O Último Beijo III
Capítulo 18 — A Sombra dos Antigos Pactos e a Coragem de Escolher
por Camila Costa
Capítulo 18 — A Sombra dos Antigos Pactos e a Coragem de Escolher
O carro deslizou pela estrada rural, o som dos pneus molhados na asfalto era o único ruído a quebrar o silêncio denso que pairava entre Arthur e Luísa. A conversa com Elias Montenegro ainda ressoava em suas mentes, um eco perturbador que lançava uma nova luz sobre todo o seu passado. Arthur apertava o volante com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos. Em sua mente, imagens conflitantes se chocavam: o avô bondoso e justo que ele conhecia, e o homem sombrio e manipulador que Elias descrevera.
"Você acredita nele, Arthur?", Luísa perguntou, a voz suave, mas carregada de uma preocupação genuína. Ela sentia a batalha interna que seu amado travava, a fundação de suas crenças sendo abalada.
Arthur suspirou profundamente, o som carregado de exaustão. "Eu não sei, Luísa. Uma parte de mim quer acreditar no meu avô, na imagem que ele me passou. Mas a outra parte... a outra parte vê a convicção nos olhos de Elias. A dor que ele carrega há tantos anos. E aquela pasta..." Ele olhou para o banco de trás, onde a pasta de couro escura repousava como um segredo perigoso. "Tantas décadas de silêncio não podem ser apenas uma mentira bem contada."
"Seu avô sempre foi um homem de muitas facetas", Luísa ponderou, lembrando-se das histórias que ouvira sobre o patriarca dos Montenegro. "Um homem com uma visão de negócios implacável, que não hesitava em fazer o que fosse preciso para alcançar seus objetivos."
"Mas roubar e forjar a morte do próprio irmão? Isso vai além de qualquer ambição, Luísa. Isso é crueldade." Arthur sentiu uma onda de nojo de si mesmo por ter defendido, mesmo que internamente, a imagem de seu avô por tanto tempo. Ele havia sido cego pela admiração e pelo amor filial.
"Elias falou sobre outros que estão de olho nos segredos dos Montenegro", Luísa lembrou, um fio de preocupação em sua voz. "Quem seriam essas pessoas? Por que elas voltariam agora?"
"Meu avô fez muitos acordos obscuros ao longo de sua vida. Ele se envolveu com gente perigosa para expandir seus negócios, para se proteger. Elias mencionou isso. Talvez sejam credores antigos, sócios traídos, rivais que ele arruinou." Arthur balançou a cabeça. "Ainda não consigo conectar tudo. Mas se Elias estiver falando a verdade, o retorno dele pode ser o gatilho que vai desenterrar tudo isso."
Ao chegarem de volta à mansão, a atmosfera parecia ter mudado. As luzes acesas nos cômodos que antes estavam escuros, os movimentos discretos de funcionários que não pareciam pertencer ao staff habitual. A sensação de segurança que Arthur sempre sentiu naquele lugar havia desaparecido, substituída por uma vigilância sutil e desconfortável.
"Quem são essas pessoas, Arthur?", Luísa perguntou, a voz baixa. Ela sentia a mesma apreensão que Arthur. A mansão, antes um refúgio, agora parecia um palco montado para um drama que eles ainda não compreendiam completamente.
"Não sei", Arthur respondeu, a testa franzida. Ele agarrou a pasta de Elias com mais firmeza. "Mas vamos descobrir."
Eles entraram na sala de estar, onde o clima era de um silêncio tenso. Vários homens, vestidos com ternos escuros e de aparência austera, estavam reunidos, conversando em sussurros. Ao perceberem a chegada de Arthur e Luísa, todos os olhares se voltaram para eles. Um deles, um homem de feições duras e penetrantes, deu um passo à frente.
"Senhor Montenegro", ele disse, a voz grave e sem emoção. "Esperávamos por você."
Arthur ergueu uma sobrancelha, a postura defensiva. "Quem são vocês? E o que fazem na minha casa?"
O homem sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. "Somos... interessados. Interessados no legado de seu avô. E, mais especificamente, nos acordos que ele fez. Acordos que, ao que parece, não foram totalmente honrados."
Um arrepio percorreu a espinha de Arthur. Elias havia mencionado credores. Seriam eles? "Não sei do que estão falando."
"Oh, mas você sabe", o homem insistiu, dando mais um passo à frente. "Sabemos que Elias Montenegro está de volta. E sabemos que ele tem provas. Provas que, se caírem em mãos erradas, podem nos prejudicar severamente. Queremos essas provas, Senhor Montenegro. Queremos garantir que o passado fique enterrado."
A ousadia da afirmação os deixou sem palavras por um momento. Aqueles homens não eram apenas interessados, eram ameaçadores. E eles sabiam sobre Elias e as provas. A situação estava se complicando rapidamente.
Arthur sentiu uma onda de adrenalina. Não era medo, mas uma determinação fria. Ele olhou para Luísa, que permaneceu firme ao seu lado, os olhos fixos no homem à sua frente, sem demonstrar fraqueza. Ele sabia que precisava agir. Não como o homem que fora enganado por seu avô, mas como o líder que seu avô o havia preparado para ser.
"Esta é a minha casa", Arthur disse, a voz firme e autoritária. "E eu não vou entregar nada a vocês. Se há assuntos pendentes com o meu avô, vocês terão que lidar com eles de outra forma. Agora, peço que se retirem."
O homem riu, um som desagradável. "Você é jovem, Senhor Montenegro. E ingênuo. Acha que pode simplesmente nos dispensar? Nós investimos muito nesse legado. E não vamos sair de mãos vazias."
Ele fez um gesto discreto com a cabeça para seus homens, que começaram a se aproximar de Arthur e Luísa. Arthur se preparou para o confronto, sentindo a presença de Luísa ao seu lado, uma fonte de força inesperada.
Mas antes que a situação pudesse escalar, uma figura surgiu das sombras do corredor. Elias Montenegro. Ele estava mais bem vestido do que antes, mas os olhos ainda carregavam a mesma intensidade sombria.
"Eu disse para não subestimá-lo, Arthur", Elias disse, sua voz calma, mas com um timbre de autoridade que surpreendeu a todos. Ele se aproximou, parando a uma distância respeitosa dos homens de terno. "Mas parece que eles não me ouviram."
O homem que falara com Arthur se virou para Elias, a surpresa estampada em seu rosto. "Elias Montenegro. Pensei que estivesse morto."
"Uma mentira conveniente, não é?", Elias respondeu, um leve sorriso irônico brincando em seus lábios. "Mas as mentiras têm prazo de validade. E a de vocês está prestes a expirar." Ele olhou para Arthur. "Eu sabia que eles viriam atrás de você. Sabia que eles não poderiam ter deixado você em paz com tanto em jogo."
Arthur sentiu um misto de alívio e espanto. Elias estava ali, defendendo-o, defendendo a casa. Ele havia cumprido sua promessa.
"Elias", o homem de terno disse, a voz tensa. "Você tem o que queremos. Entregue as provas e talvez possamos esquecer que você voltou."
Elias riu. "Esquecer? Eu não vim para ser esquecido. Vim para ser lembrado. E para que todos saibam a verdade sobre o grande homem que vocês tanto admiravam e exploravam." Ele olhou para Arthur. "Arthur, esta é a hora. A hora de escolher. Defender a mentira ou abraçar a verdade. Defender o legado manchado ou construir um novo, baseado na justiça."
Arthur olhou para a pasta em suas mãos. Olhou para Elias, o tio que ele nunca conheceu, mas que agora se apresentava como um salvador inesperado. Olhou para Luísa, cujo olhar firme e confiante lhe dava a força que precisava. Ele sabia qual era a sua escolha.
"Eu escolho a verdade", Arthur declarou, a voz clara e ressonante. Ele se virou para os homens de terno. "E vocês não vão conseguir nada de mim. Nem de Elias."
O homem de terno deu um passo para trás, a raiva crescendo em seus olhos. "Você se arrependerá disso, Montenegro."
"Eu não me arrependerei de fazer o que é certo", Arthur respondeu, sentindo uma paz que não sentia há muito tempo. A batalha não estava ganha, mas a decisão crucial havia sido tomada. Ele e Elias estavam juntos contra as sombras que ameaçavam engolir a todos. O jogo de sombras havia ganhado um novo e inesperado jogador.