Rendida a ele III
Rendida a Ele III
por Camila Costa
Rendida a Ele III
Capítulo 6 — Sussurros na Madrugada
A brisa morna da noite acariciava o rosto de Isabella, trazendo consigo o perfume inebriante das acácias que ladeavam a estrada que a levava para casa. O som dos pneus no asfalto era um murmúrio familiar, quase um lullaby, mas a serenidade que ele costumava evocar estava ausente. Em seu lugar, um turbilhão de pensamentos e sensações a consumia, tudo girando em torno de um par de olhos azuis profundos e um sorriso que prometia o paraíso e o inferno, tudo ao mesmo tempo.
Mateus. O nome ecoava em sua mente como um mantra secreto, um convite tentador e perigoso. Desde o último encontro, desde aquele beijo roubado sob o céu estrelado do Rio de Janeiro, uma corrente elétrica ininterrupta parecia ligá-los. Era como se cada toque, cada olhar trocado, tivesse acendido uma chama que agora ardia com uma intensidade que a assustava e a fascinava.
Dirigir para casa era um ritual, uma forma de se reconectar com a normalidade, com a vida que ela havia construído com tanto cuidado. Mas hoje, a normalidade parecia distante, desbotada, um cenário sem cor diante da vibrante tapeçaria que seus encontros com Mateus haviam pintado em sua alma. Ela se lembrava do calor de sua pele contra a sua, da forma como ele a segurou, como se temesse perdê-la a qualquer momento. E o mais perturbador: ela se lembrava de ter desejado que ele não a soltasse.
Chegou à sua casa, um casarão charmoso e acolhedor em um bairro arborizado da Zona Sul. O silêncio da casa contrastava com o barulho em seu peito. Descalçou os saltos, sentindo o alívio imediato, e caminhou descalça pela sala de estar, tocando os móveis, as fotografias. Uma imagem dela e de Ricardo, sorrindo felizes em uma festa de gala, chamou sua atenção. Ricardo. O homem que ela amara, que a pedira em casamento, e que, de forma tão cruel, a havia traído. A lembrança doía, mas já não era uma ferida aberta. A dor, agora, era uma cicatriz que, em dias como hoje, parecia pulsar com uma nova intensidade, um lembrete de que, apesar de tudo, ela ainda era capaz de sentir.
Subiu para o quarto, o coração ainda acelerado. O vestido preto que usava parecia um segunda pele, elegante e discreto, mas sob ele, seu corpo clamava por algo mais. O ar-condicionado soprava um ar fresco, mas ela sentia o calor subir por suas bochechas. Abriu o guarda-roupa, a escuridão acolhendora, e pegou um roupão de seda azul-marinho. A textura lisa e fria deslizou sobre sua pele, um conforto momentâneo.
Sentou-se à beira da cama, a luz suave do abajur projetando sombras longas no quarto. Pegou o celular, o impulso de discar o número dele quase irresistível. Mas ela resistiu. Precisava de clareza. Precisava entender o que estava acontecendo. Mateus era um enigma, uma mistura perigosa de ternura e intensidade. Ele a desarmava com um olhar, a envolvia com palavras que pareciam vir diretamente da alma. E ela, que se julgava tão forte, tão controlada, sentia-se cada vez mais rendida à sua presença.
O que ele via nela? Ela era uma mulher marcada pelo tempo e pelas decepções. Havia uma melancolia em seus olhos, uma reserva em seus gestos, que ela pensava ser transparente. Mas Mateus parecia enxergar além. Ele via a mulher que ela lutava para ser, a mulher que anseia por um amor puro e avassalador, o tipo de amor que ela apenas lia nos livros ou via nos filmes.
De repente, seu celular vibrou na mesinha de cabeceira. Seu coração deu um salto. A tela iluminou-se com o nome dele: Mateus. Um arrepio percorreu sua espinha. Hesitou por um instante, a mão pairando sobre o aparelho. Respirou fundo e atendeu.
"Alô?", sua voz saiu mais rouca do que pretendia.
"Isabella", a voz dele, profunda e aveludada, soou do outro lado da linha, como um bálsamo. "Não consegui dormir. Pensei em você."
O coração dela acelerou ainda mais. A simplicidade daquelas palavras a atingiu com força. "Eu também", ela confessou, a voz embargada. "Não consigo parar de pensar em você."
Um silêncio confortável se instalou entre eles, preenchido apenas pelo som das respirações.
"Sabe", Mateus disse, a voz agora mais baixa, quase um sussurro, "há algo em você, Isabella, que me prende de uma forma que eu nunca experimentei antes. É como se eu tivesse esperado a vida toda por você."
As palavras dele eram um veneno doce, derramando-se em sua alma. Ela fechou os olhos, tentando absorver a magnitude daquelas declarações. Eram sinceras? Ou apenas a arte de um sedutor experiente? Mas algo em sua voz, na hesitação, na ternura contida, a fazia acreditar.
"E você, Mateus?", ela perguntou, a voz mal audível. "O que você vê em mim?"
Ele riu, um som baixo e rouco que a fez estremecer. "Eu vejo uma mulher forte, Isabella. Uma mulher que já sofreu, mas que ainda carrega a esperança em seus olhos. Vejo uma alma linda, que anseia por ser amada, por amar. Vejo você."
Uma lágrima solitária escapou de seus olhos, deslizando suavemente por sua bochecha. Ela não a enxugou. Sentia-se exposta, vulnerável, mas, pela primeira vez em muito tempo, sentia-se vista.
"Eu... eu não sei o que dizer", ela murmurou, a voz embargada pela emoção.
"Não diga nada", ele respondeu gentilmente. "Apenas sinta. Sinta o que está entre nós. Eu sinto. Sinto algo tão forte que me assusta, mas ao mesmo tempo, me faz querer mergulhar de cabeça."
"É perigoso, Mateus", ela alertou, mais para si mesma do que para ele.
"O amor verdadeiro sempre é um pouco perigoso, não é?", ele retrucou, a voz carregada de uma convicção que a fez suspirar. "Mas o risco de não tentar, de não viver algo tão intenso, é muito maior."
Conversaram por mais um tempo, as palavras fluindo com uma facilidade surpreendente. Compartilharam fragmentos de suas vidas, medos e anseios mais profundos. Era como se uma barreira invisível que os separava tivesse sido pulverizada, revelando a essência de seus seres.
Ao final da conversa, um silêncio mais profundo, mas agora repleto de promessas tácitas, pairou no ar.
"Preciso ir", Mateus disse, a voz com um tom de relutância. "Mas não quero que você vá embora da minha mente."
"Eu não vou", Isabella sussurrou, fechando os olhos. "Você também não vai sair da minha."
A ligação terminou. Isabella permaneceu sentada na cama, o celular ainda em suas mãos, sentindo o calor residual do aparelho. O quarto parecia mais iluminado, mais vibrante. O perfume das acácias ainda pairava no ar, mas agora trazia consigo a fragrância masculina de Mateus, uma mistura de couro e algo indescritível, que a deixava tonta.
Ela sabia que estava se arriscando. Sabia que estava se abrindo para a possibilidade de mais uma dor. Mas pela primeira vez em muito tempo, a esperança superava o medo. Os sussurros na madrugada haviam plantado uma semente em seu coração, uma semente de amor, de desejo, de um futuro incerto, mas incrivelmente tentador. E ela, rendida à força daquele sentimento, estava pronta para regá-la. A noite era jovem, e o despertar de seus sentimentos era apenas o começo.