O Ladrão do meu Coração

Capítulo 3 — Sussurros no Jardim da Memória

por Valentina Oliveira

Capítulo 3 — Sussurros no Jardim da Memória

O jardim dos Costa era um emaranhado de flores esquecidas e árvores antigas, um lugar onde o tempo parecia ter parado. As roseiras, outrora exuberantes, agora exibiam flores murchas e espinhos que pareciam garras de uma criatura adormecida. No centro, um velho banco de pedra, coberto de musgo, convidava à contemplação, mas também guardava a melancolia de incontáveis tardes de outrora.

Daniel se aproximou do banco, onde Dona Eulália o aguardava, envolta em um xale de lã, apesar do calor ameno. Seus olhos, embora turvos pela idade e pela dor, ainda carregavam uma fagulha de força, um vestígio da mulher que um dia fora. Isabela estava ao seu lado, a mão protetora pousada no ombro da avó.

“Senhora Costa”, Daniel começou, sua voz baixa e respeitosa. “Sinto muito pela perda. Entendo o quanto essa joia significa para a senhora.”

Dona Eulália suspirou, seus olhos fixos em um ponto distante, como se revivesse os momentos em que o colar esteve em seu pescoço. “Significa tudo, meu jovem. É a lembrança viva do meu Ademar. Um amor que floresceu neste mesmo jardim, sob este mesmo sol.”

Daniel sentou-se ao lado delas, mantendo uma distância respeitosa. Ele observou as mãos trêmulas da senhora, os dedos que antes acariciavam as pérolas agora repousavam inertes em seu colo. “A senhora se lembra de algo incomum hoje? Algum visitante, algum barulho fora do comum?”

Dona Eulália franziu a testa, seus pensamentos vagando pelas memórias confusas. “Tudo estava tão quieto, meu rapaz. O sol entrava pela janela, e eu cochilava na minha poltrona. Quando acordei, fui até a penteadeira e… nada. O cofre vazio. A joia sumiu.” Uma lágrima solitária rolou por sua bochecha. “É como se um pedaço da minha alma tivesse sido arrancado.”

Daniel assentiu, compreendendo a profundidade de seu sofrimento. “A senhora suspeita de alguém? Alguém que pudesse ter um motivo para fazer isso?”

A senhora balançou a cabeça. “Não tenho inimigos, meu jovem. Vivo aqui, rodeada das minhas lembranças. A única coisa que quero é paz.”

“E quanto à joia em si?”, Daniel insistiu. “Havia algo de especial nela, além do valor sentimental?”

“O pingente, meu rapaz”, Dona Eulália disse, um leve brilho voltando aos seus olhos. “Era em formato de coração, feito de ouro puro. E o fecho… havia uma inscrição. E&A. Para sempre, Ademar e Eulália.”

Daniel já tinha essa informação de Isabela, mas ouvir da própria Dona Eulália dava um peso diferente. Era um símbolo de amor eterno. Um alvo peculiar para um ladrão.

“E quem sabia dessa inscrição, senhora? Quem mais sabia sobre a joia?”

“Poucos. Minha Isabela, claro. E Dona Clara, minha fiel companheira há tantos anos. O Sr. Antônio, o jardineiro, às vezes ajudava a arrumar as coisas no quarto, mas ele é tão velho que mal enxerga.”

Daniel fez uma pausa. “Sua avó se lembra de ter visto alguém rondando a casa nos últimos dias? Um rosto desconhecido?”

“Não, meu jovem. A vida aqui é muito tranquila. Os vizinhos… bem, eles vivem suas vidas. Não há muita interação. Apenas eu, Isabela e Dona Clara.”

Isabela interveio, sua voz firme. “Sr. Daniel, minha avó não tem a capacidade de perceber certas coisas. Ela vive em seu próprio mundo de lembranças. Acredito que o ladrão sabia exatamente o que fazer.”

Daniel concordou com a cabeça. “É o que me parece. Um ladrão profissional, ou alguém com conhecimento íntimo da rotina da casa e das particularidades da joia.” Ele se virou para Isabela. “Você mencionou que o Sr. Antônio às vezes entrava no quarto. Ele tem acesso a chaves?”

“Sim, ele tem uma chave mestra para algumas áreas da casa. Mas ele sempre foi leal à família. Nunca faria algo assim”, Isabela defendeu.

“Lealdade pode ser testada”, Daniel murmurou, mais para si mesmo do que para elas. Ele se levantou, sentindo que precisava de uma perspectiva diferente. “Vou conversar com Dona Clara e o Sr. Antônio. Talvez eles tenham notado algo que passou despercebido.”

Enquanto Daniel se dirigia à cozinha, onde Dona Clara preparava o almoço com uma eficiência silenciosa, Isabela permaneceu ao lado da avó, observando o jardim. O sol, agora mais baixo no horizonte, pintava o céu com tons de laranja e roxo, criando um espetáculo de beleza que contrastava com a tristeza que pairava no ar.

Dona Clara, uma mulher de feições marcadas e olhar reservado, respondeu às perguntas de Daniel com a mesma discrição de sempre. “Ninguém, senhor. A casa estava em silêncio. Eu estava na cozinha o tempo todo, preparando o almoço. Não ouvi nada de diferente.”

Quando Daniel a questionou sobre o conhecimento da joia, ela hesitou por um breve momento. “Eu sabia que era importante para a Dona Eulália. O senhor Ademar a deu a ela quando se casaram. Era um símbolo do amor deles.”

Daniel sentiu a hesitação. Havia algo em sua resposta que não o convenceu completamente. “E a senhora sabia da inscrição E&A?”

Os olhos de Dona Clara se arregalaram levemente, mas ela logo recuperou a compostura. “Sim, eu sabia. Era um segredo deles.”

Daniel continuou sua investigação, encontrando o Sr. Antônio no jardim, cuidando das roseiras com a delicadeza de um artesão. O jardineiro, um homem curvado pelo tempo e pelo trabalho, respondeu às perguntas com uma voz rouca e arrastada.

“Ninguém esteve por aqui, senhor. Só eu e a Dona Clara cuidando das plantas. A casa é um lugar de paz. Não entendo por que algo assim aconteceria.”

Quando Daniel o questionou sobre o acesso ao quarto, o Sr. Antônio confirmou. “Sim, senhor. Às vezes, Dona Eulália me pede para tirar o pó dos móveis antigos. Tenho uma chave para isso.”

Daniel observou o velho jardineiro, seus olhos experientes tentando penetrar a fachada de simplicidade. Ele sentiu uma desconfiança sutil, mas nada concreto. Era como tentar capturar fumaça.

De volta à sala, Daniel encontrou Isabela debruçada sobre uma pilha de documentos antigos. Ela havia encontrado o baú de memórias da avó, repleto de cartas, fotografias e diários.

“Estou tentando encontrar alguma pista”, Isabela disse, sua voz tensa. “Talvez algo sobre alguém que pudesse ter inveja da felicidade da minha avó, ou que quisesse se vingar de alguma forma.”

Daniel se aproximou, seu olhar percorrendo as páginas amareladas. As cartas de Ademar para Eulália eram um testemunho de um amor profundo e apaixonado. As fotografias mostravam jovens sorridentes, cheios de vida e esperança. Mas em meio a tanta doçura, Daniel sentia a presença de algo mais sombrio, um mistério que pairava sobre a história da família.

Ele pegou um diário com capa de couro desgastada. Era de Eulália, escrito em sua juventude. As primeiras páginas eram cheias de euforia, descrevendo o início do romance com Ademar. Mas, à medida que avançava, a tinta parecia ficar mais escura, as palavras mais pesadas.

“Aqui”, Daniel disse, apontando para uma passagem. “Sua avó escreve sobre uma desavença com uma antiga amiga, uma tal de Sofia. Ela diz que Sofia sentia inveja do seu relacionamento com Ademar, que a acusava de ‘roubar’ o amor dele.”

Isabela arregalou os olhos. “Sofia? Eu nunca ouvi falar dela.”

“E há mais”, Daniel continuou, passando para outra página. “Eulália descreve Sofia como alguém possessiva, obcecada. Ela menciona que Sofia jurou que um dia ‘tiraria algo precioso’ dela, algo que a faria sofrer tanto quanto ela sofria.”

Um arrepio percorreu a espinha de Isabela. A joia. A joia do meu coração. As palavras de Sofia pareciam ecos do presente.

“Mas isso foi há décadas”, Isabela ponderou. “Essa Sofia ainda estaria viva? E teria motivos para fazer isso agora?”

“O tempo não apaga a vingança, Senhorita Costa”, Daniel respondeu, seus olhos fixos nas palavras escritas há tantos anos. “E a inveja é um veneno que pode corroer a alma por uma vida inteira. Precisamos descobrir quem é essa Sofia, e se ela tem alguma ligação com o roubo atual.”

Daniel sentiu uma pontada de algo que não sentia há muito tempo: curiosidade genuína. Não apenas pela resolução do caso, mas pela história por trás dele. A história de um amor que inspirava tanto devoção quanto inveja. E, em algum lugar nas profundezas de sua alma endurecida, ele sentia uma conexão com essa história, como se o passado estivesse se desdobrando diante dele, revelando não apenas um roubo, mas um segredo de amor e vingança.

Enquanto o sol se punha, lançando longas sombras pelo jardim, Daniel percebeu que o ladrão não era apenas um criminoso, mas alguém movido por uma paixão antiga e sombria. E ele, o detetive das sombras, estava prestes a mergulhar nesse abismo de emoções, onde os corações podem ser roubados e a vingança pode florescer como as mais perigosas das flores.

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