Cap. 6 / 25

Rendida a ele

Rendida a Ele

por Ana Clara Ferreira

Rendida a Ele

Autor: Ana Clara Ferreira

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Capítulo 6 — O Segredo Sussurrado no Vento

O sol da tarde pintava o ateliê de Helena com tons dourados, transformando as partículas de pó em um espetáculo cintilante. O cheiro de madeira recém-lixada e o aroma adocicado de verniz pairavam no ar, um perfume familiar que sempre acalmava sua alma inquieta. Mas naquele dia, a paz que normalmente encontrava entre suas criações estava obscurecida por uma nuvem de incertezas. A imagem de Rafael, com seus olhos profundos e a promessa silenciosa que neles residia, não saía de seus pensamentos.

Ela debruçava-se sobre uma nova peça, uma mesa de centro esculpida em jacarandá, cujas linhas orgânicas buscavam imitar o movimento das ondas. Suas mãos, habilidosas e calejadas pelo trabalho, deslizavam sobre a superfície polida, mas sua mente vagava. Lembrava-se do toque dele, da eletricidade que percorreu seu corpo quando seus dedos se encontraram acidentalmente. E, mais intensamente, da conversa que tiveram na noite anterior, à luz bruxuleante das velas na varanda.

"Helena", a voz de Rafael ainda ecoava em sua memória, carregada de uma emoção que a fez estremecer. "Há coisas que não te contei. Coisas que o meu passado carrega e que podem afetar o nosso futuro."

Ela suspirou, pousando a lixa sobre a bancada. A tempestade interior que ela pensava ter domado há anos parecia querer ressurgir, alimentada pelas sombras que pairavam sobre Rafael e seu passado misterioso. Havia algo em sua melancolia, em sua cautela, que falava de dores antigas, de feridas ainda abertas. E, por mais que a razão lhe dissesse para se afastar, para se proteger, seu coração, teimoso e impulsivo, ansiava por se aproximar, por desvendar os segredos que ele guardava.

"Ele está sofrendo", pensou, observando um filete de luz que atravessava a janela e iluminava um pedaço de madeira crua. "E eu… eu não sei se consigo ser a âncora que ele precisa, ou se serei apenas mais uma tempestade em sua vida."

Um ruído discreto na porta a fez sobressaltar. Era Dona Lurdes, a zeladora do prédio, uma mulher de cabelos brancos como a neve e um sorriso que podia derreter qualquer coração gelado.

"Minha filha, vejo que está mergulhada no trabalho, como sempre", disse Dona Lurdes, carregando uma bandeja com um pequeno bule de chá e duas xícaras. "Um chazinho para espantar o cansaço."

Helena sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto. Dona Lurdes era uma presença constante em sua vida, um porto seguro em meio às incertezas.

"Obrigada, Dona Lurdes. A senhora sempre sabe o que fazer para me animar."

Enquanto Dona Lurdes servia o chá, seus olhos experientes a observavam com uma ternura peculiar. "Vejo um brilho diferente em seus olhos ultimamente, Helena. Um brilho que me lembra o meu saudoso marido quando a vi pela primeira vez."

Helena sentiu um rubor subir por seu pescoço. "Dona Lurdes, o senhor Rafael é apenas um cliente… um cliente que tem me trazido muitos desafios, mas nada mais."

A zeladora deu uma risadinha suave, que parecia um tilintar de sinos. "Ah, minha filha. O coração não sabe de 'apenas clientes'. Ele sabe de batidas, de sussurros, de olhares que se demoram. E eu vejo esses sussurros em você." Ela piscou um olho. "E no rapaz também. Ele não desgruda os olhos de você, é impressionante."

O coração de Helena disparou. Seria possível que seus sentimentos fossem tão evidentes assim? Ela tentou disfarçar, bebendo o chá rapidamente. "Ele é um homem complexo, Dona Lurdes. E eu… eu não quero me envolver em nada que possa me machucar novamente." A menção ao seu passado, à sua última decepção amorosa, trouxe um aperto no peito.

"O amor é um risco, minha filha. Sempre foi. Mas o amor que vale a pena, esse risco ele nos faz querer correr. E às vezes, os homens mais complexos são aqueles que têm mais a oferecer, quando se abrem de verdade." Dona Lurdes pousou a mão sobre a de Helena, um toque leve, mas reconfortante. "Confie no seu instinto. E confie no que os seus olhos veem. Se há algo bonito ali, não deixe que o medo o impeça de florescer."

As palavras de Dona Lurdes ressoaram profundamente em Helena. Ela olhou para a porta do ateliê, onde Rafael deveria estar chegando em breve para discutir os detalhes da próxima etapa do projeto da galeria. A ansiedade misturava-se com uma esperança tênue. Ela sabia que precisava conversar com ele, saber o que o afligia.

Quando o carro de Rafael parou em frente ao prédio, Helena sentiu um frio na barriga. Ele desceu, impecável como sempre, com seu sorriso reservado que parecia esconder um universo de emoções. Ao vê-lo, algo dentro dela se moveu, uma força antiga que lutava contra a prudência.

"Boa tarde, Helena", disse ele, sua voz grave e melodiosa. "Pronta para o nosso próximo desafio?"

Helena encontrou seu olhar, sentindo-se exposta, mas também curiosa. "Sempre, Rafael. Mas antes de falarmos de desafios profissionais, eu gostaria de saber se você está bem."

Rafael hesitou por um instante, um leve franzir de suas sobrancelhas. Ele parecia surpreso com a pergunta direta, talvez até um pouco desconcertado. "Eu estou bem, Helena. Por que a pergunta?"

Ela deu um passo à frente, sentindo a coragem subir em suas veias. "Porque ontem à noite, você disse que havia coisas que não me contou. E eu… eu percebo que há uma melancolia em você, um peso que você carrega."

Ele a observou, seus olhos azuis intensos perscrutando sua alma. Um silêncio pesado se instalou entre eles, apenas quebrado pelo murmúrio distante do trânsito. Helena prendeu a respiração, aguardando sua resposta. Ela esperava que ele se fechasse, que desviasse o assunto, como tantos outros haviam feito em seu passado. Mas, para sua surpresa, ele deu um pequeno sorriso, quase imperceptível.

"Você é muito observadora, Helena", disse ele, sua voz um pouco mais baixa. "Talvez mais do que eu gostaria." Ele olhou para os lados, certificando-se de que não havia ninguém por perto. "Precisamos conversar. Mas não aqui." Ele fez uma pausa, e então acrescentou, com um tom de urgência velada. "Venha comigo. Há um lugar que quero te mostrar."

Uma mistura de apreensão e excitação tomou conta de Helena. O que ele planejava? Para onde ele a levaria? Mas a necessidade de saber, de desvendar o homem por trás da fachada de empresário bem-sucedido, era mais forte.

"Para onde?", perguntou ela, sua voz mal passando de um sussurro.

Rafael estendeu a mão em sua direção, um convite silencioso. "Para um lugar onde o passado e o presente se encontram. E onde as verdades, por mais difíceis que sejam, podem ser contadas."

Helena olhou para a mão estendida, para o olhar dele, que agora parecia menos reservado e mais vulnerável. A melancolia que ela notara estava ali, sim, mas também havia uma determinação, um anseio por alívio. Respirando fundo, ela colocou sua mão na dele. O toque era firme, e novamente, uma corrente elétrica a percorreu. Ela sentiu, naquele instante, que estava prestes a adentrar um território desconhecido, um território que poderia mudar o curso de sua vida. E, de alguma forma, ela se sentia estranhamente pronta para se render a ele.

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