Cap. 7 / 25

Rendida a ele

Capítulo 7 — A Casa do Rio e as Memórias Roubadas

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 7 — A Casa do Rio e as Memórias Roubadas

O carro de Rafael deslizou suavemente pelas estradas sinuosas que levavam para fora da cidade. O sol já começava a se pôr, tingindo o céu com tons alaranjados e rosados, um espetáculo que Helena admirava em silêncio. Ela observava a paisagem mudar, as construções urbanas dando lugar a campos verdes e árvores frondosas. O silêncio entre eles não era constrangedor, mas sim carregado de expectativa. Rafael dirigia com uma concentração intensa, suas mãos firmes no volante, enquanto Helena, ao seu lado, sentia o coração bater mais rápido a cada quilômetro percorrido.

Finalmente, o carro parou em frente a um portão de ferro trabalhado, que se abria para um longo caminho ladeado por ipês floridos. A casa que se avistava ao longe era antiga, de arquitetura colonial, com varandas amplas e janelas que refletiam a luz moribunda do dia. Uma aura de paz e de história emanava do lugar.

"Onde estamos, Rafael?", perguntou Helena, seus olhos arregalados de admiração.

"Bem-vinda à minha casa de infância, Helena", respondeu ele, desligando o motor. "Ou, pelo menos, o que restou dela." Havia uma nota de tristeza em sua voz que chamou a atenção de Helena.

Eles desceram do carro e Rafael a guiou pela alameda. O ar era fresco, perfumado por flores e pela terra úmida. Um rio calmo corria nas proximidades, e o som suave de suas águas era a única melodia que quebrava o silêncio. Ao se aproximarem, Helena pôde ver que a casa, apesar de sua beleza intrínseca, parecia abandonada, como se o tempo tivesse parado para ela.

"O que aconteceu?", Helena não conseguiu conter a pergunta.

Rafael suspirou, um som pesado que parecia carregar anos de dor. "Minha família possuía esta propriedade há gerações. Era um lugar de muitas memórias, de risadas e de amor. Mas as coisas mudaram. A tragédia, como sempre, tem o seu jeito de aparecer quando menos esperamos." Ele parou por um instante, olhando para as janelas escuras da casa. "Eu era um menino quando perdi meus pais em um acidente de carro, aqui perto. Minha avó ficou sozinha e, com o tempo, a casa foi se deteriorando. Eu vinha pouco, era difícil. Cada canto me lembrava deles."

Helena sentiu uma pontada de compaixão. Era um peso imenso para um jovem carregar. Ela sabia, pela sua própria experiência, como a perda podia moldar uma pessoa.

"Sinto muito, Rafael."

Ele assentiu, um movimento quase imperceptível. "Obrigado, Helena." Ele abriu a porta da casa, que rangeu em protesto. O interior estava empoeirado, os móveis cobertos por lençóis brancos, como fantasmas silenciosos. A luz que entrava pelas janelas era fraca, criando um jogo de sombras nas paredes.

"Não venho aqui há anos", disse ele, sua voz embargada. "Resolvi que era hora de encarar o passado. E… eu queria que você viesse comigo." Ele se virou para ela, seus olhos buscando os dela. "Talvez você possa me ajudar a ver este lugar com outros olhos. Os seus olhos."

Helena sentiu a responsabilidade pesar sobre seus ombros, mas também uma necessidade genuína de estar ali por ele. Ela começou a andar pela casa, tocando nos objetos cobertos, sentindo a textura dos tecidos, imaginando a vida que um dia existiu ali. Havia um piano antigo em uma sala de estar, um gramofone empoeirado, fotografias em preto e branco emolduradas, todas com olhares que pareciam congelados no tempo.

Enquanto exploravam a casa, Rafael começou a contar histórias. Histórias de sua infância, de brincadeiras no jardim, de tardes passadas com seus pais à beira do rio. A cada relato, Helena via um pouco mais do homem por trás do empresário calculista. Ele falava de sua mãe com uma ternura que a emocionava, descrevendo seu riso contagiante e seu amor pela música.

"Ela amava tocar piano", disse ele, parando diante do instrumento antigo. "Passava horas aqui. Eu costumava sentar ao lado dela e ouvir. Era a música que embalava os meus sonhos."

Helena se aproximou do piano, com cuidado. A tampa estava pesada, mas ela a abriu. As teclas estavam amareladas, mas quando ela tocou uma delas, um som suave e melancólico ecoou pela sala. Rafael fechou os olhos, absorvendo a melodia.

"É bonito", disse ele, com a voz embargada. "Eu deveria ter aprendido a tocar."

"Nunca é tarde para aprender", Helena respondeu, um sorriso gentil em seus lábios.

Eles continuaram a exploração, chegando a um pequeno escritório no andar de cima. Havia uma escrivaninha de madeira maciça, com papéis espalhados, como se alguém tivesse saído apressadamente. Rafael pegou um dos papéis, um desenho a lápis de uma flor.

"Isso era da minha mãe", disse ele, olhando para o desenho com uma expressão de dor. "Ela adorava desenhar. Eu me lembro dela sentada aqui, desenhando por horas. Ela sempre dizia que a arte era a maneira de a alma se expressar sem palavras."

Helena observou a delicadeza do traço, a precisão dos detalhes. Era um trabalho belíssimo. Ela se perguntou se havia herdado essa veia artística de sua mãe.

"Você tem o dom da arte em seu sangue, Rafael", disse ela, tocando levemente o desenho. "Sua mãe teria se orgulhado muito de você."

Rafael a olhou, seus olhos azuis brilhando com uma emoção contida. "Você acha?"

"Tenho certeza", respondeu Helena. "E eu também me orgulho de ver como você está enfrentando tudo isso. É preciso muita coragem para revisitar o passado dessa forma."

Ele deu um passo à frente, aproximando-se dela. O ar entre eles ficou mais denso, carregado de uma tensão que ambos sentiam. A luz fraca do escritório criava um ambiente íntimo, quase surreal.

"Helena", ele começou, sua voz soando rouca. "Eu trouxe você aqui porque… porque eu preciso te contar a verdade. A verdade sobre por que eu te procurei. Sobre o que realmente me motiva." Ele hesitou, como se lutasse contra si mesmo. "O acidente dos meus pais não foi um simples acidente. Havia algo mais."

Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. As palavras dele abriram uma nova porta para os mistérios que envolviam Rafael. "O quê você quer dizer?"

"Minha família, Helena, não era apenas uma família rica. Havia… negócios obscuros. Meu pai estava envolvido em algo perigoso. E eu acho que o acidente dele foi orquestrado." Ele a olhou nos olhos, sua expressão séria e determinada. "Eu passei os últimos anos tentando descobrir a verdade, tentando honrar a memória dos meus pais encontrando quem fez isso com eles. E quando eu vi o seu trabalho, a sua paixão pela arte, eu senti… eu senti que você poderia ser alguém em quem eu poderia confiar. Alguém que entende a beleza e a fragilidade da vida."

Helena o ouviu em silêncio, absorvendo cada palavra. A imagem que ela tinha de Rafael, um empresário bem-sucedido, começou a se desmoronar, revelando um homem com uma missão perigosa, movido por uma busca por justiça.

"Você acha que eu posso ajudar?", perguntou ela, ainda tentando processar a magnitude de tudo aquilo.

"Eu não sei se você pode ajudar diretamente com a minha investigação", admitiu Rafael. "Mas eu preciso compartilhar isso com alguém. Preciso sentir que não estou sozinho nessa busca. E você… você me trouxe uma paz que eu não sentia há muito tempo. Uma paz que me faz acreditar que talvez, apenas talvez, a luz possa vencer as sombras."

Ele estendeu a mão, e desta vez, foi Helena quem a pegou. Seus dedos se entrelaçaram, e um calor se espalhou entre eles. Naquele escritório empoeirado, cercados pelas memórias de um passado doloroso, um novo tipo de conexão se formava. Helena sentiu que estava entrando no mundo de Rafael, um mundo complexo e perigoso, mas também repleto de uma profundidade que a atraía irrevogavelmente. Ela não sabia o que o futuro reservava, mas naquele momento, ao lado dele, ela sentiu que não tinha mais medo de se entregar às suas emoções, por mais arriscadas que fossem.

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