O Amor que Perdi II
O Amor que Perdi II
por Ana Clara Ferreira
O Amor que Perdi II
Capítulo 1 — O Sussurro da Saudade em Ouro Preto
O vento frio de Ouro Preto acariciava o rosto de Helena, trazendo consigo o cheiro úmido da terra e das pedras centenárias. O sol, que teimava em se esconder atrás das montanhas imponentes, lançava um brilho melancólico sobre as ladeiras sinuosas e as igrejas barrocas. Era um cenário de beleza avassaladora, mas para Helena, a cidade histórica era um espelho da sua própria alma: cheia de memórias doces e amargas, de um tempo que parecia ter ficado eternamente suspenso em um passado glorioso, mas inatingível.
Sentada em um banco de madeira na Praça Tiradentes, observava as pessoas que passavam. Turistas com câmeras em punho, famílias passeando, jovens apaixonados de mãos dadas. Cada cena, por mais trivial que fosse, ecoava em seu peito como um lembrete pungente do que ela havia perdido. Há cinco anos, ela e Rafael dividiam aquele mesmo banco, sob o mesmo sol dourado, planejavam um futuro que parecia tão certo quanto o nascer do dia. Agora, Rafael era apenas uma sombra, um fantasma que assombrava cada pedra, cada beco, cada lembrança viva daquela cidade que um dia foi o palco do seu amor.
Helena apertou o xaile sobre os ombros, como se pudesse se proteger da própria dor. Ela viera a Ouro Preto em busca de respostas, ou talvez, apenas para se reconectar com a essência da sua felicidade passada. A empresa onde trabalhava a enviara para supervisionar a restauração de um casarão antigo, uma obra que exigiria sua permanência na cidade por alguns meses. Era uma oportunidade profissional irrecusável, um recomeço disfarçado de desafio. Mas, no fundo, ela sabia que a verdadeira motivação era outra: a esperança, por mais tênue que fosse, de que o tempo e a distância pudessem, de alguma forma, apagar a dor que a consumia.
Um casal de idosos passou por ela, de mãos dadas, com sorrisos serenos. Helena desviou o olhar, uma pontada de inveja atravessando seu coração. Aquela simplicidade, aquela cumplicidade serena, era algo que ela e Rafael nunca tiveram a chance de vivenciar. O amor deles, embora intenso e avassalador, fora marcado por uma urgência, por uma paixão arrebatadora que, talvez, não permitisse que os sentimentos se aprofundassem com a lentidão e a sabedoria que o tempo e a vida a dois costumam trazer.
Um garoto corria atrás de uma pipa colorida, sua risada ecoando pela praça. Helena sorriu, um sorriso frágil, quase imperceptível. Ela sempre sonhou em ter filhos, em construir uma família com Rafael. Aquele sonho, tão vivo e palpável um dia, agora parecia uma miragem distante, um capricho do destino que a havia privado da alegria mais pura da maternidade.
"Senhorita Helena?"
A voz, grave e familiar, tirou-a de seus devaneios. Virou-se, surpresa, e seu coração deu um salto doloroso. Diante dela, parado como uma estátua de pedra viva, estava Leonardo. Seus olhos azuis, que ela se lembrava como se fossem ontem, a encaravam com uma intensidade que a desarmou por completo. Leonardo, o melhor amigo de Rafael, o padrinho do seu casamento, o homem que, em meio à tragédia, se tornara um porto seguro, mas que agora a olhava com uma expressão que ela não conseguia decifrar.
"Leonardo... que surpresa você aqui", ela conseguiu dizer, a voz embargada pela emoção e pelo susto.
Ele sorriu, um sorriso contido, mas seus olhos ainda a analisavam com a mesma profundidade de antes. "Eu moro aqui há dois anos, Helena. E você? O que uma mulher da cidade grande faz em Ouro Preto?"
"Trabalho. Uma restauração em um casarão antigo." Ela tentou manter um tom casual, mas sentiu o corpo inteiro vibrar com a presença dele. Leonardo era um elo vivo com o seu passado, com Rafael. E, ao mesmo tempo, ele era um lembrete doloroso de como a vida podia mudar drasticamente em tão pouco tempo.
"Um casarão antigo... parece o cenário perfeito para você", ele disse, o tom um pouco irônico. "Sempre gostei de ver você mergulhada em histórias e em lugares com alma."
Eles caminharam juntos pela praça, o silêncio entre eles pontuado pelo burburinho da cidade. Helena sentia-se exposta sob o olhar de Leonardo. Ele a conhecia tão bem, conhecia suas fragilidades, suas alegrias, suas tristezas. E, acima de tudo, ele conhecia o amor que ela sentia por Rafael.
"Como você está, Helena?", Leonardo perguntou, a voz mais suave agora, carregada de uma preocupação genuína.
"Estou... bem. Tentando seguir em frente." A resposta era um clichê, mas era a mais honesta que ela podia oferecer.
"Sei que não deve ser fácil para você voltar para Ouro Preto", ele disse, e um véu de tristeza cobriu seus olhos. "Eu também sinto falta dele, você sabe."
A menção a Rafael, dita por Leonardo, era como uma facada. Helena desviou o olhar, concentrando-se nas igrejas ornadas de ouro, nas cascatas de pedra que desciam as ladeiras. Cada detalhe de Ouro Preto parecia gritar o nome dele.
"Eu sei. E agradeço por isso", ela respondeu, a voz embargada.
Chegaram à entrada do casarão que seria sua nova casa e local de trabalho. Era uma construção imponente, com uma fachada desgastada pelo tempo e um ar de nobreza esquecida.
"Preciso ir, Leonardo. Tenho muito o que fazer", ela disse, um misto de alívio e decepção.
Ele assentiu, seus olhos fixos nos dela por um instante a mais. "Se precisar de qualquer coisa, Helena, qualquer coisa mesmo, não hesite em me procurar. Ouro Preto pode ser pequena, mas as pessoas aqui se importam umas com as outras." Ele pegou um pequeno cartão do bolso interno do paletó. "Aqui está o meu número. E o endereço da minha livraria."
Helena pegou o cartão, sentindo a textura do papel em seus dedos. A livraria de Leonardo. Era um lugar onde ela costumava passar horas, perdida entre os livros, sentindo a paz que o mundo lá fora não lhe proporcionava.
"Obrigada, Leonardo."
Ele deu um último sorriso, um sorriso que não alcançou seus olhos, e se afastou. Helena observou-o partir, sentindo um nó na garganta. O encontro com Leonardo fora intenso, perturbador e, de certa forma, um lembrete de que, mesmo na solidão da sua dor, ela não estava completamente sozinha. Ouro Preto, com suas cicatrizes e sua beleza, estava prestes a se tornar, mais uma vez, o palco de sua história.