Rendida a ele
Capítulo 13 — A Rede se Aperta
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 13 — A Rede se Aperta
A fuga do galpão foi desesperadora. Cada sombra parecia esconder uma ameaça, cada som era um alerta de perigo iminente. Marcos, com uma agilidade surpreendente, me puxava para longe, desviando de obstáculos, seus olhos perscrutando cada canto, antecipando os passos dos nossos perseguidores. Seu Antônio, tremendo de medo, nos seguia de perto, o caderno valioso escondido sob a camisa.
Finalmente, alcançamos o carro de Marcos, escondido em uma rua escura e deserta. O motor rugiu, e ele acelerou bruscamente, deixando para trás a escuridão do galpão e os ecos dos gritos. O silêncio tenso dentro do carro era quebrado apenas pela respiração ofegante de nós três.
Seu Antônio estava em choque, suas mãos ainda cobrindo o peito como se tentasse conter o coração prestes a saltar para fora. “Eu… eu pensei que fosse o fim”, ele murmurou, os olhos arregalados.
“Você foi corajoso, Seu Antônio”, disse Marcos, sua voz calma, mas firme, tentando tranquilizá-lo. “Você fez a coisa certa.”
Eu olhei para o caderno em minhas mãos, um objeto insignificante em aparência, mas de um valor inestimável. Era a prova que faltava, a confirmação irrefutável da ganância e crueldade de Roberto. Senti uma onda de gratidão por aquele homem assustado que, apesar do medo, decidiu fazer a coisa certa.
“Precisamos levá-lo para um lugar seguro”, eu disse, meu olhar encontrando o de Marcos. “E depois, vamos expor o Roberto.”
Marcos assentiu. “Eu tenho um lugar. Um refúgio discreto. Ninguém vai nos encontrar lá.”
Ele dirigiu por mais de uma hora, pelas estradas sinuosas que levavam para fora da cidade, em direção a uma região mais isolada. O sol começava a despontar no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e rosa, um espetáculo de beleza contrastante com a escuridão que ainda nos envolvia.
O refúgio era uma pequena casa de campo, escondida em meio a uma floresta densa. Era rústica, mas aconchegante, e emanava uma sensação de paz que eu não sentia há muito tempo. Marcos explicou que era uma propriedade que ele usava para se afastar do estresse da cidade, um lugar onde poucos sabiam de sua existência.
Seu Antônio foi acomodado em um quarto, ainda assustado, mas mais aliviado por estar fora de perigo. Eu e Marcos nos sentamos na varanda, observando a névoa que pairava sobre as árvores. A adrenalina da fuga ainda pulsava em minhas veias, mas a exaustão começava a tomar conta.
“Você acha que Roberto sabe quem é Seu Antônio?”, perguntei, a preocupação crescendo em meu peito.
“É provável que sim. Ele deve ter percebido que Seu Antônio está do nosso lado. Por isso a urgência de encontrá-lo.” Marcos suspirou, passando a mão pelos cabelos. “Isso complica as coisas. Ele vai se tornar ainda mais agressivo.”
“Mas agora temos a prova definitiva”, eu disse, batendo suavemente no caderno. “Com isso, não há como ele escapar.”
Houve um momento de silêncio. A tensão do perigo tinha diminuído, mas a tensão entre nós dois parecia aumentar. Eu podia sentir o olhar de Marcos sobre mim, e meu coração começou a acelerar. A noite anterior, a fuga, o medo, tudo isso parecia ter estreitado os laços entre nós, mas também tinha intensificado a atração que eu tentava ignorar.
“Sofia…”, ele começou, sua voz rouca. “Sobre o que aconteceu… e sobre o que sentimos…”
Eu desviei o olhar, encarando a paisagem exuberante. “Marcos, não podemos nos distrair agora. Temos uma missão. Precisamos tirar Roberto do caminho, precisamos fazer justiça pelos meus pais.”
Ele se aproximou, parando em frente a mim. Ergueu meu rosto com os dedos, seus olhos fixos nos meus. Havia uma profundidade ali que me desarmava, uma mistura de desejo e preocupação que me fazia querer me render.
“Eu sei. E eu vou te ajudar. Mas não posso fingir que o que eu sinto por você é apenas uma distração. Desde o momento em que te conheci, algo em mim mudou.”
Meu coração deu um pulo. Eu queria dizer que sentia o mesmo, que a presença dele era um farol em meio à escuridão, mas o medo me impedia. Medo de me entregar, medo de me machucar ainda mais.
“Estamos em uma situação perigosa, Marcos”, eu sussurrei. “Precisamos ter cuidado.”
Ele sorriu, um sorriso triste. “Cuidado é o que temos tido. Talvez seja hora de… arriscar um pouco.”
Ele se inclinou, e por um instante, pensei que ele fosse me beijar. Mas ele apenas encostou a testa na minha, fechando os olhos. “Precisamos confiar um no outro, Sofia. Mais do que nunca.”
Naquela manhã, enquanto o sol banhava a floresta com sua luz dourada, recebi uma ligação. Era meu advogado. Ele me informou que Roberto havia entrado com uma ação contra mim, alegando difamação e difamação à sua imagem.
Um arrepio de raiva me percorreu. Ele era audacioso, sem escrúpulos. Tentar me silenciar judicialmente, quando ele era o verdadeiro criminoso.
“Ele está jogando sujo”, eu disse a Marcos, a voz tensa. “Mas não vai funcionar.”
“Não vai”, ele concordou, seu olhar determinado. “Temos as provas. A ação dele só acelera o nosso plano.”
Decidimos que era hora de agir. Com o caderno de Seu Antônio em mãos e as provas reunidas por Marcos, era o momento de expor Roberto ao mundo. Marcos contatou um jornalista investigativo de confiança, um amigo de longa data que já havia desvendado outros escândalos de corrupção.
O jornalista, intrigado e determinado, concordou em nos encontrar em um local seguro e discreto para receber as provas. O encontro foi marcado para a noite seguinte, em um restaurante pouco frequentado na zona portuária. A atmosfera era carregada de expectativa e perigo.
Enquanto esperávamos o jornalista chegar, sentados em uma mesa nos fundos, o celular de Marcos vibrou. Era uma mensagem anônima.
“Eu sei o que vocês têm. E sei onde estão. Entreguem tudo, ou as consequências serão terríveis.”
Um calafrio tomou conta de mim. Roberto não estava brincando. Ele era implacável.
“Ele nos rastreou”, disse Marcos, o rosto pálido.
No mesmo instante, as luzes do restaurante se apagaram, mergulhando tudo na escuridão. Ouvimos o som de portas se abrindo, vozes rudes e o tilintar de armas.
“Droga!”, Marcos praguejou, me puxando para baixo da mesa. “Eles invadiram o restaurante!”
A rede de Roberto estava se apertando ao nosso redor. A justiça, que parecia tão próxima, agora estava ameaçada por um perigo iminente. A vingança, que ardia em meu peito, precisava ser mais forte do que nunca para superar essa nova e perigosa armadilha.
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