O Último Beijo III
Capítulo 5 — O Testemunho da Verdade e o Desabrochar da Resiliência
por Camila Costa
Capítulo 5 — O Testemunho da Verdade e o Desabrochar da Resiliência
O consultório do Dr. Matias Carvalho era um refúgio de calma e discrição, em um bairro arborizado e tranquilo do Rio de Janeiro. As paredes eram forradas de livros, e um aroma suave de lavanda pairava no ar, um convite à serenidade. Isabella, acompanhada por Clara, sentou-se em uma poltrona confortável, o coração batendo forte. A perspectiva de uma batalha legal em que a memória de Gabriel seria posta à prova era angustiante, mas a esperança de encontrar um aliado em Matias Carvalho a impulsionava.
Dr. Carvalho, um homem de meia-idade com olhos gentis e um semblante acolhedor, cumprimentou-os com um sorriso cordial. Ele possuía a aura de alguém que ouve muito e fala pouco, mas com sabedoria.
“Senhorita de Albuquerque, Clara. Agradeço por virem. Sei que este é um momento delicado”, disse ele, sua voz calma e ponderada. “Gabriel me procurou há alguns meses. Ele estava passando por um momento de reflexão profunda sobre o seu passado, e sobre o futuro que ele desejava construir.”
Isabella assentiu, incentivando-o a continuar. “Ele falou sobre mim, doutor?”
“Falo sobre você com uma frequência surpreendente em nossas sessões”, respondeu Matias, um leve sorriso em seus lábios. “Ele descrevia o seu amor por você com uma paixão avassaladora. Ele dizia que você era a razão pela qual ele via um futuro, a pessoa que o completava. Ele se sentia culpado por não ter dado o devido valor a ela antes, e ansiava por construir algo juntos que pudesse honrar esse amor.”
As palavras de Matias eram um bálsamo para a alma de Isabella. Era a confirmação do que ela sempre soube, mas que Sofia tentava, a todo custo, desacreditar.
“Ele mencionou alguma coisa sobre um acordo com a ex-esposa, Sofia Montenegro?”, perguntou Clara, sua voz profissional, mas com um tom de urgência.
Dr. Carvalho pensou por um instante, seus olhos fixos em um ponto distante, como se estivesse revivendo as memórias das conversas com Gabriel. “Ele mencionou que a separação de Sofia não foi amigável e que havia questões financeiras em aberto. Mas ele também deixou claro que os acordos que ele fez ou pretendia fazer com Sofia eram do passado. O futuro dele, ele dizia, pertencia a você, Isabella. E ele expressava um desejo forte de protegê-la, de garantir que você tivesse um futuro seguro e próspero, independente dele.”
“E a fundação? Ele chegou a falar sobre a criação de uma fundação em meu nome?”, perguntou Isabella, a esperança crescendo em seu peito.
“Sim, ele falou muito sobre isso”, confirmou Matias. “Ele acreditava que o legado dele não deveria ser apenas financeiro, mas também de impacto social. Ele admirava a sua paixão pelas artes e via em você a pessoa ideal para dar vida a um projeto que pudesse impulsionar novos talentos. Ele estava entusiasmado com a ideia de um centro cultural, de um espaço para promover a arte e a educação. Ele estava, de fato, pesquisando e planejando tudo. Ele expressou o desejo de que essa fundação levasse o seu nome, Isabella, como um símbolo do amor e da admiração que ele tinha por você.”
As lágrimas escorriam livremente pelo rosto de Isabella. Era a validação de tudo que ela sentia, de tudo que Gabriel havia lhe deixado. A presença do Dr. Carvalho, sua testemunha imparcial, era uma arma poderosa contra as alegações de Sofia.
“Ele sabia que eu poderia ter que lutar por isso?”, perguntou Isabella, sua voz embargada.
“Ele sabia que o mundo dos negócios, e as pessoas envolvidas, podiam ser implacáveis. Mas ele também sabia da sua força, Isabella. Ele me disse, certa vez: ‘Ela é a mulher mais resiliente que eu conheço. Se alguém pode honrar o meu desejo, mesmo diante de adversidades, é ela.’ Ele tinha uma fé inabalável em você.”
Clara pegou seu bloco de notas. “Doutor, seria possível para o senhor testemunhar em um eventual processo judicial? Confirmar essas conversas e a intenção do Senhor Montenegro?”
Dr. Carvalho olhou para Isabella, seus olhos cheios de compaixão e convicção. “Com certeza. A confidencialidade é sagrada, mas neste caso, trata-se de honrar a verdade e o desejo de um homem que já não está entre nós. Se meu testemunho puder ajudar a proteger a memória de Gabriel e o seu futuro, eu o farei com toda a convicção.”
Ao saírem do consultório do Dr. Carvalho, Isabella sentiu um peso considerável ter sido retirado de seus ombros. A batalha legal ainda seria árdua, mas agora ela tinha uma testemunha de peso, alguém que podia validar a autenticidade do amor de Gabriel e a pureza de suas intenções. A força que ela sentia vinha não apenas da sua própria resiliência, mas da certeza de que o amor que ela e Gabriel compartilharam era verdadeiro, e que esse amor, mesmo na ausência, ainda podia construir e proteger.
De volta ao seu apartamento, a luz do sol inundava a sala, dissipando as sombras que antes pairavam. Isabella olhou para a caixa de madeira, agora não mais um símbolo de perda, mas um farol de esperança. Ela pegou o diário de Gabriel e releu a última carta.
“Eu peço que você não se entregue à tristeza. Peço que honre o nosso amor não com o luto eterno, mas com a celebração da vida. Use o que eu deixei para você como um impulso. Reconstrua seu caminho, com a mesma paixão que me conquistou.”
As palavras de Gabriel ecoavam em sua mente, agora mais claras do que nunca. Ele a amava. Ele confiava nela. E ela não o decepcionaria. A fundação seria o seu legado, a sua forma de manter vivo o espírito de Gabriel e de espalhar a beleza e a inspiração que ele tanto admirava. Sofia Montenegro poderia ter seus advogados e suas artimanhas, mas Isabella tinha a verdade, o amor e a força de um homem que a inspirou a ser a mulher que ela era hoje. A guerra ainda não havia acabado, mas Isabella sentia, pela primeira vez em muito tempo, que a paz estava ao seu alcance. E que, com Gabriel em seu coração, ela era capaz de superar qualquer obstáculo. O último beijo, afinal, não havia sido o fim, mas sim o início de uma nova história.