Rendida a ele III

Rendida a Ele III

por Camila Costa

Rendida a Ele III

Capítulo 1 — O Regresso Inesperado

O ar de Trancoso já não era o mesmo. Havia nele um cheiro de maresia misturado a um perfume de jasmim que, outrora, trazia a ela uma paz profunda, agora, parecia zumbir com uma melancolia persistente. Helena se debruçou na varanda de madeira envelhecida da sua casa, a brisa salgada que lhe beijava a pele parecia sussurrar lembranças indesejadas. Fazia cinco anos. Cinco longos anos desde a última vez que vira aquele sorriso, a intensidade daquele olhar que a desarmava por completo. Cinco anos desde que sentiu o calor daquele abraço que, em sua memória, ainda a envolvia com a força de um furacão.

A vida, essa tecelã implacável de destinos, havia lhe dado voltas que ela jamais esperara. O luto pela perda do pai, a reestruturação da pousada que ele tanto amava e, mais recentemente, a notícia de que Miguel… Miguel estava de volta. A notícia chegara como um raio em céu azul, espalhando-se pelos boatos da vila, pelas fofocas dos pescadores e, finalmente, pelas palavras hesitantes de Dona Clara, a vizinha de longa data, que a abordara na feira de artesanato com o rosto marcado pela surpresa. "Helena, meu amor, você soube? O Miguel voltou. Chegou ontem, disseram que está hospedado naquela mansão antiga, a do alto da falésia."

A mansão antiga. A casa que pertencia à família dele, um casarão colonial decadente que servia como um fantasma de um passado glorioso. Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele havia partido sem dizer adeus, sem um aviso, sem uma explicação. Apenas um bilhete deixado sobre a mesa da cozinha, com a caligrafia elegante que ela conhecia tão bem, dizendo que precisava resolver "assuntos urgentes" e que voltaria em breve. A "breve" se estendeu por anos. Anos em que ela lutou contra a dor, contra a saudade, contra a raiva que, por vezes, a consumia.

Ela fechou os olhos, tentando afastar a imagem dele. Miguel era um turbilhão de emoções, uma força da natureza que a atraíra para si com uma intensidade avassaladora. Era o filho do fazendeiro mais influente da região, um homem de negócios ambicioso, com olhos de um azul profundo e um porte que impunha respeito. E ela, Helena, a filha do dono da pousada mais charmosa de Trancoso, apaixonada pela simplicidade da vida, pela arte, pela tranquilidade daquela vila. A união deles parecera, para muitos, improvável. Para eles, era o destino.

O sino da porta tocou, tirando-a de seus devaneios. Era a Dinda, sua babá e confidente, uma mulher de sabedoria ancestral e ombro sempre presente. Dona Alzira entrou com o cheiro característico de ervas e bolo de fubá, o sorriso acolhedor que sempre a confortava.

"Minha flor, ainda por aqui? O sol já está alto e você aí, parecendo uma estátua." Dona Alzira a abraçou, o corpo robusto e o cheiro de cravo e canela a envolvendo.

"Oi, Dinda. Só… pensando." Helena suspirou, o peso do mundo nos ombros.

"Pensando no quê, minha menina? Em como colocar mais flores na varanda? Ou em como o Miguel voltou?" A pergunta de Dona Alzira foi direta, mas o tom carregava a preocupação de quem a conhecia como a palma da sua mão.

Helena se encolheu um pouco. "Você… você já o viu?"

"Vi de longe, minha flor. Lá na praça, conversando com o prefeito. Ele não mudou nada. O mesmo porte, o mesmo jeito que chama a atenção. Mas os olhos… parecem mais sombrios, sabe?" Dona Alzira sentou-se em uma das cadeiras de vime, servindo-se de um café forte. "Mas isso não é assunto nosso, Helena. O que importa é você. Como você está se sentindo com essa novidade?"

"Não sei, Dinda. É como se… como se um fantasma tivesse voltado para assombrar a minha vida. Um fantasma que eu tentei enterrar tão fundo quanto pude." A voz de Helena embargou. As lembranças eram avassaladoras. Os dias que passaram juntos, as conversas sob o céu estrelado, os beijos roubados na praia deserta. Tudo viera à tona com uma força brutal.

"Fantasmas a gente não enterra, minha flor. A gente aprende a conviver com eles, ou a mandar eles embora de vez. E você, Helena, tem uma força que poucos conhecem. Não deixe que ele te desestabilize." Dona Alzira segurou a mão dela. "Você construiu sua vida. A pousada está linda, você tem seus amigos, sua paz. Não deixe que a volta dele mude isso."

"Mas e se… e se ele vier atrás de mim, Dinda? E se ele quiser… conversar?" A pergunta pairou no ar, carregada de uma incerteza que a afligia profundamente.

"Então você o escuta. E você diz tudo o que guardou dentro de si por esses cinco anos. E depois, você o manda embora. Definitivamente." Dona Alzira a olhou nos olhos, a determinação em seu olhar transmitindo a força que Helena precisava. "Você não é mais a menina que ele deixou para trás, Helena. Você é uma mulher forte, dona do seu destino."

Helena assentiu, mas o nó em sua garganta não se desfez. O regresso de Miguel era um turbilhão em potencial, uma tempestade que ameaçava varrer a calmaria que ela tanto lutou para construir. E lá, no alto da falésia, a mansão sombria parecia observá-la, guardando os segredos de um homem que, apesar de tudo, ainda ocupava um espaço significativo em seu coração.

Enquanto isso, na mansão que pairava sobre o Atlântico, Miguel observava a imensidão azul à sua frente. O cheiro salgado do mar, que ele tanto sentia falta, agora parecia carregar um peso diferente. Trancoso. Tantas memórias, tantas promessas quebradas. Ele havia partido com a promessa de um retorno, de um futuro construído juntos. Mas a vida, cruel e imprevisível, lhe impôs um desvio que o afastou de tudo e de todos que amava.

O bilhete. Aquele bilhete deixado na cozinha de Helena era a única explicação, uma explicação incompleta que ele sabia que a machucaria. Ele não tinha outra opção. A ameaça que pairava sobre sua família, os negócios escusos que o cercavam, tudo o forçou a desaparecer, a cortar laços para protegê-la. E agora, de volta, a preocupação maior não era com os fantasmas do passado, mas com a dor que ele causara a Helena.

Seus olhos percorreram a linha do horizonte, buscando, quase que inconscientemente, um vislumbre da pousada de seu pai. Ele sabia que Helena estaria lá. A alma de Trancoso, guardiã das tradições e da beleza singela daquele lugar. Ele a imaginou, forte, resiliente, talvez com um sorriso que ele não via há muito tempo.

"Miguel? Já está aí fora? Veio admirar a vista ou a arquitetura decadente desta casa?" A voz rouca de seu tio, Dr. Armando, soou atrás dele. Armando era um homem de poucas palavras, um advogado frio e calculista, que sempre representou a face mais sombria da família.

Miguel se virou, um leve sorriso irônico nos lábios. "Um pouco dos dois, tio. Afinal, é o meu lar, não é?"

"Um lar que você abandonou por cinco anos. E agora volta como se nada tivesse acontecido." Armando se aproximou, seus olhos escuros fixos em Miguel. "Alguma notícia do que fomos buscar?"

Miguel suspirou, o peso daquela "busca" recaindo sobre seus ombros. "Ainda não. A tarefa é mais complexa do que imaginávamos. Mas estamos perto." Ele não deu detalhes. Armando não precisava saber de tudo.

"Espero que sim. Porque o tempo está se esgotando. E o risco que corremos é imenso." Armando pousou uma mão no ombro de Miguel, um gesto que não transmitia afeto, mas sim uma advertência. "E você, meu caro sobrinho, precisa se concentrar. Sem distrações. Nem com o passado, nem com… pessoas do passado."

O olhar de Miguel se fixou em Armando. Ele sabia a que o tio se referia. Helena. A lembrança dela, a visão de sua casa à distância, tudo isso poderia ser considerado uma "distração". Mas para Miguel, Helena não era uma distração. Era o motivo. O motivo pelo qual ele lutava, o motivo pelo qual ele precisava voltar e consertar tudo.

"Eu sei o que fazer, tio." A voz de Miguel era firme. Ele não cederia. Não deixaria que o passado o definisse, mas também não deixaria que ele o separasse de Helena para sempre.

Ele voltou a olhar para o mar, a brisa salgada beijando seu rosto. Trancoso. Ele estava de volta. E desta vez, ele não iria embora sem antes resgatar o que lhe era de direito. E o que lhe era de direito, ele sabia, era Helena.

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