O Último Beijo III
Capítulo 7 — A Armadilha da Vingança e o Coração Ferido
por Camila Costa
Capítulo 7 — A Armadilha da Vingança e o Coração Ferido
A euforia do reencontro com Rafael, o alívio de ter a verdade finalmente revelada, tudo isso parecia um sonho distante no dia seguinte. A luz do sol que entrava pela janela do quarto de hotel em Paraty trazia consigo a realidade palpável de que, embora o passado estivesse se esclarecendo, o presente ainda guardava suas armadilhas. Clara sentia o abraço de Rafael ainda em sua pele, a promessa de um futuro brilhante em seu coração, mas a sombra de Victor e da sua crueldade pairava sobre eles.
Naquela manhã, um chamado urgente ecoou do celular de Rafael. Era o seu advogado, o Dr. Almeida, com notícias que seriam um balde de água fria na empolgação recente. Rafael saiu para atender, e Clara o observou partir, um pressentimento sombrio se instalando em sua alma. A conversa, que ele ouvia com o semblante cada vez mais fechado, não durou muito. Ele retornou para o quarto com uma expressão de preocupação que ofuscou a alegria da noite anterior.
"O que foi, Rafael?" Clara perguntou, aproximando-se dele.
Ele respirou fundo, a testa franzida. "Victor... ele não está mais na cadeia. Alguém pagou a fiança. E não foi qualquer um. Foi um dos sócios minoritários da minha empresa, um tal de Sr. Andrade. Ele tem um histórico de negócios obscuros, Clara. E agora, com Victor solto, as coisas podem ficar perigosas."
Clara sentiu um arrepio de medo percorrer sua espinha. A ideia de Victor, solto e possivelmente com novas estratégias para causar o mal, era aterrorizante. "Mas... ele não pode se aproximar de nós, pode? O Dr. Almeida garantiu que as provas são suficientes para incriminá-lo definitivamente."
"Garantir, sim. Mas Victor é um homem perigoso, Clara. Ele é movido pela raiva e pela vingança. Se ele sabe que nós nos reconciliamos, que a verdade está prestes a vir à tona, ele fará de tudo para nos impedir. E o Sr. Andrade... ele pode estar agindo para proteger seus próprios interesses, ou talvez ele seja cúmplice de Victor desde o início." Rafael pegou as mãos dela, seus olhos transmitindo uma preocupação genuína. "Precisamos ser cuidadosos. Precisamos ter certeza de que você está segura."
Clara tentou sorrir para tranquilizá-lo, mas a inquietação era visível em seu olhar. "Eu estou com você, Rafael. Onde você for, eu irei. Não tenho mais medo." Era uma afirmação corajosa, mas a verdade é que o fantasma de Victor, agora mais livre e mais implacável, a assustava profundamente.
Decidiram retornar para São Paulo no dia seguinte. A atmosfera de Paraty, antes tão romântica, agora parecia carregada de uma tensão subjacente. Durante a viagem de volta, o silêncio no carro era pontuado por breves trocas de olhares e pela constante preocupação que emanava de Rafael. Ele tentava manter a conversa leve, falando sobre planos futuros, sobre a reconstrução da empresa, mas a urgência de garantir a segurança de Clara era palpável em cada palavra.
Ao chegarem à capital, a primeira providência foi reforçar a segurança. Rafael contratou guardas para ficarem 24 horas por dia em seu apartamento, e para Clara, ele insistiu em um motorista particular e em medidas de segurança mais rigorosas. Clara, embora compreendesse a necessidade, sentia-se como um pássaro engaiolado. Ela ansiava por voltar à sua rotina, por retomar a vida que lhe fora roubada, mas a ameaça iminente a impedia de respirar livremente.
Victor, por outro lado, estava furioso. A liberdade que ele achava que havia comprado era amarga. Ele se sentia humilhado pela própria prisão e pela forma como seus planos haviam sido descobertos. O Sr. Andrade, um homem frio e calculista, o recebeu em um escritório luxuoso em um dos prédios mais altos da cidade.
"Você me custou caro, Victor," Andrade disse, a voz calma, mas com um tom de ameaça velada. "Espero que você saiba o que está fazendo. Rafael se aproximou demais da verdade. E se ele conseguir provar tudo, nós dois estaremos em apuros."
Victor deu uma risada seca e amarga. "Apuros? Você fala de apuros? Eu perdi tudo por causa daquela mulher e da interferência dele! Clara... ela me custará muito mais do que dinheiro. Ela vai pagar por ter destruído meus planos. E Rafael... ele vai pagar por ter voltado." Seus olhos brilhavam com uma malícia que assustou até mesmo Andrade.
"Cuidado com o que você deseja, Victor. A sua obsessão por Clara já te trouxe problemas antes. Não a torne o centro do seu plano de vingança novamente. Concentre-se em Rafael e em se livrar dele. Mas de forma limpa. Sem escândalos. Eu não quero que meu nome seja associado a nada que possa nos prejudicar."
"Limpa? Eu não sei o que é 'limpo', Sr. Andrade. Eu só sei que eu vou reconquistar o que é meu. E quem estiver no meu caminho... será removido." Victor deu um sorriso cruel. "Eu tenho um plano. Um plano que Clara nunca irá prever. E Rafael... ele vai se arrepender de ter voltado."
Nos dias seguintes, a tensão aumentou. Clara sentia-se constantemente observada. Pequenos incidentes, que antes passariam despercebidos, agora ganhavam um significado sinistro. Um carro desconhecido estacionado por horas na rua de seu prédio, um telefonema mudo, um pacote que chegou com remetente apagado. Rafael estava cada vez mais preocupado, mas Clara, em sua determinação em não se deixar abater, tentava manter a calma.
"Eu não posso viver com medo, Rafael," ela disse em uma noite, enquanto jantavam em casa, sob a vigília constante dos seguranças. "Eu quero voltar ao trabalho, quero ver meus amigos, quero ter uma vida normal. Se Victor me tirar isso, ele terá vencido."
"E é exatamente isso que ele quer, meu amor," Rafael respondeu, segurando a mão dela sobre a mesa. "Ele quer te ver presa, amedrontada. Mas eu não vou permitir. O Dr. Almeida está trabalhando incansavelmente. Em breve, Victor será preso novamente, e desta vez, ele não sairá mais. Precisamos apenas ter um pouco mais de paciência."
Contudo, a paciência de Clara estava se esgotando. Ela sentia a necessidade de agir, de não apenas esperar ser protegida. A força que ela havia descoberto durante a luta pela herança, a resiliência que a permitira superar tantas adversidades, clamava por ação.
Uma noite, Clara recebeu um convite inesperado. Era de uma antiga colega de faculdade, Sofia, com quem ela havia perdido o contato há anos. O convite era para uma exposição de arte que Sofia estava organizando em uma galeria no centro da cidade. A descrição do evento parecia tentadora, uma oportunidade de se reconectar com o mundo artístico que ela tanto amava.
"Tem certeza que quer ir, Clara?" Rafael perguntou, ao ver o convite. Ele estava desconfiado. A súbita aparição da antiga amiga, logo após a soltura de Victor, parecia conveniente demais.
"Por que não? Sofia é uma amiga antiga. E eu preciso sair um pouco, respirar. Além do mais, a galeria é um local público, com bastante movimento. Não vejo como isso poderia ser perigoso." Clara tentava soar confiante, mas a dúvida pairava em seus olhos.
Rafael cedeu, mas com relutância. Ele aumentou a segurança em torno dela, designando um guarda para acompanhá-la discretamente. Ele sabia que Clara era forte, mas também sabia que Victor era um mestre em manipular situações e pessoas. Ele temia que aquele convite fosse apenas mais uma peça no tabuleiro da vingança de Victor.
Na noite da exposição, Clara chegou à galeria, deslumbrante em um vestido vermelho vibrante. A festa estava animada, com pessoas conversando, apreciando as obras de arte, com música suave ao fundo. Sofia a recebeu com um abraço caloroso.
"Clara, que bom que você veio! Eu sinto tanto por tudo que você passou. Mas fico tão feliz em te ver de volta, tão linda e radiante."
"Sofia, é bom te ver também. Eu sinto sua falta." Clara tentava disfarçar a ansiedade, mas a presença constante do segurança, embora discreto, a deixava desconfortável.
Enquanto conversavam, Clara notou uma figura familiar observando-a de longe. Era Victor. Ele estava acompanhado de uma mulher desconhecida, um sorriso arrogante estampado em seu rosto. O olhar que ele lançava a Clara era carregado de uma possessividade doentia, uma promessa de tormento. O coração de Clara disparou. A exposição, que deveria ser um momento de lazer, transformou-se em um palco de tensão e medo. O encontro sob o luar de jasmim parecia um sonho distante, e a escuridão da vingança de Victor começava a se aproximar, mais perigosa do que nunca.