Rendida a ele III
Capítulo 18 — A Sombra do Passado em Nova York
por Camila Costa
Capítulo 18 — A Sombra do Passado em Nova York
Nova York respirava um ar diferente. Elegante, cosmopolita, com um ritmo frenético que tentava, em vão, apagar as memórias de São Paulo. Marina sentia o frio do outono americano em sua pele, mas o verdadeiro gelo estava em seu coração. A cada passo que dava pelas ruas movimentadas de Manhattan, a sombra de seu passado a perseguia, lembrando-a de seus planos, de suas conquistas e de suas perdas. E agora, a notícia de que Ricardo estava envolvido com Sofia, a filha do homem que ela havia, a seu modo, arruinado, era um incômodo a mais.
Ela estava ali por um motivo específico, um motivo que a impulsionava a manter a compostura, a ser implacável. Os negócios que seu pai deixou para trás eram vastos, complexos, e exigiam sua atenção total. Mas a notícia de Sofia, e do envolvimento de Ricardo com ela, adicionava uma camada de complexidade que Marina não desejava. Ela havia elaborado meticulosamente seu retorno ao Brasil, seu reencontro com Ricardo, um plano para recuperar o que acreditava ser seu por direito. Sofia era um obstáculo, e Ricardo… Ricardo era uma ferramenta.
Em seu luxuoso apartamento com vista para o Central Park, Marina analisava relatórios financeiros, seus olhos frios percorrendo números e projeções. A ambição que a consumia era antiga, um legado de seu pai, que a ensinou desde cedo que o poder e o dinheiro eram as únicas coisas que importavam. A fragilidade de Sofia, sua ingenuidade, eram pontos fracos que Marina sabia explorar. E Ricardo, com sua beleza e seu charme, era um peão valioso em seu jogo.
Ela tomou um gole de seu vinho tinto, o sabor amargo ecoando em sua boca. Lembrou-se de sua juventude, das humilhações, das promessas não cumpridas. A vida a ensinara a não confiar em ninguém, a depender apenas de si mesma. E agora, com as informações que tinha sobre a situação financeira da família de Sofia, e sobre as conexões de Ricardo com o passado de seu pai, ela se sentia no controle.
Um telefonema interrompeu seus pensamentos. Era um de seus contatos no Brasil, um homem que a informava sobre os últimos acontecimentos. Marina atendeu, sua voz calma e controlada.
"Alô?"
"Marina, é o Sérgio. Tenho novidades do Brasil."
"O que aconteceu? Aconteceu algo com o Ricardo?"
"Não exatamente. Mas a filha do seu… conhecido, o Sr. Monteiro, descobriu algo. Parece que ela encontrou uma carta. A carta que seu pai deixou."
Marina sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas manteve a voz firme. "Uma carta? O que dizia essa carta?"
"Pelo que consegui apurar, ela fala sobre a ruína da empresa, sobre você. Parece que ela sabe de tudo, ou quase tudo."
Os olhos de Marina se estreitaram. Uma carta. Aquela carta que seu pai havia escrito anos atrás, temendo o pior, mas que ela pensava ter destruído. A imprudência de sua própria obra. Ela deveria ter sido mais cuidadosa.
"E o Ricardo? Ele sabe que ela descobriu?"
"Ele parece estar envolvido. A vizinhança ouviu uma discussão forte entre ele e a Sofia. Parece que a coisa vai ficar feia."
Um sorriso discreto surgiu nos lábios de Marina. A briga entre Ricardo e Sofia era exatamente o que ela precisava. A discórdia entre eles, a desconfiança, criariam a brecha perfeita para ela agir.
"Ótimo", disse Marina, com um tom de satisfação contida. "Continue me informando. Quero saber cada passo que eles derem."
Desligou o telefone, seus pensamentos correndo em outra direção. A descoberta da carta era um contratempo, mas não um impedimento. Ela sempre foi boa em se adaptar, em encontrar novas saídas. Ricardo era a chave. Ele precisava se afastar de Sofia, e ela seria a única a lhe oferecer o consolo, a compreensão, o refúgio que ele acreditaria precisar.
Ela se levantou e caminhou até a janela, observando a imensidão de Nova York. As luzes cintilantes da cidade pareciam um convite para um novo começo, um novo capítulo em sua história. A história de Marina não terminaria na sombra da ruína. Ela ascenderia, mais forte do que nunca. E se Sofia e Ricardo eram obstáculos em seu caminho, ela os removeria. Sem hesitação.
O que ela não esperava era que, em meio à sua meticulosa estratégia, um sentimento inesperado começasse a brotar. Uma lembrança fugaz de sua própria juventude, de um tempo em que ela também acreditou no amor, antes que a vida a forçasse a endurecer. Uma lembrança que ela rapidamente reprimiu. O passado era um lugar perigoso, e Marina não tinha tempo para sentimentalismos. Ela tinha uma guerra a vencer.
Ela pegou seu notebook, abrindo um arquivo secreto. Ali, guardava informações cruciais sobre Ricardo, seus negócios, suas fraquezas. E ela sabia exatamente como usá-las. A chuva em Nova York continuava, um véu sobre a cidade, assim como a escuridão que se adensava sobre a vida de Sofia. Mas Marina estava pronta para jogar seu jogo, e desta vez, ela não perderia. A partida havia apenas começado.