mais madura, mas ainda com o timbre familiar, soou do outro lado.

"Clara… sou eu. Helena." A voz de Helena saiu um sussurro.

Um silêncio momentâneo. Clara parecia processar a informação. "Helena? Meu Deus… quanto tempo. Está tudo bem?"

"Não… não está. Eu… eu preciso de um lugar para ficar. Por um tempo. Você… você ainda mora naquela casa antiga, perto do centro?" A ideia de buscar refúgio em um lugar que um dia foi seu lar, um lugar associado a memórias de infância e adolescência, parecia a única opção.

"Sim, ainda moro. A casa é grande… sempre tem um quarto livre. Você quer vir agora?" Havia uma hesitação na voz de Clara, um resquício da mágoa antiga, mas também uma abertura, um convite silencioso para a reconciliação.

"Sim. Agora. Eu… eu preciso fugir. De tudo."

Helena arrumou uma pequena mala com o essencial. Deixou um bilhete na recepção da pousada, informando que se mudaria temporariamente. Não se despediu de Daniel. Não podia. A dor em seus olhos, a mistura de desespero e resignação, era um espelho do que ela sentia, e ela não tinha forças para encarar aquilo novamente.

A viagem até a casa de Clara foi um borrão. A paisagem de Paraty, com suas ruas estreitas e casarões coloniais, parecia a mesma, mas Helena a via com outros olhos. Uma estranha sensação de deslocamento a invadia. Ela estava ali, mas sentia que não pertencia mais àquele lugar.

A casa de Clara era exatamente como Helena se lembrava: antiga, charmosa, com um ar nostálgico de tempos idos. As paredes de pedra, as janelas com venezianas de madeira, o pequeno jardim repleto de flores coloridas. Ao estacionar o carro, viu Clara sair para a varanda. Ela não era mais a garota impulsiva e muitas vezes irritante que Helena se lembrava. Havia uma serenidade em seu rosto, uma maturidade que vinha com o tempo e as experiências.

"Helena." Clara disse, um sorriso pequeno se formando em seus lábios.

Helena desceu do carro, sentindo um nó na garganta. "Clara."

O abraço foi hesitante no início, mas logo se tornou mais apertado, um abraço de irmãs que se reencontravam após anos de silêncio. Era um abraço carregado de saudades, de arrependimentos, mas também de esperança.

"Entre. Você deve estar cansada." Clara a guiou para dentro.

A casa por dentro era um reflexo de Clara: acolhedora, cheia de objetos que contavam histórias, um misto de móveis antigos e toques modernos. Helena sentiu um alívio instantâneo ao cruzar a soleira. Era um refúgio, um lugar onde os fantasmas do seu passado amoroso pareciam menos assustadores.

"O quarto de hóspedes. É o mesmo de sempre. Espero que esteja confortável." Clara apontou para uma porta no fim do corredor.

Helena entrou no quarto. Era simples, mas aconchegante. Uma cama de solteiro com uma colcha colorida, uma escrivaninha antiga, um armário de madeira. As janelas davam para o jardim, e o som dos pássaros era suave e calmante. Ela sentiu uma pontada de culpa por ter abandonado Clara, por ter se afastado tanto.

"Obrigada, Clara. Por me receber."

"Você é minha irmã, Helena. Não há o que agradecer." Clara a olhou com ternura. "Você parece… abatida. O que aconteceu?"

Helena sentou-se na beirada da cama, a mala no chão. Respirou fundo, reunindo coragem para começar a desabafar. "Eu me apaixonei. De novo. Achei que tinha encontrado o amor verdadeiro. Mas… ele tinha um segredo. Um segredo que me atingiu de forma devastadora."

Ela contou tudo para Clara. A história de Daniel, a revelação sobre o passado de Lucas, a forma como ela se sentiu enganada por ambos. Clara a ouviu atentamente, sem interromper, seu rosto alternando entre a compaixão e a indignação.

"Eu não acredito. Esse Daniel… como ele pôde? Ele sabia do quanto essa história te afetaria." Clara estava visivelmente chocada.

"Ele diz que me amava, que tinha medo de me perder. Que agiu por impulso ao se envolver com Lucas." Helena sentia as palavras de Daniel soarem distantes, como se pertencessem a outra pessoa.

"E o Lucas? Ele te contou tudo? E te deixou fugir assim?" A voz de Clara era firme, protetora.

"Ele me contou o que precisava. Mas eu sinto que ainda há mais. Algo que ele não me disse. E Daniel… ele também não me contou tudo. Eu sinto que estou no meio de um jogo, e não sei quem está jogando contra mim." Helena sentiu as lágrimas voltarem. "Eu me sinto tão perdida, Clara. Tão sozinha."

Clara se aproximou e sentou-se ao lado dela, colocando um braço em seus ombros. "Você não está sozinha, Helena. Você tem a mim. E a casa é sua. Descanse. Coloque seus pensamentos em ordem. Aqui você está segura. Podemos pensar em tudo isso juntas, com a cabeça mais fria."

Helena se aconchegou no abraço da irmã. Era um abraço que trazia de volta as lembranças de uma infância onde elas eram inseparáveis, antes das brigas, antes da distância. Naquele momento, o refúgio na saudade parecia o único lugar seguro. Os ecos do passado, tanto os dolorosos quanto os felizes, pareciam se misturar, criando um espaço para a cura. Mas, mesmo ali, em meio ao amor fraternal, a sombra dos segredos de Daniel e Lucas pairava, um lembrete constante de que a tempestade, por mais que tivesse diminuído lá fora, ainda estava longe de terminar dentro dela.

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