Paixão Transbordante II

Paixão Transbordante II

por Ana Clara Ferreira

Paixão Transbordante II

Autor: Ana Clara Ferreira

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Capítulo 6 — O Véu da Mentira e a Coragem Despedaçada

A noite desabou sobre a cidade como um manto pesado, tingido de mágoa e incerteza. Clara mal conseguia respirar no silêncio ensurdecedor do seu apartamento. A voz de Ricardo ainda ecoava em sua mente, cada palavra um golpe cruel que a deixava sem ar. O perfume dele, antes inebriante e promessa de eternidade, agora pairava no ar como uma lembrança amarga, uma ironia cruel do destino. A tela em branco na sua frente, antes um convite à criação, agora parecia zombar dela, uma tela vazia refletindo o vazio que se instalara em seu peito.

Ela se levantou, os passos hesitantes a levaram até a janela. As luzes da cidade piscavam lá embaixo, um mar de esperanças e desilusões que pareciam tão distantes e, ao mesmo tempo, tão próximas da sua própria dor. As lágrimas escorriam sem controle, traçando caminhos quentes em seu rosto, misturando-se à tinta que, ironicamente, adornava suas mãos. A arte, que sempre fora seu refúgio, seu grito de alma, agora parecia impotente diante da realidade devastadora.

“Como ele pôde?”, sussurrou, a voz embargada. A imagem de Ricardo, com seus olhos que juravam amor eterno, se misturava à lembrança da mulher que vira em seu reflexo no estúdio. A mentira era um veneno que se infiltrava em cada célula, contaminando as memórias, tingindo de falsidade os momentos que antes julgava sagrados. Cada sorriso, cada carícia, cada declaração de amor agora pareciam fragmentos de uma peça teatral bem ensaiada, e ela, a plateia ingênua, aplaudira a farsa.

O telefone tocou, estridente, tirando-a de seu torpor. Com as mãos trêmulas, atendeu.

“Clara? Meu amor, onde você está? Eu tentei te ligar o dia todo.” Era Sofia, a voz carregada de preocupação.

Clara tentou formular uma resposta, mas as palavras se perderam em soluços. Ela não podia falar, não ainda. Precisava de tempo para juntar os cacos de sua alma antes de expor sua ferida.

“Clara? O que aconteceu? Você está bem?” A urgência na voz de Sofia aumentou.

“Eu… eu não estou bem, Sofia”, conseguiu dizer, a voz embargada. “Preciso… preciso de um tempo. Um tempo para mim.”

“Clara, me diga o que está acontecendo! Você sumiu, não atende as ligações…”

“Eu não posso falar agora, Sofia. Por favor, entenda.”

Um silêncio pesado pairou na linha. Clara podia sentir a angústia de Sofia do outro lado, a preocupação genuína que, em outro momento, teria sido um bálsamo. Mas agora, tudo parecia uma grande e dolorosa ironia.

“Tudo bem, Clara. Se você precisar de mim, é só me chamar. Mas por favor, se cuide.” A voz de Sofia, embora resignada, carregava um amor inabalável.

“Obrigada, Sofia.” Clara desligou, sentindo-se ainda mais sozinha.

Ela se sentou no chão frio, abraçando os joelhos. A imagem de Ricardo se projetava em sua mente, mais vívida do que nunca. O jeito que ele a olhava, a paixão em seus beijos, as promessas sussurradas ao pé do ouvido… tudo era uma grande mentira? E aquela mulher? Quem era ela? Uma amante? Uma esposa? O nó em sua garganta se apertava a cada pergunta sem resposta.

A arte, seu grande amor, a única que nunca a traiu, parecia tão distante agora. Ela se sentia sem inspiração, sem força, sem vontade de pegar um pincel. A tela branca a encarava, vazia, sem vida, assim como ela se sentia. O estúdio, antes um santuário, agora parecia um mausoléu de seus sonhos.

Horas se passaram em um borrão de dor e questionamentos. A madrugada avançou, trazendo consigo um frio que parecia congelar sua alma. Ela se levantou novamente, impulsionada por uma necessidade irrefreável de ação. Precisava fugir, precisava se perder, precisava apagar a dor. Mas onde? Como?

De repente, uma ideia, frágil como um fio de teia, surgiu em sua mente. Uma viagem. Uma fuga. Para longe de tudo, de todos, e principalmente, de Ricardo.

Ela pegou sua bolsa, o coração apertado, mas com uma determinação fria se instalando em seu interior. Precisava de um tempo para respirar, para se reencontrar, para talvez, um dia, entender o que tinha acontecido. As malas foram feitas em um frenesi, sem pensar muito no que levava. Roupas, alguns materiais de arte, o essencial. A urgência era palpável.

Ao sair do prédio, o ar frio da madrugada a atingiu, mas ela não sentiu o frio. Sentia apenas a urgência de partir. Dirigiu sem rumo por algum tempo, as luzes da cidade se tornando um borrão indistinto. O destino final ainda era incerto, mas a direção era clara: para longe.

Enquanto dirigia, a paisagem urbana deu lugar a estradas mais tranquilas, pontilhadas por pequenas cidades adormecidas. A aurora começava a pintar o céu com tons de rosa e laranja, um espetáculo de beleza que, em outro momento, teria tocado sua alma de artista. Mas hoje, a beleza era dolorosa, um contraste cruel com a escuridão que a envolvia.

Ela parou em um pequeno posto de gasolina, o único vestígio de vida na estrada deserta. O atendente, um senhor de semblante cansado, a olhou com curiosidade.

“Vai longe, moça?”, perguntou, com um sotaque carregado.

Clara apenas sorriu fracamente. “Não sei ainda. Só preciso seguir em frente.”

Ela abasteceu o carro e comprou um café forte, o calor do copo aquecendo suas mãos frias. Sentou-se em um banco de madeira precário, observando a natureza despertar. A paz daquele lugar era tentadora, mas a inquietação em seu peito a impedia de encontrar repouso.

A verdade sobre Ricardo era um buraco negro que ameaçava engolir tudo. As perguntas se multiplicavam, cada uma mais dolorosa que a outra. Seria ela apenas uma distração? Uma aventura passageira? E a mulher que ele chamava de “esposa”? O peso dessa palavra a atingiu como um soco no estômago.

Ela se levantou, a decisão tomada. Precisava de um lugar onde a arte pudesse ser sua única companhia, onde pudesse se perder em cores e formas e esquecer, por um tempo, a dor da traição. Um lugar isolado, com a natureza como testemunha de sua reconstrução.

A viagem continuou, quilômetro após quilômetro, cada um um passo para longe da dor, mas também um passo para o desconhecido. Clara não sabia o que encontraria, mas sabia que não podia mais ficar. A paixão que um dia a consumiu agora se transformava em um vazio doloroso, uma ferida aberta que precisava de tempo para cicatrizar. O véu da mentira de Ricardo a havia deixado despedaçada, mas em meio aos pedaços, uma nova força começava a despontar. A força da sobrevivência, a força da arte, a força de Clara.

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