Rendida a ele III
Capítulo 19 — O Isolamento de Sofia
por Camila Costa
Capítulo 19 — O Isolamento de Sofia
O apartamento de Sofia em São Paulo tornara-se um refúgio e uma prisão. O silêncio, antes reconfortante, agora ecoava com a ausência de Ricardo, com a dor da revelação. A chuva lá fora havia cessado, mas uma tempestade interna continuava a rugir em sua alma. A carta de seu pai, agora seca e cuidadosamente dobrada, repousava sobre a mesinha de centro, um lembrete constante da verdade que a havia desestabilizado.
Ela se sentia isolada, ferida. A confiança em Ricardo havia sido abalada de tal forma que qualquer tentativa de aproximação parecia um passo em falso, uma armadilha. Ele havia tentado ligar inúmeras vezes, enviado mensagens, mas Sofia não conseguia responder. Como poderia? As palavras dele, mesmo que sinceras, soavam vazias diante da gravidade dos segredos que ele havia guardado.
Seus amigos tentaram alcançá-la. Laura ligou várias vezes, preocupada. "Sofia, você precisa conversar. Não guarde isso para você. Ele te machucou, eu sei, mas ficar sozinha não vai resolver nada."
"Não é tão simples, Laura", respondia Sofia, a voz fraca. "Eu o amava. Acreditava nele. E ele sabia. Sabia o que a Marina fez, e ainda assim… ele me manteve no escuro."
"Mas ele disse que tentou te explicar, que tentou consertar as coisas. Talvez ele realmente se importe."
"Importar não é o suficiente quando se trata de mentiras, Laura. E o pior é que ele sabia sobre meu pai. Sabia que o papai foi manipulado, e não me disse nada. Isso dói mais do que a traição da Marina."
A ideia de que Ricardo pudesse estar agindo em conluio com Marina, ou pelo menos ciente de seus planos de uma forma que Sofia não compreendia totalmente, era um veneno lento que corroía sua esperança. Ela se recordava dos olhares que trocavam, das promessas de um futuro juntos. Agora, tudo parecia uma grande encenação.
Ela passava os dias vagando pelo apartamento, o olhar perdido, remexendo em fotos antigas, em lembranças de uma felicidade que parecia pertencer a outra vida. Cada canto da casa trazia uma memória dele: o sofá onde assistiram a filmes juntos, a cozinha onde ele a surpreendera com um café da manhã especial, a varanda onde trocaram seu primeiro beijo sob as estrelas.
Uma tarde, enquanto folheava um álbum de fotos, encontrou uma imagem de seu pai sorrindo, ao lado de Ricardo, em um evento de caridade anos atrás. Pareciam tão próximos, tão confiantes. A ironia era cruel. Seu pai confiara em Ricardo, e ela também. E ambos foram, de certa forma, traídos.
A solidão começou a pesar em seus ombros. Ela sentia falta da risada dele, da segurança de seus braços, do calor de seu abraço. Mas o medo de ser enganada novamente era maior. Ela temia a dor, o desapontamento. E, acima de tudo, temia a verdade sobre a extensão do envolvimento de Ricardo com Marina.
Seu celular tocou novamente. Era Ricardo. Dessa vez, Sofia sentiu um impulso. Talvez fosse hora de ouvir. Talvez ele tivesse uma explicação que pudesse, pelo menos, aliviar um pouco a dor.
Ela atendeu, a voz hesitante. "Alô?"
"Sofia, graças a Deus você atendeu. Eu… eu preciso que você me escute. Por favor. Só mais uma vez."
"Ricardo, eu não sei se consigo", disse ela, a voz embargada. "Você me machucou muito."
"Eu sei. E eu sinto muito. Mais do que você pode imaginar. Mas tudo o que aconteceu… não foi como você pensa. Marina… ela é mais perigosa do que imaginamos. E eu… eu estava tentando proteger você. Tentar consertar o estrago que ela fez, sem que você se envolvesse mais nisso."
Sofia fechou os olhos, a cabeça girando. Proteger? Ou apenas adiar o inevitável? Ela se lembrava da carta de seu pai, da confissão de sua fragilidade diante de Marina. Ricardo sabia disso? Ele sabia do poder de manipulação dela?
"Se você estava tentando me proteger, por que não me contou a verdade desde o início?", questionou ela, a voz ganhando um tom de desespero.
"Porque eu te amo, Sofia. E te ver sofrer mais do que já sofreu… eu não suportaria. Eu pensei que poderia resolver tudo sozinho. Um erro estúpido, eu sei. Um erro que me custou você."
Um silêncio pairou entre eles, preenchido apenas pelo som distante do tráfego de São Paulo. Sofia sentiu o nó em sua garganta se apertar. Ela queria acreditar nele. Queria acreditar que o amor deles era forte o suficiente para superar tudo isso. Mas as feridas eram profundas.
"Eu preciso de tempo, Ricardo", disse ela, finalmente. "Preciso pensar. Preciso entender tudo isso."
"Eu entendo", respondeu ele, a voz carregada de tristeza. "Mas não me abandone, Sofia. Por favor. Não me deixe sozinho com essa escuridão."
Sofia desligou o telefone, sentindo-se ainda mais perdida do que antes. A promessa de Ricardo de "proteger" soava vazia, mas a dor em sua voz era real. Ela estava dividida entre a raiva pela traição e o amor persistente que sentia por ele.
O isolamento, antes um escudo, agora se tornava um fardo. Ela percebeu que não poderia enfrentar Marina, nem desvendar todos os segredos, sozinha. Precisava de ajuda. Precisava de alguém em quem confiar. E, apesar de tudo, Ricardo era a única pessoa que, ela suspeitava, realmente a entendia, e estava disposto a lutar ao seu lado. Mas será que ele era a solução ou parte do problema? A incerteza era um fantasma que a assombraria, prendendo-a em um labirinto de emoções conflitantes, sem a menor ideia de como encontrar a saída.