Rendida a ele III
Capítulo 17 — O Confronto na Chuva
por Camila Costa
Capítulo 17 — O Confronto na Chuva
O céu desabou em prantos sobre São Paulo, as gotas grossas e frias batendo contra o para-brisa do carro de Sofia como um coro fúnebre. Cada gota parecia carregar o peso de suas lágrimas, de sua decepção, de sua raiva. Ela dirigia com a urgência de quem foge de um incêndio, ou melhor, de quem corre em direção a ele. A carta de seu pai, amassada em seu punho, era um lembrete constante da teia de enganos em que se encontrava. Ricardo. A palavra ecoava em sua mente, um misto de amor e dor. Ele estava envolvido com Marina, a mulher que havia arruinado sua família, a mulher que agora ameaçava roubar o homem que ela amava.
Os semáforos vermelhos pareciam zombar de sua pressa, cada parada prolongada uma tortura a mais. Ela visualizava o rosto de Ricardo, a confusão em seus olhos na noite anterior, a hesitação em suas palavras. Ele havia dito que amava Sofia, que queria um futuro com ela. Mas como isso era possível se ele estava ligado a Marina? A verdade revelada na carta de seu pai era um golpe profundo, mas também um catalisador. Ela não podia mais viver na incerteza, no medo. Precisava de respostas diretas, sem rodeios, sem as meias palavras que só aprofundavam o abismo entre eles.
Chegou ao prédio onde Ricardo morava, o coração disparado contra as costelas. Estacionou o carro sob a marquise, o som da chuva abafando o barulho da cidade. Respirou fundo, buscando coragem na escuridão molhada. Desceu do carro, o vestido elegante rapidamente encharcado, os cabelos grudando em seu rosto. O porteiro, um senhor de semblante cansado, a olhou com surpresa.
"Senhorita Sofia? O que faz aqui a esta hora e nesta chuva?"
"Preciso falar com o Ricardo, Sr. Almeida. É urgente", disse Sofia, a voz embargada pela emoção e pelo frio.
O porteiro hesitou por um instante, como se soubesse que algo estava errado. "Ele está em casa. Mas…"
"Por favor, Sr. Almeida", implorou Sofia, os olhos suplicantes. "É muito importante."
Ele suspirou e discou o número do apartamento. Minutos depois, Sofia estava no elevador, subindo em direção ao desconhecido. Cada andar que passava aumentava a tensão em seu peito. O que ela diria? Como ele reagiria? A carta de seu pai era a prova irrefutável de Marina, mas e Ricardo? O que ele sabia?
A porta se abriu com um clique suave. Ricardo estava ali, a surpresa estampada em seu rosto. Ele usava uma camisa de dormir, os cabelos levemente despenteados, um ar de cansaço em seus olhos. O ambiente era acolhedor, um reflexo de sua vida, contrastando dolorosamente com o caos que Sofia sentia por dentro.
"Sofia? O que você está fazendo aqui? Você está molhada!" Ele deu um passo à frente, preocupado.
Sofia deu um passo para trás, um gesto involuntário de distanciamento. A proximidade dele, a forma como ele se preocupava, a tornava ainda mais vulnerável.
"Eu preciso falar com você, Ricardo."
Ele a convidou a entrar, mas Sofia permaneceu na soleira da porta, a chuva ainda escorrendo por ela. "Não. Aqui não. A gente precisa ir para outro lugar."
Ricardo franziu a testa, a preocupação se misturando com a apreensão. "O que está acontecendo, Sofia? Você parece… assustada."
"Eu estou. E estou furiosa." Ela ergueu a carta, o papel encharcado e frágil. "Eu encontrei isso no escritório do meu pai."
Os olhos de Ricardo fixaram-se na carta, e um lampejo de reconhecimento, misturado a algo que Sofia não conseguiu decifrar, cruzou seu olhar. Ele tentou disfarçar, mas Sofia percebeu. Aquele era o mesmo olhar de hesitação da noite anterior.
"Eu não entendo", disse ele, a voz soando distante.
"Ah, você entende sim, Ricardo! Ou você vai fingir que não entende?" A voz de Sofia começou a tremer. "Você sabia. Sabia quem a Marina era. Sabia o que ela fez com a minha família!"
Ricardo suspirou, passando a mão pelos cabelos. Ele parecia aliviado e derrotado ao mesmo tempo. "Sofia, por favor, vamos conversar lá dentro."
"Não!", ela gritou, a voz ecoando no corredor. "Eu não quero mais fugir da verdade! Seu segredo, o segredo do meu pai… tudo isso está ligado a ela! A mulher que arruinou nossas vidas e que agora você insiste em proteger!"
"Proteger? Eu não estou protegendo ninguém, Sofia! Eu estou tentando consertar as coisas!" A voz de Ricardo ganhou um tom de desespero.
"Consertar? Como você pode consertar algo que você ajudou a quebrar? Você sabia, Ricardo! Você sabia que ela estava envolvida com meu pai, com as dívidas dele, com tudo!"
As lágrimas de Sofia agora se misturavam à chuva em seu rosto. A dor da traição era insuportável. A traição não apenas de Marina, mas também de Ricardo, que, mesmo amando-a, mantivera segredos que a machucavam profundamente.
"Eu… eu não sabia de tudo, Sofia. Eu soube depois. E tentei te contar, mas você estava tão machucada, tão cega pela raiva…"
"Cega pela raiva? Eu estava cega pela confiança que depositava em você! E você me traiu!"
A discussão escalava, as vozes ganhando força no silêncio da noite chuvosa. Vizinhos começaram a espiar pelas portas entreabertas. Ricardo, percebendo a exposição, agarrou o braço de Sofia delicadamente.
"Por favor, Sofia. Vamos para dentro. A gente precisa conversar, mas não aqui."
"Não me toque!", ela o afastou com força. "Eu não quero mais ouvir suas desculpas! Eu te amei, Ricardo. Amei mais do que tudo. Mas você… você é igual a todos eles. Cheio de segredos, de mentiras."
Com o coração partido, Sofia se virou e correu de volta para o elevador, sem olhar para trás. As lágrimas embaçavam sua visão, a chuva a envolvia como um abraço frio. Ela não sabia para onde ir, o que fazer. A única certeza era a dor lancinante em seu peito e a amarga constatação de que o amor que ela sentia era unilateral, construído sobre uma base de mentiras.
Ricardo observou-a ir, a impotência pintada em seu rosto. Ele queria correr atrás dela, implorar por uma chance de explicar, mas sabia que as palavras já não eram suficientes. A chuva continuava a cair, lavando as ruas de São Paulo, mas não conseguia apagar a mágoa que acabara de se instalar no coração de Sofia, e nem a culpa que pesava sobre Ricardo. Ele havia perdido a confiança dela, e talvez, perdido a ela para sempre. A verdade, por mais dolorosa que fosse, havia finalmente vindo à tona, mas trouxera consigo a destruição de tudo o que eles haviam construído. A esperança, outrora tão vívida, parecia agora uma chama frágil a se apagar sob a implacável chuva da realidade.