O Último Beijo III

O Último Beijo III

por Camila Costa

O Último Beijo III

Capítulo 1 — O Sussurro do Destino na Chuva

A chuva caía impiedosa sobre o Rio de Janeiro, transformando as ruas de Copacabana em espelhos escuros que refletiam a melancolia do céu cinzento. O barulho das gotas contra o vidro da janela do seu apartamento, antes um som reconfortante, agora parecia um prenúncio de tempestade na alma de Isabella. Havia semanas que a vida dela era uma sucessão de dias nublados, cada um mais sombrio que o anterior, e a chuva parecia querer lavar de vez as cores vibrantes que um dia pintaram sua existência.

Ela era Isabella de Albuquerque, herdeira de um império hoteleiro que se estendia por todo o Brasil, mas naquele momento, sentia-se mais frágil que uma flor de papel molhada. O brilho nos seus olhos, que antes capturava o sol do Rio, agora estava turvo, velado por uma dor que a corroía por dentro. Aos trinta e dois anos, Isabella possuía uma beleza clássica, com cabelos cor de ébano que emolduravam um rosto de traços delicados, realçados por olhos verdes intensos que pareciam guardar segredos profundos. Vestida com um roupão de seda cor de vinho, ela observava a paisagem urbana se desvanecer em borrões de luzes e movimento.

O telefone tocou, estridente, quebrando o silêncio pesado do apartamento. Isabella hesitou antes de atender. Cada ligação, cada mensagem, era um lembrete pungente da ausência que a sufocava. O nome que piscava na tela, no entanto, era um sopro de esperança, um fio tênue de conexão com o mundo que ela ainda lutava para não deixar escapar.

“Alô?” sua voz saiu rouca, quase inaudível.

“Isa, meu amor? Como você está?” A voz de Dona Helena, sua mãe, soava preocupada, mas com aquela doçura que sempre a acalmava.

“Estou aqui, mãe. Só… vendo a chuva”, respondeu Isabella, tentando soar mais animada do que se sentia.

“A chuva não pode te derrubar, filha. Você é forte. Mais forte do que imagina.”

Isabella suspirou. Sua mãe sempre soube encontrar as palavras certas, mas naquele momento, nem mesmo a força de Dona Helena parecia suficiente para resgatar a Isabella que ela conhecia. “Eu sei, mãe. É só que… a saudade é uma companheira difícil de espantar.”

Houve um breve silêncio do outro lado da linha, um silêncio carregado de compreensão e tristeza compartilhada. “Eu sei, meu amor. Eu também sinto muito a falta dele. Mas ele não gostaria de nos ver assim, sofridas. Ele nos amava demais para isso.”

As palavras de Dona Helena atingiram Isabella como uma onda de choque. A menção de “ele” – o homem que havia roubado seu coração e partido seu mundo em dois – era sempre um gatilho. Gabriel. Gabriel Montenegro. O nome ecoava em sua mente como uma melodia agridoce, uma lembrança vívida de paixão, de cumplicidade, de promessas que agora pareciam sussurradas pelo vento.

“Eu… eu preciso tentar, mãe. Preciso encontrar um jeito de seguir em frente.” A voz de Isabella tremia, carregada de uma resolução recém-descoberta.

“É isso, minha filha! Essa é a Isabella que eu conheço! Se precisar de qualquer coisa, você sabe que pode contar comigo.”

“Obrigada, mãe. De verdade. Eu te amo.”

“Também te amo, meu anjo. Agora se cuida. E, por favor, coma alguma coisa.”

Desligaram. Isabella ficou em silêncio por alguns instantes, o som da chuva agora soando menos opressivo, mais como um convite à reflexão. Gabriel se fora há quase um ano, levado por um acidente de carro brutal que chocou o país. Um homem público, carismático, empresário de sucesso e um dos homens mais desejados do Brasil, sua morte deixou um vácuo imenso, não apenas para Isabella, mas para o mundo que o admirava. Para Isabella, porém, era um buraco negro em sua alma, um espaço onde a felicidade costumava morar.

Ela se levantou e caminhou até a cozinha, um espaço amplo e moderno, tão impecável quanto o resto do apartamento, mas que ela raramente usava. Abriu a geladeira, um gesto quase mecânico, e pegou um pote de sorvete de chocolate, seu conforto nas noites mais difíceis. Sentou-se à mesa de mármore, as costas eretas, e pegou uma colher, mas o doce em sua boca parecia ter perdido o sabor.

A vida de Isabella, antes repleta de compromissos sociais, viagens de negócios e a efervescência de um relacionamento apaixonado com Gabriel, agora se resumia a dias longos e vazios. Seus amigos tentavam animá-la, seus pais a incentivavam a voltar ao trabalho, mas nada parecia preencher a lacuna deixada por ele. Gabriel não era apenas seu amor; era seu parceiro, seu confidente, o homem com quem ela sonhava construir um futuro.

Ela se lembrou da primeira vez que o viu. Foi em uma festa beneficente no Copacabana Palace. Ela, deslumbrante em um vestido de alta costura, e ele, imponente em seu terno impecável, com um sorriso que prometia o paraíso e o inferno em igual medida. O encontro deles foi elétrico, imediato. Uma força magnética os atraiu um ao outro, e em poucas semanas, estavam inseparáveis, trocando olhares de cumplicidade em eventos públicos e paixão ardente nos bastidores.

Gabriel era um enigma envolto em carisma. Um homem de negócios implacável, mas com uma alma de poeta, capaz de recitar versos de Camões para ela em meio a uma reunião importante. Sua inteligência aguçada, seu humor irreverente e a maneira como ele a olhava, como se ela fosse a única mulher no mundo, a haviam conquistado irrevogavelmente.

Mas a vida, cruel em sua imprevisibilidade, decidiu que aquele amor não era para ser. O acidente. O noticiário em tempo real. A negação. A dor. A dor. A dor. Isabella sentia como se aquele dia tivesse congelado em sua memória, um filme em loop que ela não conseguia parar. O carro, a estrada, a notícia.

“Não, Gabriel. Isso não pode ser verdade.”

Ela se levantou abruptamente, o pote de sorvete caindo no chão e se espalhando em uma mancha escura sobre o mármore branco. A visão daquela bagunça a fez rir, um riso seco e amargo que ecoou pelo apartamento silencioso. Era um reflexo do caos que sentia por dentro.

De repente, um pensamento a atingiu. Gabriel havia deixado algo para trás. Algo que ela ainda não havia tido coragem de procurar. Uma caixa. Uma caixa que ele havia lhe dado na última vez que se viram, com instruções para abri-la apenas em um momento de grande necessidade.

Seu coração acelerou. Seria aquele o momento? A chuva lá fora parecia ter diminuído, e um raio de sol fraco tentava furar as nuvens. Talvez fosse um sinal.

Ela caminhou até o quarto, o quarto que um dia compartilhou com Gabriel, e abriu o guarda-roupa. Lá, em uma das prateleiras mais altas, estava a caixa. Era uma caixa de madeira escura, simples, sem adornos, mas com um peso incomum. Ao tocá-la, uma onda de memórias a invadiu: o cheiro de Gabriel, o calor do seu abraço, a promessa em seus olhos.

Com as mãos trêmulas, ela pegou a caixa e a levou para a sala. Sentou-se no sofá de veludo, a caixa sobre seu colo, e respirou fundo. Era hora de enfrentar o passado, ou pelo menos, o que Gabriel havia deixado para ela. Era hora de abrir a última lembrança de um amor que, mesmo na ausência, ainda pulsava em suas veias. A chuva lá fora já se tornava uma garoa fina, e um novo capítulo, ainda que doloroso, parecia prestes a começar.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%