Rendida a ele
Capítulo 9 — Os Ecos do Passado e a Teia de Enganos
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 9 — Os Ecos do Passado e a Teia de Enganos
O amanhecer na casa do rio trazia consigo uma atmosfera pesada. A noite de revelações e perigos deixara marcas em ambos. Helena sentia-se confusa, dividida entre a euforia do amor que acabara de desabrochar e o medo que a sombra da violência trouxera. Rafael, por sua vez, parecia ainda mais determinado, sua postura de homem à beira de uma descoberta perigosa se acentuando.
Após uma noite de sono inquieto, sentaram-se para tomar café da manhã na cozinha rústica da casa. O silêncio era pontuado pelo canto dos pássaros lá fora e pelo burburinho do fogão a lenha.
"Rafael, precisamos conversar sobre o que aconteceu ontem à noite", Helena iniciou, sua voz ainda um pouco trêmula. "Quem era aquele homem? E o que exatamente você está investigando?"
Rafael colocou a xícara de café sobre a mesa, seus olhos fixos em Helena. "Eu preciso te contar tudo, Helena. E preciso que você entenda o risco que corremos juntos." Ele respirou fundo. "Meu pai, antes de morrer, estava investigando uma rede de corrupção que envolvia empresários influentes e políticos. Ele descobriu provas de lavagem de dinheiro e tráfico de arte. Acredita-se que ele tenha sido silenciado porque estava prestes a expor tudo."
Helena arregalou os olhos. A ideia de Rafael estar envolvido em algo tão perigoso a assustava. Ela, que sempre buscou a tranquilidade em seu trabalho, se via agora no centro de uma trama complexa e sombria.
"E você acha que esse ataque foi uma tentativa de te parar?", ela perguntou, sua voz embargada.
"Exatamente", Rafael confirmou, sua mandíbula tensa. "Eu venho juntando as peças há anos. Encontrei algumas das provas que meu pai escondeu. E eles sabem disso. Sabem que eu estou perto."
"Mas por que você me envolveu nisso?", Helena questionou, a apreensão crescendo em seu peito. "Eu sou apenas uma artista. Eu não tenho como ajudar em uma investigação assim."
Rafael segurou suas mãos sobre a mesa. "Você se lembra do que eu disse sobre a arte ser a ponte? E você, Helena, foi a faísca que reacendeu essa ponte. Sua paixão pela arte me inspirou a buscar justiça para meus pais. E sua presença… você me trouxe uma força que eu não sabia que possuía. Eu quero proteger você, mas também preciso que você esteja ao meu lado. Confio em você mais do que em qualquer outra pessoa."
A sinceridade nos olhos de Rafael era inegável. Helena sentiu um nó na garganta. O amor que ela sentia por ele era forte, mas o medo da situação era igualmente poderoso. Ela se lembrava das palavras de Dona Lurdes sobre arriscar no amor. Talvez fosse isso.
"Eu não sei se sou corajosa o suficiente para isso, Rafael", ela confessou. "Meu mundo é feito de madeira e tintas. O seu é feito de perigos e segredos."
"Eu sei que é pedir muito", Rafael disse, apertando suas mãos. "Mas não te peço para investigar. Peço apenas que você confie em mim. Que me deixe te amar. E que, se algo acontecer, você saiba que eu fiz tudo o que pude para te proteger."
O olhar dele era um pedido silencioso, carregado de uma esperança que tocava o coração de Helena. Ela pensou nas noites de solidão que antecederam a chegada de Rafael, nas tentativas frustradas de encontrar um amor verdadeiro. Talvez ele fosse o amor que ela tanto esperava, mesmo que viesse embalado em perigos.
"Eu confio em você, Rafael", Helena disse, sua voz firme. "E eu não vou me afastar. Farei o que puder para estar ao seu lado."
Um sorriso genuíno iluminou o rosto de Rafael. Ele se inclinou e a beijou suavemente. "Obrigado, meu amor."
O momento de cumplicidade foi interrompido pelo toque do celular de Rafael. Ele atendeu, sua expressão mudando de ternura para preocupação.
"Sim?", ele disse, ouvindo atentamente. Um instante depois, seu rosto ficou pálido. "O quê? Como assim desapareceu? Verifique tudo de novo. Preciso saber o que aconteceu com aqueles documentos." Ele desligou o telefone, um semblante sombrio tomando conta de seu rosto.
"O que foi?", Helena perguntou, apreensiva.
"Os documentos que meu pai deixou comigo... eles sumiram do meu cofre. Alguém os levou." Rafael bateu com o punho na mesa. "Eles sabem que eu tenho eles. E agora eles devem estar correndo para destruir tudo."
A notícia era um balde de água fria. A teia de enganos parecia se apertar ao redor deles.
"Isso significa que você está em perigo ainda maior", Helena disse, a voz embargada.
"Sim", Rafael concordou. "E a pessoa que roubou os documentos não foi um amador. Foi alguém de dentro. Alguém que conhecia minhas medidas de segurança."
Ele se levantou e começou a andar pela cozinha, pensativo. Helena o observava, sentindo a impotência e o medo.
"Tem alguém nos traindo, Helena", Rafael disse, parando de repente e olhando para ela. "Alguém que está passando informações para eles."
A suspeita pairou no ar, fria e cortante. Helena se perguntou se havia alguém em quem eles pudessem confiar. A imagem de algumas pessoas em sua vida, e na vida de Rafael, passou por sua mente.
Mais tarde, de volta à cidade, Helena se dedicou ao trabalho em seu ateliê, tentando encontrar refúgio na familiaridade da madeira. Mas a imagem do ataque, as palavras de Rafael sobre a traição, pairavam como nuvens escuras.
De repente, seu celular tocou. Era um número desconhecido. Hesitante, ela atendeu.
"Helena?", uma voz masculina, distorcida, perguntou. "Você está com o Rafael, não é? Precisamos conversar. É sobre os documentos."
Helena sentiu um arrepio. "Quem é você?"
"Alguém que quer a verdade. Alguém que sabe que você está em perigo. Encontre-me no antigo armazém na Rua das Flores, às dez da noite. Sozinha. Se você se importar com a vida do Rafael, venha."
A ligação foi encerrada abruptamente. Helena ficou paralisada, o celular escorregando de suas mãos. Um armazém antigo. Sozinha. À noite. Era uma armadilha, ela sabia. Mas e se fosse a única chance de descobrir quem estava por trás de tudo? E se fosse a chave para salvar Rafael?
Ela sabia que era loucura. Sabia que estava entrando de cabeça em um mundo de perigos. Mas o amor que sentia por Rafael, a determinação dele em buscar justiça, a impulsionavam. Ela não podia ficar parada.
Enquanto o sol se punha, pintando o céu com cores vibrantes, Helena tomou sua decisão. Ela iria ao encontro do desconhecido. Ela enfrentaria o perigo. Porque, naquele momento, seu coração pertencia a Rafael, e ela faria o que fosse preciso para protegê-lo e desvendar a teia de enganos que os cercava. Ela estava rendida a ele, e isso significava enfrentar todos os seus demônios.