O Último Beijo III

Capítulo 17 — O Jogo de Sombras e as Verdades Desveladas

por Camila Costa

Capítulo 17 — O Jogo de Sombras e as Verdades Desveladas

A figura de Elias Montenegro na soleira da porta era uma visão que Arthur não esperava, mas que, de certa forma, sempre soube que existia. O homem em sua frente era a materialização de pesadelos antigos, o espectro de uma história que ele tentara enterrar sob camadas de sucesso e esquecimento. Elias era mais velho, as linhas de expressão profundas em seu rosto contavam uma história que ele não se apressava em compartilhar, mas os olhos, ah, os olhos eram exatamente como Arthur os imaginara: penetrantes, escuros e com um brilho de astúcia que o fez suar frio.

"Arthur", Elias disse, a voz rouca, como se não fosse usada há muito tempo. Um sorriso fino e desprovido de calor brincou em seus lábios. "Pensei que talvez não viesse."

Arthur não respondeu imediatamente. Ele apenas observou Elias, sentindo uma mistura complexa de raiva antiga, uma pontada de tristeza e uma curiosidade insaciável sobre as razões daquele reencontro tão tardio. Luísa apertou a mão dele, seu apoio silencioso um âncora em meio à tempestade de emoções que o assolava.

"Acreditei que o meu desaparecimento já seria suficiente para apagar essa história", Elias continuou, abrindo um pouco mais a porta, convidando-os a entrar. O interior da casa era sombrio e empoeirado, um reflexo de anos de abandono. Móveis antigos cobertos por lençóis brancos pareciam fantasmas silenciosos. O cheiro de mofo e de tempo parado pairava no ar.

Arthur deu um passo à frente, o corpo tenso. Ele não sabia se estava entrando em um ninho de cobras ou em um palco para a derradeira confissão. "Você destruiu a vida do meu pai, Elias. Destruiu a nossa família."

Elias soltou uma risada baixa e seca. "O destino tem um jeito irônico de nos apresentar nossas contas, Arthur. E a sua está prestes a chegar." Ele se afastou, permitindo que eles entrassem. "Mas antes de falarmos de contas, vamos falar de verdades. Verdades que foram suprimidas, enterradas sob mentiras e conveniências."

Eles seguiram Elias até uma sala que um dia fora um suntuoso salão de música. Agora, o piano de cauda estava desafinado e coberto de poeira, as partituras espalhadas pelo chão. Elias sentou-se em uma poltrona de veludo desbotado, gesticulando para que eles fizessem o mesmo.

"Você quer saber por que eu sumi, Arthur?", Elias perguntou, os olhos fixos em Arthur. "Você quer saber por que roubei a empresa, a fortuna, o nome?" Ele fez uma pausa, como se saboreasse o suspense. "Porque eu não roubei nada. Eu apenas recuperei o que era meu por direito."

Arthur franziu a testa, a incredulidade tomando conta de sua feição. "Seu por direito? Meu pai construiu aquela empresa do zero!"

"Seu pai era um homem ambicioso, Arthur. E um excelente manipulador", Elias retrucou, a voz fria como gelo. "Ele se aproveitou da minha ingenuidade, da minha juventude. Ele me roubou a ideia original, o capital inicial que ele herdou e que me devia. Ele me expulsou, me desacreditou, me fez parecer um traidor."

Luísa olhou de Arthur para Elias, sentindo o chão tremer sob seus pés. Era uma versão da história completamente diferente da que ela conhecia. As palavras de Elias tinham um peso, uma convicção que a fez questionar tudo o que achava que sabia.

"Meu pai era um homem honrado!", Arthur exclamou, a voz embargada pela raiva e pela dor. Ele não conseguia aceitar aquela versão dos fatos.

"Honrado?", Elias riu novamente, um som desprovido de qualquer alegria. "Seu pai era um lobo em pele de cordeiro. Ele me usou, me descartou e depois forjou a minha morte para encobrir seus rastros. Ele me obrigou a viver nas sombras por todos esses anos, longe de tudo e de todos."

Arthur sentiu um nó na garganta. A figura idealizada de seu pai, o homem que o ensinara sobre ética e honradez, parecia desmoronar diante de suas próprias convicções. Ele olhou para Luísa, buscando algum sinal de que aquilo era uma mentira elaborada, mas viu apenas a mesma perplexidade estampada em seu rosto.

"Por que agora, Elias?", Arthur perguntou, a voz mais baixa, cansada. "Por que voltar agora?"

Elias se inclinou para frente, seus olhos fixos nos de Arthur. "Porque seu avô, o grande patriarca, está prestes a ser esquecido. Seus segredos, suas manipulações, tudo está prestes a vir à tona. E eu não quero que o legado dele seja apenas de sucesso, mas também de justiça."

"Justiça?", Arthur repetiu, sem entender.

"Seu avô, meu irmão, me traiu e me roubou. Mas ele também fez outras coisas. Coisas que, se reveladas, destruiriam a imagem impecável que ele construiu. Ele usou a fortuna da família para fins escusos, investiu em negócios ilícitos, fez acordos com pessoas perigosas." Elias fez uma pausa, a respiração pesada. "Eu descobri tudo isso quando estava escondido. E juntei provas. Provas que, se usadas corretamente, podem não apenas limpar meu nome, mas também expor a verdade sobre a 'honradez' do seu avô."

Arthur sentiu o sangue gelar. A ideia de seu avô, o homem que ele tanto admirava, envolvido em atividades ilícitas, era algo que seu cérebro lutava para processar. "Isso é uma calúnia!"

"É a verdade, Arthur", Elias afirmou com convicção. "E eu tenho um plano. Um plano para expor tudo. Para trazer à luz as sombras que assombram os Montenegro. Mas preciso da sua ajuda."

A proposta pegou Arthur de surpresa. Ajudar Elias? O homem que ele acreditava ser seu inimigo? "Eu não entendo. Por que eu?"

"Porque você é um Montenegro. E porque, apesar de tudo, eu fui seu tio. E você tem a inteligência do seu pai, mas a coragem que ele perdeu ao longo do caminho. E você não se deixou corromper pela sede de poder que consumiu meu irmão." Elias olhou para Luísa. "E você, Luísa. Você é a bússola moral que ele precisa. A força que o manterá firme quando a escuridão tentar envolvê-lo."

Elias tirou uma pasta de couro antiga de debaixo da poltrona. "Aqui dentro, Arthur, estão os documentos. As provas. Os acordos, as contas, os nomes. A verdade sobre o seu avô e sobre mim. Eu não quero mais vingança. Eu quero justiça. E quero que o nome Montenegro seja limpo, não apenas pela fachada de sucesso, mas pela verdade."

Arthur olhou para a pasta, sentindo o peso das décadas de segredo que ela continha. Era uma encruzilhada em sua vida. Desacreditar Elias e continuar a defender a imagem manchada de seu avô, ou mergulhar na escuridão e descobrir a verdade, por mais dolorosa que fosse.

"Eu... preciso pensar", Arthur murmurou, a voz embargada. A confissão de Elias era um golpe em sua alma, um terremoto que abalava os alicerces de sua existência.

"Pense, Arthur", Elias disse, levantando-se. "Mas saiba que o tempo está correndo. E há outros que também estão de olho nos segredos dos Montenegro. Outros que não teriam as mesmas intenções de justiça." Ele lançou um olhar significativo para Arthur. "Seu avô fez muitos inimigos. E alguns deles estão prestes a retornar."

Ao saírem da casa sombria, a chuva já havia diminuído, mas o ar continuava carregado de uma umidade pesada. Arthur e Luísa entraram no carro em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos. A pasta de Elias jazia no banco de trás, um portal para um passado turbulento e um futuro incerto. A verdade, como Elias dissera, estava prestes a vir à tona, e Arthur sabia que nada jamais seria o mesmo. O jogo de sombras havia começado.

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